30/06/10

Pontos de encontro

As viagens servem para questionarmos o que andamos a fazer. Por isso é importante levar o coração ao largo e deixar entrar as emoções. A serenidade deve estar presente e não devemos deixar que o coração se aperte. Passamos melhor a fase de adaptação e mantemos a capacidade para nos posicionarmos no ponto de partida e nos prepararmos para o de chegada. Voltar ao local do passado quando dele partimos sem vontade, é um exercício de condescendência gradual. Desarrumar gavetas e abrir pacotes com teias de aranha não ajuda a apaziguar feridas, pelo contrário aumenta a alergia. Os sótãos só têm interesse quando o caixote está cheio de brinquedos e fotografias alegres ou de registos dos outros. Sempre que regressamos em busca do que já foi, ou temos o sótão pessoal muito bem arrumado ou dificilmente encontramos o que pensávamos que estava lá. Por isso o melhor é deixar o passado no lugar que deve ter, e procurar o outrora nosso com o coração ao largo sem antecipação e olhando para ele como se fosse a primeira vez. As viagens são diferentes à partida e à chegada. É bom regressar com o sentimento de chegar a casa, apesar de muitas vezes sentirmos que a casa podia estar noutros lugares mais distantes. Ao invés, regressar e sentir o coração apertado de quem não encontrou o seu destino final é o sentimento de quem não está bem no espaço que frequenta, e é por isso que o desejo de voltar a partir se instala tão facilmente. A eterna saudade do viajante é algo que um dia deixaremos a outros para que a guardem no sótão. Até lá, as viagens servem para nos reencontrarmos com a vida, connosco e com os outros.

10 comentários:

Mike disse...

Gostei muito (muito mesmo) deste "pontos de encontro". Não preciso explicar porquê, não é GJ? ;-)
Tinha escrito um texto cujo título era "esperança". Foi escrito num momento de falta dela e tinha decidido não partilhá-lo porque me soou a amargo. É curioso que depois de ler este seu texto, decidi postar o meu. Fala da falta de esperança mas já não o sinto amargo. Obrigado, GJ. :-)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Na sua última frase está resumido o prazer que me dá viajar. Bem diferente de ir a qualquer sítio passar uns dias ou mesmo fazer férias.

Dreamer disse...

Gostei muito!

GJ disse...

Mike, pareceu-me realista o seu texto. Amargo, só no tal de coração desalinhado.:-)

GJ disse...

Carlos, estou consigo no que toca a viajar. Por isso me é tão difícil descrever o que gosto numa cidade. Tantas coisas que de tão insignificantes nos alteram a visão do lugar para sempre.

GJ disse...

Dreamer, este também é um ponto de encontro que é muito grato.:)

bacouca disse...

GJ
No seu belissimo texto eu distingo as viagens das mudanças de local para viver.
Para ambas temos que levar o coração aberto, saber apreciar as diferenças, misturarmos com os naturais, apercebermos o seu modo de vida pois tudo isso só nos enriquecerá. Agora ir viver para um sítio onde fomos felizes e voltar eu só o fiz uma vez e espero não voltar a acontecer. Custou-me imenso a adaptação porque eu tinha mudado, porque as pessoas tinham parado, porque não era o local que eu tinha conhecido: voltar para férias muito bem. Para viver nunca! E garanto que tinha o sotão bem arrumado!
Um dia talvez voltarei a pegar neste tema!
Um beijo

GJ disse...

Compreendo o que diz, Bacouca. Regressar ao lugar do "crime" nunca dá certo. Deixei alguns amigos verdadeiros fora de Portugal, e também me aconteceu verificar que passados anos quando os visitei, eles estavam muito mais parados no tempo que eu que tinha feito muitas coisas no espaço de dez anos.

ana v. disse...

Tem razão, GJ: "As viagens servem para questionarmos o que andamos a fazer". Eu diria mesmo que servem para nos questionarmos sobre quem somos. E só acrescento mais um dado, que aprendi com as minhas experiências de viajante: nunca voltamos os mesmos que éramos quando partimos. Se isso acontece é porque não chegámos a partir, por dentro.

Luísa disse...

A mim, GJ, as viagens serviram, durante os primeiros anos – e descontada a curiosidade turística - para me reconciliar com certas «toillettes» que achava muito ousadas e que, depois de experimentadas lá fora, perdiam a ousadia. Penso que também acontecia o mesmo com certas ideias, com certas perspectivas e com certos aspectos de mim mesma que me criavam inseguranças. As coisas estranhas deixavam de o ser. Viajar é, para mim, essa conciliação com o que tardo a aceitar. :-)