03/07/10

Os corredores da vida

Na casa da minha infância havia um corredor que a atravessava. Naquela época os corredores estavam destinados a representar parte do dia-a-dia de quem lá vivia. Os espaços estavam organizados para acolher, esconder e viver segundo linhas traçadas a rigor. Nos últimos anos de vida, a minha mãe quando instigada a caminhar para o seu bem-estar fisico, retorquia que se fartava de andar no corredor. Os corredores eram sombrios e muitas vezes sussuravam mistérios e segredos de mulheres. Antigamente as mulheres tinham muitos segredos que escondiam dos olhares e dos ouvidos masculinos. Só os filhos homens as ouviam e logo as esqueciam assim que chegavam à fase adulta. Lembro-me da casa sempre cheia de gente que entrava e saía. Mais tarde, era um prazer poder fingir aulas e estudos que me permitiam estar sózinha. A casa estava sempre em burburinho, desde os próprios habitantes a aqueles que constantemente aí batiam. As vendedeiras, o rapaz da mercearia, o cigano que vendia cortes de tecido, o pobrezinho do mês, as senhoras da igreja, as amigas da minha mãe. A casa tinha as duas empregadas, que na época ninguém se aborrecia que fossem criadas, a costureira, o marido da antiga criada que todas as tardes antes de ir para casa passava para cumprimentar a madrinha e ao mesmo tempo namorar a criada mais nova enquanto depenicava o jantar que estava a ser preparado, e os familiares menos desafogados que sempre apareciam, por acaso e por estarem de passagem, à hora das refeições ou ao domingo de manhã antes da hora da missa, significando que ficariam para almoçar. Depois havia o meu bisavô galego que por ser invisual reunia muitos à sua volta. Este meu bisavô que fazia questão em dizer que era galego quando lhe perguntavam se era espanhol, recebia com frequência os primos que viviam na Galiza e que traziam chocolate e levavam café. Da minha primeira infância, recordo sentimentos de morte no ar que conviviam amenamente com o resto. Havia sempre alguém que morria e as idas ao cemitério faziam parte do nosso quotidiano. Passei várias tardes empenhada a mudar flores no jazigo da família e a olhar as fotografias dos que nunca conheci. Aquilo não me afligia, pelo contrário, eram casas que pertenciam a famílias, que tal como a minha, tinham para onde ir quando morressem. O cemitério do Alto S. João tem moradas imponentes. Os cemitérios, portanto, nunca me fizeram transtorno e anos mais tarde, quando regressava das aulas em vez de caminhar por fora do cemitério fazia-o muitas vezes pelo corredor interno que fica junto à Morais Soares. Penso que era o silêncio que eu procurava e também atazinar as colegas que morriam de medo.
A vida tem muitos corredores. No dia em que decidi passar à segunda infância, o corredor era mais amplo e a minha mãe mais terna, mais conservadora e algo rígida também. Nunca percebi se ela era mais ou menos feliz, apenas que os olhos sorriam enquanto no passado riam. Sei, que estava mais serena e acomodada, e este sentimento determinou que a minha vida se abrisse a outros corredores. Assim que surgiu a idade adulta, e com ela a oportunidade, eu corri para outra cidade. Muitas outras estórias sem importância me aconteceram incluindo a que tenho vindo a contar. Nunca se saberá a veracidade delas, ou o riso de quem as conta, apenas que por aqui ficam numa tarde, deste dia de Julho.

13 comentários:

fugidia disse...

Os corredores unem-nos, GJ :-)
Já os cemitérios?... só entrei quatro vezes, porque tinha mesmo de ser, e nunca mais regresso. E assim continuarei a fazer.

Bom resto de fim-de-semana :-)

vbm disse...

Uma alma bela
tem sempre consigo
ternas recordações.

Abraço,
Vasco

Dreamer disse...

Também me lembro de longos corredores na minha infância, e de outros, ainda mais longos, nos colégios que frequentei durante a adolescência. Quando vim estudar para Lisboa, também tínhamos um corredor enorme, onde eu dançava, na tentativa de ser bailarina...
Quanto a cemitérios, devo confessar
que nunca gostei de lá entrar, e só o faço quando morre alguém da família. Para mim, o cemitério é o corte final, e eu prefiro pensar que os meus queridos andam por aqui à minha volta, embora invisíveis...
Boa semana!

Mike disse...

Dividido sobre o comentário que hei-de fazer... se por ser homem e nunca ter deixado segredos em corredores ou se por na minha infância não ter havido corredores. Contudo, e sem saber explicar porquê, identifico-me e gostei de ler este "corrredores da vida". :-)

Mike disse...

Ah, os cemitérios nunca me incomodaram minimamente... até me transmitem paz e serenidade.

Mike disse...

Dividido sobre o comentário que hei-de fazer... se por ser homem e nunca ter deixado segredos em corredores ou se por na minha infância não ter havido corredores. Contudo, e sem saber explicar porquê, identifico-me e gostei de ler este "corrredores da vida". :-)

Mike disse...

GJ, eu também não sou gago... (risos)

GJ disse...

Eheheh, olhe somos iguais...;D

GJ disse...

Mike, sabe o que eu acho? Os cemitérios têm todo um colorido que aguça a nossa imaginação.:-)

Luísa disse...

Muito me identifico com a sua Mãe, GJ, nesse gosto de passear por longos corredores. O de minha casa é curto e eu prolongo-o em trajectos pela sala e pela cozinha. Abro as luzes e vou lendo e caminhando. Por isso, os corredores nunca me contam a minha história, mas outras… - excepto o malfadado corredor (longo) de casa dos meus avós, onde, pela primeira de um ror de vezes, parti esta frágil cabeça… ;-D
Gostei muito de a ler, mesmo se nunca delirei com certos troços da Morais Soares… :-)

Si disse...

Os corredores da vida nem sempre nos deixam percorrer as distâncias que queríamos, quer por defeito, quer por excesso. Há que os que, de repente, terminam em portas fechadas e há os que se alongam por várias salas e divisões, desorientando a imagem que à partida temos deles, de serem o caminho mais curto entre dois pontos do nosso destino. A questão, portanto, será sempre o que aprendemos quando os usamos e decidimos se os voltamos a percorrer ou não... ;)

bacouca disse...

GJ
Os corredores e cemitérios só os conheci quando cheguei a Portugal de ferias ou definitivamente. Em Luanda conheci corredores mas que faziam a minha delicia e de algumas amigas: o do colégio S.José de Clunny. Depois em Portugal marcaram-me 3 por diferentes razões, também qual delas a melhor: a casa dos meus primos na Foz, na r. Dr. Sousa Rosas; o do colégio N. Sra. do Rosário e o da quinta em Santa Marta do Portuzelo. Meu Deus que histórias para contar...! Cemitérios confesso que não aprecio mas concordo que podem transmitir uma certa interioridade.
"Os corredores da vida", de que estes também fizeram parte nunca senti a sua dimensão longa ou o sussurrar pelas portas: ia logo espreitar para me inteirar do que se passava...!
Beijo

ana v. disse...

Identifico-me: os corredores longos também povoam as minhas memórias de infância, as boas e as más. Mas detesto cemitérios... não está lá ninguém que eu conheça, GJ. Nem os meus mais queridos que já morreram alguma vez por ali passaram.