31/12/10

Feliz 2011!

Safa!

Parece uma idiotice ter chegado ao final de 2010 invejosa por ter encontrado quem fez melhor do que eu em matéria de cancro, mas foi o que senti ontem. Sem nos termos falado durante o ano, deixámos para o final  o telefonema de boas festas. Olá, olá, como estás, estou em falta, não estás nada eu é que estou, este ano foi difícil, conta lá. Bolas, não digas estamos iguais e não nos cruzamos nas poltronas e na radio por um triz, foi questão de dois ou três meses. Continuaste sempre a trabalhar e ainda fizeste os exames? Bolas, caramba, pensava eu que tinha feito muito bem, conseguiste isso tudo, fantástico, mulher! Quando é que nos vemos? tens exames até final de Fevereiro e só podes depois, ok! havemos de tomar um café tu com os teus quilos a mais e eu com os meus, tu com a tua protese capilar como gostas de chamar ao teu cabelo emprestado, eu com os meus caracóis verdadeiros, escada abaixo, escada acima, havemos de nos encontrar. Feliz ano novo, com muita saúde. olha lá, afinal o que é que mudou em ti, para além de teres ficado sem unhas, sobrancelhas, cabelo e pestanas? Estás na mesma, cheia de agitação, trabalho, astral elevado, tenho inveja da tua resistência tive dias em que me fui abaixo, não consegui trabalhar a tempo inteiro, nem sempre pude tomar conta da neta, houve dias em que as forças me faltaram, outros em que as lágrimas teimosamente me correram na pele, andei confusa, olhei o chão para logo ficar alegre e encontrar força para acreditar. Um dia, ainda me vais dizer onde guardaste os teus dias difíceis, porque eu sei que os tiveste. Um bom ano para ti, havemos de nos encontrar! bolas, nem mesmo em matéria de cancro se facilita, vá lá entender-se este conceito chamado competição na comunicação!

26/12/10

Três anos

Mais um ano para festejar. Este ano a casa andou um bocado desarrumada, por vezes pensei que seria melhor meter trancas à porta, resisti, fiz bem. Fizemos hoje três anos juntos. Um abraço a todos os que por aqui passam, entram e animam esta casa com belas jóias.

25/12/10

23/12/10

Vale a pena. Boas Festas!

Chegamos ao  Natal, o fim do ano está à porta, desejamos a todos boas entradas e uma feliz consoada e a maioria apesar de depenada na azafama das compras e lembranças não encontra nada de novo para festejar. É pena! Pena, porque o país nada tem para oferecer, ninguém acredita em nada, todos andam indiferentes, mesmo aqueles cuja voz ainda se faz ouvir, os rostos abrigam olhares distantes e nem mesmo a solidariedade para com uns e a vontade de estender a mão a outros nos parece trazer felicidade. Há dias, o Mike, citava um momento de reflexão sobre o PIB, o JM escrevia sobre o salário mínimo, falavam sobre o mesmo por via diferente. Concordo com os dois, é o problema dos dois olhos, um peso e duas medidas, do "on the other hand", do qual a vida é feita. O balanço, o equilíbrio, o pêndulo, diferentes para cada um, igual para a maioria. Vivemos em busca da felicidade e meditamos sobre o eterno, questionamos o impossível, pesquisamos o infinito. Vivemos em função dum bocadinho de nada que nem sabemos se existe. Acreditamos que somos capazes de mudar o percurso indesejável e afinal não o conseguimos fazer sozinhos. Tal como o corpo humano, o país (todos nós) necessita de acreditar no esforço do corpo e da mente, porque tal como o milagre da fé  pode ser um complemento do medicamento, também a intervenção de outras forças e correcções financeiras só pode funcionar se todos acreditarmos que somos capazes. Assim se venceram eleições, assim se movimentaram povos, assim se iniciaram projectos. Acreditar que um Messias virá resolver os nossos problemas, só nos deixa à espera do milagre que apenas acontece se a fé estiver ao lado do medicamento. O meu Jóia chegou à fé divina pela razão acreditando que a cura de qualquer doença só se faz com um esforço peregrino e nesse sentido, foi ao lugar que considerou certo, para trazer o que me faltava. Sabemos os dois que sem o químico não havia tanta certeza. Eu acredito um bocadinho mais no químico e na razão e ele na razão da fé. Estamos equilibrados, ambos trabalhamos para conseguir o que os dois desejamos - a felicidade e a vida eterna. A vida eterna que se manifesta, todos os dias através de actos, de lembranças, de seres que nascem, de embriões que deixamos gerar, de pessoas que continuam o nosso percurso. Que todos os dias sejam vida e que ninguém se esqueça de a alimentar com a fé e a razão durante o ano que brevemente se inicia, sem deixar de lado as razões do PIB, da educação, do Euro e dos mercados, da paz e da guerra. Vale a pena reflectir, vale a pena partir o bolo e não deixar de lado quem necessita de o comer. Vale a pena, olhar para os bons exemplos que conhecemos e acreditar que o destino está nas nossas mãos e acreditarmos que somos capazes. Boas Festas a todos!

Prenda de Natal

A Austeriana presenteou-me há dias com este livro. Uma excelente escolha pela coragem e  inspiração em tempos difíceis. Também me deixou uma cabazada de "queijadas de requeijão" para compensar os tempos mais frios de 2010 e aquecer os de 2011. Feliz Natal!

