25/06/08

Rafael Bordalo Pinheiro

"Tendo em conta a personalidade das principais figuras culturais de então, Rafael Bordalo Pinheiro destaca-se pela modernidade militante, pelo optimismo visceral e pela tranquilidade com que sempre viveu a sua agitada e nada fácil vida.No entanto, ele é saudavelmente um desiludido com as pessoas – que, para ele, todas são corruptíveis – e, sobretudo, com as instituições que, mesmo depois das reformas, regressam ao mesmo: arrogância e ignorância. A História é um palco em que a intriga é sempre a mesma. Delineia-a como comédia e farsa, não como tragédia. Usa o riso para provocar e agredir mas não para curar o que não tem cura.
Entende o atraso do país, a sua sebastiana megalomania, a sua preguiça e trafulhice e está sinceramente convencido que não tem cura. Descrê do Rotativismo monárquico (cujos podres conheceu como ninguém) mas não é grande entusiasta da República. Sabe que Portugal será sempre um peão, ou uma bola de sabão a desfazer-se nas mãos interesseiras de John Bull ou do Kaiser.
Este é o contexto da criação do Zé Povinho, esperto e matreiro, sem moral nenhuma: se pudesse trepava para as costas dos que o cavalam a ele. Não gosta de trabalhar e prefere resignar-se do que a combater. O manguito é o seu gesto filosófico perante os desacertos do mundo.Esta descrença não foi para Rafael Bordalo Pinheiro um estado de alma, antes uma espécie de filosofia social, ancorada na ciência do seu tempo dominada pelas teorias de Darwin e a morte de Deus."
Raquel Henriques da Silva, excerto "O HOMEM E O SEU CONTEXTO"

O "espanta espíritos" das Caldas

Um dos patrimónios das Caldas da Rainha é a Fábrica de Faianças Bordalo Pinheiro. Ao longo dos anos tem-se visto a braços para se manter a funcionar, apesar das iniciativas de divulgação dos seus produtos e da internacionalização. A sua produção depende em 95% das encomendas do exterior. Raramente visitada, a não ser pelos locais, e apesar do espólio que o Museu representa, o seu património tem vindo a deteriorar-se ao que parecia sem solução. Num país que raramente mantém o que tem de bom, não é novidade por aí além. Na Gazeta das Caldas vejo com agrado que "foi salva" e o segredo, infelizmente, não foi à laia de Bob Proctor. Apenas e nem mais, alienação do património com a venda de edifícios, reestruturação da empresa e respectivo financiamento. Aquilo que parece muito bom, esperemos que o possa ser. Por outro lado, este é mais um "espanta espírito" das Caldas, só que ao contrário do outro, ele representa o estado real do endividamento do país.

24/06/08

Perspectivas de ocasião

Passada a ocasião das festas populares, volto às jóias do meu país. Revejo notícias e protagonistas. "Perspectiva" é uma publicação gratuita distribuída mensalmente com o jornal Público. Leio que foi inaugurada a fábrica Swedwood em Paços de Ferreira. O ministro Manuel Pinho esteve presente e "deixou uma mensagem de tranquilidade, grande optimismo e apelo à inovação". Acrescentou até, que "estas iniciativas são o "espanta espírito" para o clima de crise que se está a instalar". Eu presumo que Manuel Pinho se está a referir à região, a Portugal ou aos dois, mas fico na dúvida. Pego no Expresso e vejo o mesmo ministro no Primeiro Fórum Empresarial da Região de Aveiro, referir-se à conjuntura económica internacional "o que nos espera agora é ainda pior" e sublinha que a situação actual é mais grave que a vivida nos últimos três anos. No meu espírito, o meu país está há muito a viver em crise, o meu país há muito que pertence ao espaço internacional e o consumo das famílias portuguesas voltou a descer no mês de Maio. Por muito que eu tente, não encontro "espanta espíritos" para esta questão. Fico à espera que o mesmo Manuel Pinho encontre outra ocasião a jeito e mais à feição para me esclarecer se esta é uma questão de perspectiva, de ocasião ou de interpretação.

Pronúncia do Norte

Porto Sentido

Santos e Festas

Apesar de ser hoje o dia do Santo já ninguém se lembra dele. Os santos populares festejam-se de véspera, e tal como o Sto António padroeiro de Lisboa, também o S. João já passou, e apenas sabemos que hoje é feriado no Porto. Apesar do Porto ser "a cidade do meu coração", continuo a preferir o outro santo que me viu nascer. E por mais que tente, não encontro graça ao alho porro, ao balão que nunca sobe e ainda àquela ideia do cabritinho assado. É claro que também há sardinha assada, mas só a ideia da possibilidade de escolha me aflige. Ou é uma coisa ou outra, e manjerico não diz com cabrito e depois faltava-me sempre a alcachofra para queimar antes do sol nascer e ver se tem ou não flor no dia seguinte. E também me falta Alfama, Mouraria e a Costa do Castelo e a alma bairrista alfacinha. Na verdade, é a única altura do ano em que me vem a saudade e a falta do refrão: ..."cheira bem, cheira a Lisboa...".
Fora isto, as festas populares são barulhentas, animadas a fogo de artificio e todos nos devemos sentir animados por o povo dançar nos bailaricos de rua. Parece aliás, que o melhor é que todos dancemos gostando ou não, já que pelo menos é com e pelo nosso pé. Não tardará que a dança seja por obrigação e ao sabor do pé comum da união europeia. E já agora, aproveitemos enquanto não nos proíbem a sardinha assada na rua, o cabritinho saloio em forno de padeiro, o algodão doce e as farturas a tresandar a óleo e a açúcar.

23/06/08

S. João no Porto

S. João é uma festa

Sardinha assada enquanto há

Cabritinho assado não faltará

Manjerico espera dono
Fogo que arde e se prevê

Alho-porro em stock

Balão sobe, balão sobe

Haja farturas