02/09/09

As madeiras portuguesas

Ali para a região de Paços de Ferreira a madeira que mais se tem usado ultimamente para desenvolver a indústria do móvel é o pinho. Antigamente, quem queria requinte escolhia as belas e exóticas madeiras africanas. Os móveis eram assim talhados artesanalmente pelos nossos artífices e vendidos mais tarde nas fábricas da região do Vale do Sousa. O país corria a Paços de Ferreira e a Paredes para comprar o que sabíamos ser a qualidade do produto nacional. Com o desenvolvimento das políticas ecológicas e de protecção da floresta, outras soluções como os aglomerados, apareceram e deram origem à famosa Tabopan na região de Amarante, e mais tarde a uma fatia razoável e parte do negócio de Belmiro de Azevedo. Enquanto este, se entendeu com as diversas formas de fazer barato o produto que muita gente aproveitou, o Comendador José de Abreu dono da Tabopan ficou em situação difícil no pós 25 de Abril com os trabalhadores em greve, o negócio em ruínas e sem as mordomias provenientes do anterior regime. Cada um fez o que pode para se enquadrar na nova realidade do Norte do país e das madeiras em geral. No entretanto, quem queria comprar uns móveis baratinhos de cozinha ou coisa simples ia à Rua da Picaria no Porto e escolhido o móvel de madeira de pinho, era só levar para casa acabar de envernizar ou pintar conforme o gosto. A madeira de pinho, nunca teve grande reputação, embora hoje se saiba que é utilizada de forma mais sofisticada por muitos arquitectos. É dura e difícil de trabalhar mas com arte e sabedoria tem sido utilizada com mais frequência e sem o mesmo rancor. Em Portugal, sempre encontramos forma de deitar abaixo o produto nacional, desvalorizar o material até ao dia em que o dito cai em desgraça. Aí, somos exímios em reabilitar a peça. Foi que aconteceu com Manuel Pinho, o nosso ex-ministro da Economia, meu predilecto pela capacidade de desenrascar as situações mais difíceis e também o mais absurdo dos ministros a dialogar com os empresários, que por alguma razão desconhecida e que só pode estar relacionada com a cena dos corninhos, passa a nome de avenida. E nada como a Câmara Municipal de Paços de Ferreira para lhe atribuir tal distinção. Na verdade, foi a graças a Pinho que parte das fábricas foram ao ar, as multinacionais se instalaram, a escola de design se fez, os suecos continuaram alimentar os jantares e eu, uma portuguesa incluída nos convites de apresentação das mega reformas e dos projectos de desenvolvimento tecnológico, comi o tal capão no dia da assinatura do Tratado de Lisboa. O Tratado foi-se e eu já me estou a fazer ao bife que irei saborear na próxima temporada de apresentações à pala de mais uns talhantes da região do Sousa com corninhos à mistura e madeiras do norte da Europa.

6 comentários:

Luísa disse...

Percebo pouco do negócio das madeiras, GJ. Mas lembro-me de, há uns anos, se ter falado numa crise do nosso pinhal, progressivamente substituído (por via de uns estranhos incêndios) pelo eucaliptal. Isto porque o eucalipto era - e é - uma árvore de crescimento muito rápido, que se tornava, portanto, mais rentável (em especial para as indústrias da pasta e do papel) do que o pinheiro. Agora usam no mobiliário o pinheiro sueco? Se calhar é porque o nosso, depois daquela «fogosa» crise, é espécie protegida, ameaçada de extinção. Será? :-)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Rua da Picaria! Que recordações me trouxe... Tal como a Luísa, de madeiras não percebo nada, e quanto ao pinho só sabia das pinhas e apreciava o seu conteúdo em noiytes de Natal. Muito antes de o pinho fazer corninhos na AR. Terá sido a globalização?

mfc disse...

Adorei a referência à Rua da Picaria e ao que lá compravamos e "transformavamos"!!!

GJ disse...

Pois talvez tenha razão, Luísa. Mesmo depois da "fogosa" crise, continuamos a reciclar muitos pinheiros. Podem é estar caducos e não dar pasta nem papel. :-)
Se as escrituras não nos ajudarem ainda vem aí o carmo e a trindade.

GJ disse...

É verdade, Carlos. A globalização essa coisa que todos queriam e agora é a causa de todos os males. As pinhas têm o problema do tarolo associado aos pinhais e aos pinheiros.:-)

A Rua da Picaria, fantástica e engolida pelos centros comerciais. Comprava-se móveis, encomendava-se molduras e chegava-se ao Largo Montpelier cansados pela escalada e pela tralha adquirida.

GJ disse...

Meu caro mfc,ao que transformavamos,diz bem!