13/08/08

Teodoro não vás ao sonoro

Não há cinema igual ao mudo cá p'ra mim
Pois sendo mudo me diz tudo mesmo assim
P'ra mim o mudo é que há-de ficar de pé
São mais bonitas as fitas sem banzé

O meu sistema com o mudo não se dá
Só o sonoro me diz tudo quanto há
Porque o sonoro além de mais alegre
Tem outro estilo e ouvi-lo só faz bem

Teodoro não vás ao sonoro
Teodoro não sejas ruim
Teodoro repara que eu choro
Se fores ao sonoro não gostas de mim

Teodoro não vás ao sonoro
Teodoro não vás mas eu vou
Porque adoro na vida o sonoro
E há-de ser Teodoro, quem chorar, chorou

Teodoro não vás ao sonoro
Teodoro não vás mas eu vou

O silencioso tem sem par mais distinção
Não se ouve a Greta que a falar lembra um papão
Por isso o mudo é que há-de ficar de pé
Pois sendo mudo diz tudo sem banzé

Podes brincar e blasfemar que ninguém crê
Porque é estupendo ouvir cantar o Chevalier
E o sonoro além de mais moderno
É uma alegria de orgia que faz bem

(Publicado em Buscas 10, November 2005 )

Lin e Yang em playback

Entre a cara perfeita com um lindo vestido e a honra de ter emprestado a bela voz, as duas meninas cumpriram o seu dever olímpico. Toda a gente ia com a sua voz, excepto Lin Miaoke que levava uma emprestada por Yang Beiyi. O brilho do perfeito e o dever da nação, num país que ainda não saiu de um espartilho de preconceitos. Entre dois mundos em que um quer mostrar o melhor e o outro está à espera de ver o pior alimentando jogos de poder.
Resta dizer que o cinema americano fez o mesmo quando passou do mudo ao sonoro. As vozes eram igualmente emprestadas por desconhecidos que continuaram o brilho dos artistas que ainda não tinham encontrado a sua voz.

12/08/08

Diagnóstico estatístico, será?

Internet addictions: A real medical menace?

"Alcohol, drugs, food, sex, and even shopping are all candidates for medical treatment and are recognized as genuine mental disorders, so what about the Internet? Internet addiction -defined as "excessive gaming, sexual pre-occupations, and email/text messaging" - is becoming so common that at least one psychiatrist says it merits inclusion in psychiatry's official handbook of mental illness, the "Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders."
Dr. Jerald Block of the Oregon Health and Science University is the latest voice pushing for this inclusion, noting that tech junkies display genuinely debilitating behavior, including drug-like cravings, withdrawal, and a constant need for more and better gear - just like a substance addict might exhibit.
But other doctors comment that Internet addiction, while it may be real, is too new of a condition and needs further study before being medically classified. There might be something to this: No one wants people being medicated or
institutionalized if they aren't genuinely ill.
The "Manual of Mental Disorders" won't be published again until 2012, but an early draft will arrive for public comment in 2009. Meanwhile, mind docs say the problem is growing, now possibly affecting up to 10 percent of Internet users. Recent studies are surprising, indicating the problem is worst not among game-obsessed teens, but rather among middle-aged women who stay at home, constantly on the computer as a way of connecting to the outside world.
Is computer use (or computer downtime) causing a problem in your life? If so, you might be an addict. But you'll have to wait a few more years to find out for sure.
"
(Publicado no Yahoo, 24 Março, 2008)

11/08/08

Entre o vidro e os espelhos

A blogosfera é uma pequena cidade virtual com bairros, jardins, lojas, teatros e cinemas, bibliotecas e livrarias, pessoas, coisas e loisas. Tal como acontece com outras cidades, gostamos mais de umas, detestamos outras. Visitamos certos locais, uns por rotina ou por gosto, outros porque sabemos que ali encontraremos sempre alguma coisa que nos sirva, passamos por outros só por curiosidade. Recomendamos aos amigos, recordamos os aniversários, contamos histórias que ouvimos, lemos os livros que nos recomendam, entramos e tomamos um café, pomos a conversa em dia.
Há dias em que nos vestimos melhor e gostamos mais do que vemos, outros em que se não fosse a superstição partíamos os espelhos que dão valor à imagem. Uma coisa sabemos, uma vez dentro, sair é difícil porque os amigos ou a comunidade não deixa, porque nos sentimos obrigados a cumprir uma missão, porque temos gozo no que fazemos. E, sempre no mesmo lugar, vamos dizendo olá, refazemos as histórias e a história, criamos amores e desamores, levamos e trazemos pequenos ódios e raivas de estimação, voltando no dia seguinte, para fazer as pazes com o dono da loja ou com a vizinha que, por um instante, nos estragou o estaminé com um anúncio publicitário. Respondemos com um teaser com o objectivo de manter a clientela e angariar novos curiosos.
Como os espaços e as cidades não vivem sem a alma das gentes, temos de agradecer a todos os que nos visitam e nos ajudam a manter as lojas com artigos interessantes, as galerias com exposições para visitar e pessoas para encontrar. Entre vidros e espelhos, entram visitantes de muitas cores que deixam e levam lembranças pertencentes a muitos lugares.
A minha loja não teria passado de anteprojecto, se a minha amiga Miss Pearls não a tivesse visitado logo no dia da pré-inauguração. É que ainda os preparativos estavam no ar e já a ela se afirmava adepta do espaço, confiante na dona da loja e desejosa de a recomendar aos amigos. Sabendo-me pessoa curiosa, pouco dada a reconhecimentos públicos e com pouco a acrescentar a algo que já outros tivessem dito, achou por bem "obrigar-me a continuar". Longe dos olhares e dos ouvidos dos mais próximos, por serem eles os nossos maiores críticos, mas também por ser deles que esperamos o reconhecimento e a apreciação do que fazemos, o anteprojecto passou a projecto, a inauguração foi feita, até porque no fim de contas, os vidros partem-se, segredos leva-os o vento e os espelhos não roubam a alma.

