15/08/09

Cogumelos em fantasia gourmet

Tinha acabado de chegar dum país distante após um período de ausência. A facilidade de tradução era proporcionalmente inversa à capacidade de encontrar emprego na minha área de especialização. Na sequência de tentativas falhadas, respostas a anúncios e cartas a várias fontes de angariação, um dia uma oferta de emprego numa instituição desconhecida captou-me a atenção. Passado o processo de recrutamento e respectivas entrevistas, fiquei com a certeza que o lugar era meu. Assim, começou a minha carreira no meu regresso a Portugal. A formação profissional dava os primeiros passos, a equipa era nova, o grupo interessante mas havia tempos mortos. Quando se tem maturidade, família constituída e hábitos de trabalho noutros países tudo nos parece lento. Um dia, um dos "loucos da inteligência artificial" perguntou-me se eu lhe dava uma ajuda num trabalho que tinha pela frente. Sempre achei piada àquela gente que só vê computadores e cuja cabeça funciona a 500 à hora. Das ideias mais absurdas podem surgir os maiores inventos. E assim dei comigo a fazer não só a segmentação dos cogumelos, mas a traduzir do inglês para português uma perfeita contagem e minuciosa listagem de características dos mesmos. Não só a sua sua origem, como o seu nome científico e o vulgaríssimo que o homem comum conhece, os venenosos, os comestíveis, os diferentes tipos, as regiões a que pertencem, as cores, os feitios e enfim uma série de atitudes. Para que serviu o estudo não sei, o tempo passou mas não o suficiente para me esquecer do gozo e da trabalheira que aquilo me deu. Tanto mais que tive de o fazer duas vezes: o esquecimento da gravação levou a que começasse tudo de novo, safando-se o Mac porque não tinha outro remédio.
Passaram-se os anos e eu aprendi a gostar e a cozinhar os ditos fungos de várias maneiras. Entretanto, os pobres chegaram à mesa dos mais novos em versão enlatada. Não só à mesa dos mais novos, como às ementas de quem nos quer impressionar com a sofisticação do manjar. E vai daí, ele é cogumelos com ovos, com carne, com peixe, com massa, com todas a espécie de qualquer coisa. Enfim, um atropelo a tudo o que é comida e uma indigestão de aromas a boletos. Tirando isto, a experiência é maravilhosa e desde que não se confundam as espécies mortíferas, tudo o resto é uma questão de sabor, saúde e fantasia, para além de inteligência que nada tem de artificial. Bem-vindos ao mundo dos cogumelos!

2 comentários:

Luísa disse...

A gente, no decurso da vida profissional, vê-se, às vezes, a fazer (e a descobrir) coisas extraordinárias, GJ. Houve um tempo em que também estive ligada a trabalhos de tradução e revisão de textos de patentes de invenção e não imagina os segredos «civilizacionais» que então desvendei. Mas nada com a utilidade prática dos cogumelos, reconheço, cujo saber aprofundado é tão importante na pressão de um piquenique campestre, como de um fogão genuíno e criativo. ;-)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Tem toda a razão. Os cogumelos que po aí se comem sabem todos ao mesmo. Nada como os naturais, para lhes apreciar o sabor.
a propósito... conhece os "magic mushrooms"? Conheci-os no Oriente, mas foi na Holanda que comi os melhores.