31/07/10

Livre

Entrei ligeira e saí depressa, não com o ar cansado do costume mas com a andar leve e solto de quem está livre. Entrei no carro, rumei para sul e nunca pensei que a viagem me desse tamanho prazer. Olhei o mar, senti o cheiro, vi a liberdade no pranto, senti o suspiro, as lágrimas correram, e o meu corpo de pele escaldada finalmente, serenou. Voou em liberdade como só o preso deve conhecer e senti que, a partir de hoje não tenho direito a lamentos mas apenas a comemorações. Aos amigos que me acompanharam nestes últimos meses o meu muito obrigada!

30/07/10

Radioterapia

Quando chegamos à radioterapia fazemos parte dos sem rosto, a nossa identidade vai levar tempo a ser reposta. Caras iguais, cabeças desnudadas e intimidades à vista. Com o tempo e à medida que as semanas vão passando, os rostos começam a ter alma, o cabelo inicia a sua caminhada, as pestanas e as sobrancelhas fazem-se gente e a rotina da normalidade renasce. O verbo continua, no entanto, no gerúndio e o tempo vai-se fazendo. A calma é uma constante e o mais difícil é reencontrar a nossa identidade. Não serve pegar no que deixamos há nove meses porque, na verdade, temos de recomeçar o ponto. Como no crochet, nota-se que a sequência está laça, precisa de reganhar o ritmo para ficar um trabalho perfeito. Há dias, perguntaram-me porque me protegia, eu tanto, no passado. Porque queria ser perfeita e ambicionava que me vissem desse jeito. Hoje, passado o tempo de contemplação, continuo a querer o mesmo com a diferença do meu tempo ser mais alentejano. Sinto que as minhas angústias são mais passageiras e as minhas lamentações menos graves, vejo-me com igual impaciência para as questões de falta de ética ou de incompetência, tenho a mesma preferência por gelado de framboesa e limão, mas não me irrito se me trazem manga com baunilha.
A radioterapia cansa, queima, entristece o corpo. E mesmo sabendo que estamos a chegar ao fim desta fase da luta, não sentimos que a batalha esteja vencida. Na verdade, continuamos com todas as nossas forças a reequilibrar o que ninguém nos disse como era feito. Mais uma vez reconhecemos que a força só pode ser nossa se ela estiver cá desde o inicio. Ficamos diferentes talvez, e essa diferença ainda não a temos, ela virá decerto com o tempo e à medida que recuperarmos a nossa identidade.
Amanhã, farei a 35ª e última sessão de tratamentos de radioterapia. Hoje, tive alta e sinto-me grande no porte e na felicidade de me encontrar a caminho da próxima escalada, mesmo que ainda não saiba o destino final. Ao longo destes meses, tentei racionalizar a doença para a ultrapassar e vencer. Dei comigo a reflectir sobre assuntos ou vertentes pessoais às quais não tinha atribuído importância anteriormente. Neste tempo de auto-análise tendemos a particularizar sentimentos que só têm significado num contexto de fragilidade e na realidade, não fui eu que passei a ter outra visão de mim e dos outros, mas apenas tempo a mais para os enxergar. Como o dia-a-dia se faz de muitas sequências, demasiado tempo com a mente à solta passa a ser uma eternidade com reflexões mais ou menos tolas em tempo de pressa. Entre altos e baixos, os meses fizeram-se com ligeireza, com saudades de mim, vontade de chegar ao fim e com a convicção que o cancro também se vence.

António Feio e Tiago Alves

Ontem foi a morte de António Feio, há dias foi a de Tiago Alves um judoca com apenas dezoito anos.

Dois talentos que não deviam ter partido, cada um com o cancro que os deixou ficar mal!

29/07/10

É o conceito, puxa!

Como o conceito conta, uma oportunidade de ouvir bom fado ou boa guitarra é bem diferente do que ir aos fados num qualquer lugar onde o artista de ocasião se esganiça, e com os trejeitos habituais nos pretende convencer que o que nos impinge, é fado e guitarra portuguesa. Felizmente, sabemos ser criteriosos naquilo que é nosso mas é pena que ainda exista a ideia de que para estrangeiro qualquer coisa serve, se venda gato por lebre a preços de faisão ou ainda que se esfole quem gosta de fado.
Estive recentemente no Clube de Fado onde a boa música se faz ouvir e a guitarra de Mário Pacheco é magistral. Quem lá vai fica com a sensação de espectáculo bem conseguido, mas a conta é pecaminosa e mais para estrangeiro pagar do que para português apreciar. No final da noite é difícil convencer quem paga a factura, que aquele lugar é melhor do que a tradicional casa de fados da rua da Barroca. Se ainda o repasto fosse original, eu e imagino que outros como eu, estariamos perdoados. Não sendo assim, lá terei de arrastar o meu cartão de crédito para cima da mesa na próxima ocasião, e voltar a dizer: ó pá é o conceito, puxa!