09/08/08

Arquitectura no mundo

Frank Lloyd Wright,USA

Dubai

08/08/08

Pequim em movimento

Na cultura oriental coisas, seres ou elementos não morrem, renascem. Daí não ser estranho que na construção de novas cidades e prédios, a alma da cidade antiga passe para a nova. O espírito pertence ao mentor, o líder passa o caminho a pessoa encarna o desígnio. Espírito e conceito estão mais do que interligados na reconstrução de Pequim. "A eternidade não deve habitar a arquitectura, mas sim o arquitecto"(Simon Leys, Ensaio sobre o China, Cotovia 2005).
A China de hoje passará a ser diferente segundo a segundo, mas o espírito continuará a habitar as ruas e os quarteirões porque apesar de todos iguais todos serão diferentes. O que interessa é quem lá vive, e as pessoas são diferentes e os arquitectos que lá permanecem deixarão os materiais até ao dia em que outro venha ditar novo conceito. Para os chineses copiar é uma arte e um segmento de mercado legal e há muito utilizado. Aliás essa tem sido a capacidade da economia chinesa, fazer rápido o que outros já inventaram e distribuir num ápice.

04/08/08

Domingo à tarde II

Numa época em as pessoas se habituaram a lidar com o trabalho e o lazer de forma planificada, ninguém se lembra de como era o dia a dia há uns anos não muito longínquos. As horas de trabalho semanais eram bem mais longas e até muito próximo do 25 de Abril -referência para muitos- as empresas e escritórios funcionavam ao sábado e as pessoas trabalhavam todo o dia. Com a chegada da "semana americana"alguns passaram a ter o sábado à tarde e o domingo, enquanto os restantes continuavam trabalhar durante todo o dia de sábado, descansando ou folgando ao domingo.
O domingo representava o dia de paragem, e era ao domingo à tarde que a generalidade das pessoas podia usufruir de descanso. O lazer do domingo à tarde dependia das possibilidades de cada um, e possibilidades naquela época significava classe social. O domingo de manhã começava para a maioria com a ida à missa, seguida do almoço. Para os da "semana americana", a missa era seguida do almoço que as criadas tinham cozinhado, enquanto que para os outros era seguido da refeição que um deles tinha feito depois da missa. Elas, as criadas, também já tinham ido à missa mas tinha sido às 6 ou 7 da manhã. Os patrões iam à missa do meio dia. Os jovens mesmo que se tivessem deitado às quatro da manhã - não pela discoteca que isso não havia, mas por terem estado a falar com os amigos noite fora, discutindo filosofia e mudando o mundo, a troco de uns cigarros roubados e umas músicas mais modernas - tinham de se levantar para assistir religiosamente à cerimónia com a família.
Lembro-me que quando começaram as missas dos sábados à tarde, e que "contava" para substituição da de domingo ter sido um contentamento lá em casa. No início a minha mãe achava que aquilo não tinha o mesmo significado, além do mais, já não estávamos em jejum para a comunhão. Mas a partir de certa altura, ela própria dizia "vamos à missa das 7 no sábado à tarde, que já ficamos despachados". Eu sempre achei esta característica da minha mãe muito divertida. Se era para despachar alguma coisa, fazia-se. E nós apreciávamos e incentivávamos esta generosidade materna, apesar dos acólitos do meio dia serem muito mais giros!
Com a "missa para despachar", passamos a ter outros programas que vieram substituir o almoço seguido de passeio pela marginal até ao Guincho ou a Sintra com paragem no "Preto das queijadas", ou apenas a Belém porque já era tarde. De vez em quando o meu pai achava que podíamos ir lanchar mais longe, para desassossego da minha mãe porque íamos regressar muito tarde para o jantar, para além dela achar que o meu pai se punha ao volante para nunca mais parar. Chegamos a ir lanchar a Évora.
Por outro lado, as nossas criadas, pertenciam à casa e tinham 2 ou 3 horas para passear com o seu magála e ouvir Nelson Ned, enquanto faziam horas para regressar e fazer o jantar. Mas também para elas os tempos iam sendo melhores, com mais lazer, tinham melhorado! Até aí, acabadas de chegar da aldeia iam passear connosco, levando-nos ao jardim e continuando o trabalho da semana no jardim com "os meninos". É claro, que tendo chegado da aldeia, era um mundo diferente que elas consideravam luxuoso. No fundo todos se divertiam de forma muito ingénua e simples, sem grandes exigências ou extravagâncias e agradecendo o que havia.
Os tempos eram bem diferentes e hoje, que nos queixamos que o tempo não chega para nada e que reivindicamos lazer com qualidade, deveríamos pensar que todos, incluindo patrões e criadas passámos a utilizar as nossas horas à medida dos nossos desejos e de forma bem diversa. Umas vezes com coisas que nos dão mais prazer, outras com menos. Podemos ter perdido coisas importantes da estrutura familiar, mas temos obrigação de saber escolher ou reeducar a relação trabalho/lazer e depois trabalhamos porque também nos diverte o que fazemos, mesmo com as dores de cabeça e um blogue pelo meio.