19/06/09

O dia seguinte

Não sei se é mais difícil o dia da morte se o funeral do dia seguinte, se os outros que se seguem com tudo o que há para tratar, se ainda o primeiro Natal depois daquele dia, se o nosso primeiro aniversário sem mimos, se as vezes em que pegamos no telefone para partilhar risos, confidências, histórias e anedotas da vida com dias menos bons. Não sei se é mais difícil ter de esvaziar guarda-fatos e roupeiros, se o cheiro das flores que não nos sai da cabeça durante meses ou anos, se as coisas que não tivemos tempo de dizer e que gostaríamos, se as coisas que dissemos e não as pensámos, se o rosto de alegria patética de quem já não sabe o que está a fazer, se o desatino de ter de dar a notícia, se a raiva que não passa, se as lágrimas que naquelas horas não correm, se o estado de adormecimento que é lançado em grito quando estamos sozinhas. Não sei se a força é pior ou menor quando repetimos a dose, não sei se um dia recuperamos do choque, não sei quantos anos são necessários, não sei se temos de chegar ao nosso dia para que outros sintam a dor que carregamos. Não sei quantos são precisos, mas sei que 15 anos não é o suficiente para esquecer o dia em que te vi partir e em que tu, meu Pai querido me abandonaste.

9 comentários:

Mike disse...

Um abraço, GJ.

ana v. disse...

Também não sei nada disso e ainda faço as mesmas perguntas, passados vinte anos. Mas uma coisa sei: não foi abandono, GJ. Foi uma qualquer impossibilidade de ficar.

Um beijo

(O seu texto é lindo e tocou-me fundo. No meu caso, infelizmente, já é aplicável a ambos, pai e mãe.)

GJ disse...

Obrigada, Mike.

Ana, obrigada. No meu caso também se aplica aos dois, mas em relação ao meu pai sinto sempre este dia duma forma muito apertada. Era um homem extraordinário que me influenciou muito. Em relação à minha mãe, apesar da perda ser mais recente revejo-me nos gestos e nas palavras. Talvez por isso a sinta mais presente.

Luísa disse...

Querida GJ, compreendo a sua expressão «abandono», no sentido de desprotecção. Foi também o que senti, que uma parte do mundo em que tinha acreditado até então com muito optimismo e segurança, incluindo uma benévola Providência Divina, ruiu. E não voltou a reconstruir-se. Apesar de tudo, faço por sentir que ele ainda está, algures, a olhar por mim. :-)
Um beijinho.

GJ disse...

Sim, Luísa foi esse sentido que senti o abandono. É como se de repente o telhado da nossa casa voasse.
Beijinho:-)

fugidia disse...

:-)

26 anos
Mais difícil?
O funeral.
O cheiro das flores que nunca mais desaparece, nem numa vida.
O que queríamos ter dito e não dissémos.
As lágrimas que nunca correram.
A ferida que nunca cicatrizou.
(até hoje não soube fazer o luto da minha irmã, seguidinha a mim).

Quando se repete a dose somos mais fortes, sim. E vamos aprendendo a fazer o luto.
A reconciliarmo-nos com a dor.
(percebi-o há cinco anos com a minha avó, minha quase mãe, e há um ano, com o meu pai).

Bonito texto, este seu GJ.
Um beijinho

Catarina disse...

A perda dos pais é sempre dolorosa, a do marido (no meu caso)deixa um vazio imenso, a casa torna-se grande demais, e os serões compridos demais. Mas a morte de um filho/a é pior. É como se arrancassem uma parte de nós e esse buraco nunca mais se enche, mesmo que haja outros filhos. Cada um tem o seu lugar, mas o daquele fica vazio, sempre vazio...
aqui vai um abraço de simpatia e compreensão.

Rita Vasconcellos disse...

GJ
As mãos de Eurídice é uma peça teatral brasileira escrita por Pedro Bloch que o meu pai gostava muito. Depois de ele morrer tentei encontrar o texto e descobri-o passados alguns anos online no Brasil
No dia em que recebi o livro, estava sózinha a trabalhar e com uma certa emoção comecei a desembrulhar o pacote.
Enquanto abria a cartolina, que envolvia o embrulho, um cheiro familiar a charuto surpreendeu-me dei um pulo da cadeira e fui à procura do fumador. Percorri o corredor e abri todas as portas do piso... nada, ... ninguém!

A partir desse dia, nunca mais me senti sózinha.
:-)

Obrigada pelo seu texto.
bj
Rita V.

GJ disse...

Tem razão Fugidia, vamos aprendendo a conviver com a dôr. É tão importante fazer o luto.
Beijinho.

Catarina, acredito que as perdas têm diferentes graus de sofrimento. A perda dum filho é contra-natura. São os filhos que devem ver partir os pais e não o contrário por isso deve ser um bocado de nós que parte também. O que me descreveu sobre as noites que não acabam e a casa demasiado grande quando se perde o cônjuge, tocou-me. Esse é o passo seguinte pela ordem natural da vida.
Obrigada pelas suas palavras e pela visita. Apareça sempre que entender:)

Rita, o seu testemunho é lindíssimo. Há coisas que não se explicam, acontecem. Se são ilusões, actos do nosso subconsciente ou outras forças não interessa aprofundar. São coisas que nos alimentam a força e a vontade de viver com alegria.

Obrigada pelo seu também e pelo ser Walter-Ego bem a propósito.
Bj