17/12/10

Logo hoje

Bem, logo hoje não posso ficar azeda,  já que continuo agradecida aos profissionais que me levaram para o bloco operatório, há um ano por volta desta hora, e me ajudaram a manter a vitalidade que sempre me assolou. Foi um dia cheio de acontecimentos, uns mais positivos que outros, mas que felizmente me trazem hoje aqui para dizer, bem hajam! Feliz Natal a todos os que me ajudaram nesse dia e em todos os outros que desde então se seguiram, ao longo deste ano. 2010 foi um ano que me desequilibrou do meu suposto equilíbrio físico, mental, espiritual  e pessoal. Outro equilíbrio tive de reinventar, melhor uns dias, pior noutros, razoável a maior parte do tempo. Uma constatação eu fiz, por muito que sejamos, por muitas glórias que tenhamos atingido, por muitos momentos inesquecíveis que se tenha passado, nenhum se compara à alegria de mais um dia vivido com saúde em paz, amor e liberdade.

Por uma grama de açúcar

Quando o pânico se instala por um grão de açúcar é caso para nos preocuparmos. Acredito que na época natalícia a preocupação com a feitura das rabanadas se manifeste de forma aguerrida a ponto de alguns se levantarem bem cedo a um domingo de manhã e se dirigirem ao supermercado mais próximo. Mas ao ponto de numa manhã terem tido necessidade, só no meu bairro que ainda por cima é numa zona in da cidade em que as pessoas andam sempre em dieta, de comprar 850kg de tal ingrediente? Fiquei preocupada, especialmente por me ter lembrado daqueles anos em que o bacalhau se vendia às escondidas, as mercearias passavam a farinha, o arroz, o açúcar, as conservas, o azeite, enfim o cabaz de alimentos básicos por debaixo do balcão aos clientes, que verdes de medo da revolução de Abril, açambarcavam para a seguir jogar no lixo, o que em situação e comportamentos normais chegaria para todos os que pudessem comprar. Aliás, nessa época foram exactamente os que podiam comprar, que com medo de terem de ficar fechados em casa o fizeram. Igualmente, me lembro dos depósitos sempre cheios para a eventualidade da fuga de alguns o que em contrapartida não permitia que os outros se abastecessem para motivos normais de circulação. Como mais tarde se viu e hoje sabemos, não havia necessidade para tal. As notícias recentes da subida de preço dos bens essenciais, seja pela subida do iva a partir de Janeiro ou pela escassez daqueles que face à subida dos preços no mercado internacional chegarão mais caros, ou ainda, pelas dificuldades de cumprimento dos prazos de pagamento por parte dos importadores nacionais, tem levado a que por um lado se deseje a entrada do FMI e por outro se encham as prateleiras da despensa. Situações que parecem contraditórias por um lado e representativas deste povo que continua à espera que outros o governem e lhe digam o que fazer, continuando a fazer à sucapa aquilo que a economia paralela o aconselha. Compra e enche a prateleira não vá uma oportunidade de venda com lucro surgir ou um ganho não previsto ajudar. Um bolso açucarado substitui uma prateleira vazia e uma chupeta molhada em açúcar adormece a insónia, mas por uma grama de açúcar será que vale a pena?

16/12/10

Concurso de Natal - ovelhas

Este ano andei de tal forma choné que até deixei para o fim a participação neste grandioso Concurso.  A ovelha choné foi aceite fazendo de mim uma das participantes mais felizes. O júri, para além da imagem enviada, ainda acrescentou esta actuação da choné.

07/12/10

Qual é o espanto?

No país dos absurdos encontro tema para aqui voltar. Leio que Rui Pedro Soares e Emídio Rangel vão lançar um novo meio de comunicação, com capital aqui do lado. O accionista principal é um apoiante de Zapatero e seu conterrâneo. Nada mais se estranha neste país, e nem mesmo a chegada das eleições, muito a propósito, ou o processo dum deles impede a clareza das notícias que se propõem fazer. Não tenho dúvida que haverá leitores para tal periódico, não penso que seja mais um, será concerteza mais uma cambada deles que sentem necessidade de ter uma voz direccionada, mas pelo menos não enganam ninguém em relação à sua agenda política. Ficamos a saber quem paga e quem lê.

Por isso

Por mais que tente o espírito volta sempre ao mesma tema, por isso não tenho escrito. Tal como no período da gravidez, em que todas as mulheres nos parecem mais grávidas do que o costume, vivo hoje um tempo em que as histórias ligadas ao cancro me seduzem mais do que quaisquer outras. Por isso não tenho escrito, para não aborrecer quem me lê porque as coisas do cancro só interessam a quem o tem, teve ou o vive de perto. Para os outros caímos no risco de nos tornarmos uns chatos. Por isso continuo à procura do my new normal.

06/12/10

Olá, mais um ano

Êrnani Lopes

Gostava tanto de S. Martinho do Porto que escolheu o lugar para sua última morada. Todos os anos aí nos encontrávamos, "olá, mais um ano", dizia ele, naquele nosso cumprimento à beira-mar. Gostava de fazer uma caminhada até à duna de Salir, umas vezes caminhava sozinho, outras com a Isabel. Gostava de usar uma túnica branca sobre o calção de banho e o eterno chapéu. Andava com elegância no seu corpo esguio, mantendo o porte desenvolto pela sua excelente condição física.
No Verão a seguir à declaração da doença não deixou de aparecer mesmo que não pudesse andar com os netos na água e referia-se "a esta chatice do cancro que me apareceu" com a naturalidade de quem não permite que a doença se instale. Durante anos, desceu a rampa da rua dos cafés bem depois das onze da noite, com a Isabel pelo braço fazendo a pose de quem sabe que está bem e é admirado. A nossa conversa era de circunstância, uma opinião aqui e outra ali, sobre economia, sobre o país, mas sobretudo sobre a praia e o sol, mais recentemente quando me tornei avó, sobre os netos e S. Martinho de que tanto gostamos.
Este ano, fui eu que não o encontrei, não pude dizer-lhe "olá, mais um ano" e acrescentar, desta vez coube-me a mim ter esta chatice do cancro.