18/07/09

Transparência jornalística

Walter Cronkite é uma referência do jornalismo, "That's the way it is" era a forma como terminava as suas reportagens, morreu ontem com 92 anos. O jornalismo devia ser um meio em que Transparency works if it's authentic e que interessante seria que os nossos meios de comunicação fossem ditados por gente, que tal como Walter, puderam fazer jornalismo e dar lições de fiabilidade ao mundo. E poderem criar certezas e deixar dúvidas sobre assuntos que nos cabe a nós leitores, ouvintes e espectadores decidir em vez de ser o jornalista não a concluir por si, mas a concluir conforme lhe dizem para fazer. A época em que os jornalistas falavam na primeira pessoa e relatavam factos, deixou de se fazer na maior parte dos meios. Os projectos empresariais ditam as necessidades de notícias que são títulos de escândalos de pequenas palavras de duplos sentidos para chamar audiências e vender folhas de jornal ou vender espaço televisivo. Sempre se soube que a qualidade da programação dependia da qualidade dos anunciantes, hoje as agências de publicidade fazem os seus spots conforme a qualidade de quem lhes paga. E quem o pode fazer, nem sempre é quem tem melhor qualidade ou melhor produto, mas sim maior número de ouvintes ou espectadores e também maior capacidade para comprar espaço publicitário, que se tornou acessível aos que outrora o ambicionavam. Os jornalistas têm de cumprir prazos e programação ou editoriais conforme o plano de gestão. A linha editorial quase que não existe ou vai mudando conforme os ventos políticos. A cor do dinheiro veio alterar toda a transparência do que é noticiado, do que é passado como informação. O espectador é cada vez mais livre de pensar o que quiser mas cada vez mais incapaz de ter uma opinião, de saber o que dizer, de saber distinguir os factos do palavreado que o induz a pensar bem ou mal, conforme a capacidade de manipulação de quem o disse. Por isso, quando alguns jornalistas e articulistas vêm finalmente dizer que não seria pior que se soubesse o que se passa no interior das redacções, eu tenho de concordar, aplaudir e juntar-me a eles mesmo não sendo jornalista. E pedir transparência não só mas também, nas outras áreas que lidam com a comunicação com a informação e com o poder. A democracia e a cidadania também anda por aqui, certo?

10 comentários:

Luísa disse...

A democracia e a cidadania passam sobretudo por aí, como diz, GJ. Porque só somos verdadeiramente livres nas nossas escolhas (se é possível sermos, alguma vez, verdadeiramente livres), se estamos correctamente informados. E a correcção informativa depende, por sua vez, da liberdade de pensamento e de expressão de quem informa. Qualquer interferência de interesses no mundo jornalístico afecta, inevitavelmente, essas duas liberdades que, na minha opinião, estão na essência do «conceito» democrático.

Mike disse...

GJ, este seu texto é outra grande homenagem ao que Walter Cronkite representou no "fazer jornalismo" nos tempos modernos (a par do do Pedro Correia, se bem que abordando outro prisma).

ana v. disse...

Gostei imenso do texto, GJ.

fugidia disse...

Claro que sim. Em todos os assuntos temos de conhecer para poder (bem) decidir.
Contudo, o que me espanta é como continuamos a opinar alegremente sobre tantos assuntos que desconhecemos... só porque lemos uma qualquer notícia, mesmo conhecendo os pressupostos em que ela é escrita e que aqui tão bem explana, GJ.
(digo eu, que a propósito de temas do meu "ramo" vejo tanta "asneira" escrita que até tremo) :-)

RAA disse...

Muito bom texto, GJ.
A fiabilidade é um conceito-chave.
Lembrei-me, ao lê-la, de dois jornalistas (con)fiáveis: Adelino Gomes e Joaquim Furtado. A imprensa seria muito melhor se profissionais como eles fossem mais seguidos.

GJ disse...

Luísa, as nossas escolhas têm o peso do nosso julgamento e nesse sentido, somos sempre cativos da nossa consciência. Por isso é muito importante termos as duas liberdades que a democracia confere: pensamento e expressão.

GJ disse...

Mike, diz bem. "Fazer jornalismo" porque jornalistas temos poucos. Temos muitos comunicadores de coisas mas poucos especialistas em qualquer coisa. A maioria continua sentado à secretária e poucos saem para o terreno. E continuamos a recorrer a comentadores, sempre os mesmos, quando deveriam ser jornalistas a informar.

GJ disse...

Ana, obrigada também penso que é importante escrevermos sobre esta questão.

GJ disse...

Fugidia, esse é um dos nossos pontos fracos. Todos sabemos de tudo, incluindo nós próprias que por aqui andamos.:)
Mas estes são espaços de autoria própria e que apesar de influentes não têm o poder duma televisão, podem ser rebatidos e ajudam a formar ideias. Agora se as ideias não tiverem outros locais fiáveis para se desenvolverem, é que se tornam um perigo democrático.

GJ disse...

Completamente de acordo, RAA. A fiabilidade de informação é um dos fundamentos da democracia e, sem dúvida, um conceito-chave.