Mario Pacheco live in Belem - Despertar da Cidade


Ha Uma Musica do Povo - Mario Pacheco & Mariza

Por outro lado, Ana Moura e Prince fazem títulos e capas a cantar no Meco. Afinal, em que ficamos em relação ao conceito? Bom, lá terei de iniciar tudo de novo. Ó Jóia, tá bem, puxa!



Prince e Ana Moura - Vai dar de beber à dor

26/07/10

Babies

23/07/10

Abutres em Portugal

Leio que há quarenta anos que não havia crias de abutre-preto a voar em Portugal. Não me espanta que estejam a regressar os que andavam fugidos, mas fico apreensiva. Já tínhamos tanta espécie à solta e ainda vêm mais estas juntar-se, aos de outras cores, que por aqui têm andado.

19/07/10

Good Madness à segunda-feira!


LED ZEPPELIN : Stairway to Heaven

17/07/10

Rosa

16/07/10

A gente...

"A gente não faz amigos, reconhece-os." Vinicius de Moraes

15/07/10

Silêncios

Cada vez aprecio mais o silêncio. Da casa, das ruas, do mar, dos rios, do mundo poluído de sons. Só não gosto do silêncio das pessoas e dos povos. Estaremos todos adormecidos ou é coisa de Verão?

Silêncio

Já o silêncio não é de oiro: é de cristal;
redoma de cristal este silêncio imposto.
Que lívido museu! Velado, sepulcral.
Ai de quem se atrever a mostrar bem o rosto!

Um hálito de medo embaciando o vidrado
dá-nos um estranho ar de fantasmas ou fetos.
Na silente armadura, e sobre si fechado,
ninguém sonha sequer sonhar sonhos completos.

Tão mal consegue o luar insinuar-se em nós
que a própria voz do mar segue o risco de um disco...
Não cessa de tocar; não cessa a sua voz.
Mas já ninguém pretende exp'rimentar-lhe o risco!

(David Mourão-Ferreira, in "Tempestade de Verão)

12/07/10

Good Madness à segunda-feira!


Stevie Wonder - Superstition

09/07/10

Aos meus filhos

De vez em quando os filhos perguntam-me porque os estou a olhar. A resposta é isso aí, não tem grande explicação. Cada um pelas próprias razões de um dia os ter trazido ao mundo. É isso aí.


"E isso ai" Ana Carolina y Seu Jorge

08/07/10

Parabéns Mariana!

A mais nova faz hoje 20 anos e como adora fado, deixo-lhe este presentinho. Parabéns à minha filhota Mariana!

Carminho- Escrevi Teu Nome no Vento

06/07/10

Que raiva

Uma pessoa sai de casa cedo, o tempo está mais do que bom, as aulas terminaram e o trânsito deverá fluir com mais rapidez, mas não. As escolas de condução pensaram o mesmo e eis-las à minha frente, devagarinho como manda a lei, a aprender com muito cuidado e a engarrafar as ruas. No momento em que nos libertamos, aparecem todos aqueles com matricula sem ano e senhoras que vêem as montras enquanto guiam. E quando finalmente chegamos ao destino, um fangio qualquer buzina-nos a traseira porque fizemos uma manobra mais arrojada. Dá-me cá uma raiva!

05/07/10

La piscine (1969)


O Biquini faz anos


1946 - Micheline Bernardini
1970 - BB

Good Madness à segunda-feira!


