24/04/21

Ainda vais a tempo

Mulher,

Olha-te no espelho e  o horizonte dum tempo perto, e nessa jornada breve encontra-te.  Sei que com a idade nos confundimos com o papel de parede e que a nossa voz se apaga. À medida que olhas para o fundo do espelho, cada vez mais perto, está aquele tempo. O tempo em que os teus pés corriam na areia e o teu coração molhado de  paixão percorria o caminho que te levava até ao outro. E assim se manteve até confundires  os teus estados de alma e fugires para os braços de quem te apaziguava a fadiga. 

Tiveste o que as gentes do teu século entendiam ser o teu lugar. Foste guerreira e apesar de não teres ido à guerra, os teus admiravam-te. Lutaste por causas e entoaste melodias vitoriosas. Apertaste os filhos nos braços e alimentaste-lhes as bocas famintas até tu própria estares seca. Deixaste que te possuíssem o corpo e libertaste-lhes a alma. Chegaste  numa noite passada, as tuas possessões não enchem malas porque as trazes dentro de ti. A idade fez de ti a mulher que és, exiges respeito e não queres compaixão, tens orgulho no teu porte. Dizem que és opulenta,  mas és apenas grandiosa com mãos que abrangem sem agarrar. Porque tu quiseste ser livre e assim te relacionaste com o outro, com tantos outros. 

Foi por isso que decidiste entrar na comunidade  de todos os tempos e correrias. Passavas um dia e depois outro até que, não querendo dar trabalho a gente menor, saltaste a barreira da porta. Corajosa, pensaste! Não, diria eu que te conheço. Alimentavas esse ritual que te atropelava o caminho inseguro, como da outra vez que fugiste para os braços do que, num repente,  te confortava.  

Mulher, talvez estivesses certa.  Agora aí especada, esperas que te recebam e te abram alas de diva, logo tu que sempre foste sensata. Devias ter percebido  ao escolheres o papel de parede  rosa pálido, florido, para te dar serenidade e má escolha. Deverias ter pensado que mar revolto te daria melhor voz. Ainda vais a tempo,  não tens de ser confundida com a parede. 

Mulher, aproveita a tua lucidez e corre, muda o teu percurso, salta a linha da estrada, apanha o comboio da vida que ainda te sobressalta e ama.  Ama o que te apetecer, quem te agradar,  quem entusiasmares. Nessa Comunidade o tempo e a correria são feitos de liberdade e pela liberdade. Junta a tua voz a cravos e  levanta a bandeira de todos nós.

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