Aretha Franklin " A Natural Woman " Italy 1971

04/07/10

Larry King Live


Larry King and Tina Turner

Todos iguais

A Fernanda acabou o tratamento, a Augusta tem mais uns dias, a Filomena diz-nos adeus na quarta. Eu acabei a terceira semana de radioterapia, faltam outras tantas. O ar do IPO é mais pesado que o dos corredores do Hospital de Sto António, as pessoas estão quase todas a fazer e a pensar o mesmo. A comunidade de utentes passa horas à espera "do tratamento", ouvem-se risos misturados com relatos pessoais e indignações de vez em quando. É também um local de estacionamento dos familiares que acompanham quem vem de longe. As SCUTS são tema de conversa, o preço dos bens alimentares e a sardinha que alguém tem de assar quando acabar o tratamento desse dia, também. Repetidamente, Fernanda, Celeste, Augusta, António, "ao tratamento". De vez em quando, Joaquina, sala de tratamento 1. Cinco dias na semana e pelo menos duas a três horas passadas na sala de espera. O ar é pesado, as histórias vão passando e a esperança renova-se até ao dia seguinte. Nota-se, no entanto, uma certa segmentação de grupos. Os grupos dividem-se por áreas geográficas. Eu gosto de me sentar junto do grupo de Paços de Ferreira, pelo caminho vou sabendo que um dos maridos é serralheiro, outro carpinteiro, um é irmão e primo de outro acolá e as mulheres com a pele tisnada pelo sol, e sem rugas, falam dos filhos adolescentes ou universitários. É bom saber, que apesar da ruralidade os jovens querem seguir outros caminhos e têm pais para os incentivar. É reconfortante perceber que apesar de tudo somos todos iguais. "Que idade você tem? pergunta-me a Fernanda. "Olhe, que está bem conservada!". Todos iguais, com mais ou menos make-up!

03/07/10

Os corredores da vida

Na casa da minha infância havia um corredor que a atravessava. Naquela época os corredores estavam destinados a representar parte do dia-a-dia de quem lá vivia. Os espaços estavam organizados para acolher, esconder e viver segundo linhas traçadas a rigor. Nos últimos anos de vida, a minha mãe quando instigada a caminhar para o seu bem-estar fisico, retorquia que se fartava de andar no corredor. Os corredores eram sombrios e muitas vezes sussuravam mistérios e segredos de mulheres. Antigamente as mulheres tinham muitos segredos que escondiam dos olhares e dos ouvidos masculinos. Só os filhos homens as ouviam e logo as esqueciam assim que chegavam à fase adulta. Lembro-me da casa sempre cheia de gente que entrava e saía. Mais tarde, era um prazer poder fingir aulas e estudos que me permitiam estar sózinha. A casa estava sempre em burburinho, desde os próprios habitantes a aqueles que constantemente aí batiam. As vendedeiras, o rapaz da mercearia, o cigano que vendia cortes de tecido, o pobrezinho do mês, as senhoras da igreja, as amigas da minha mãe. A casa tinha as duas empregadas, que na época ninguém se aborrecia que fossem criadas, a costureira, o marido da antiga criada que todas as tardes antes de ir para casa passava para cumprimentar a madrinha e ao mesmo tempo namorar a criada mais nova enquanto depenicava o jantar que estava a ser preparado, e os familiares menos desafogados que sempre apareciam, por acaso e por estarem de passagem, à hora das refeições ou ao domingo de manhã antes da hora da missa, significando que ficariam para almoçar. Depois havia o meu bisavô galego que por ser invisual reunia muitos à sua volta. Este meu bisavô que fazia questão em dizer que era galego quando lhe perguntavam se era espanhol, recebia com frequência os primos que viviam na Galiza e que traziam chocolate e levavam café. Da minha primeira infância, recordo sentimentos de morte no ar que conviviam amenamente com o resto. Havia sempre alguém que morria e as idas ao cemitério faziam parte do nosso quotidiano. Passei várias tardes empenhada a mudar flores no jazigo da família e a olhar as fotografias dos que nunca conheci. Aquilo não me afligia, pelo contrário, eram casas que pertenciam a famílias, que tal como a minha, tinham para onde ir quando morressem. O cemitério do Alto S. João tem moradas imponentes. Os cemitérios, portanto, nunca me fizeram transtorno e anos mais tarde, quando regressava das aulas em vez de caminhar por fora do cemitério fazia-o muitas vezes pelo corredor interno que fica junto à Morais Soares. Penso que era o silêncio que eu procurava e também atazinar as colegas que morriam de medo.
A vida tem muitos corredores. No dia em que decidi passar à segunda infância, o corredor era mais amplo e a minha mãe mais terna, mais conservadora e algo rígida também. Nunca percebi se ela era mais ou menos feliz, apenas que os olhos sorriam enquanto no passado riam. Sei, que estava mais serena e acomodada, e este sentimento determinou que a minha vida se abrisse a outros corredores. Assim que surgiu a idade adulta, e com ela a oportunidade, eu corri para outra cidade. Muitas outras estórias sem importância me aconteceram incluindo a que tenho vindo a contar. Nunca se saberá a veracidade delas, ou o riso de quem as conta, apenas que por aqui ficam numa tarde, deste dia de Julho.

02/07/10

Bloggar

Tentando bloggar nas salas de espera do IPO ou como enviar várias vezes a mesma mensagem para os vizinhos :)))
Bom fim-de-semana a todos!

Good Madness à segunda-feira!

Seal - Fly like an Eagle