15/01/09
Ricardo Montalban
Fantasy Island (1978)
14/01/09
Haiti (III)

As pessoas, os cheiros e os sons de um país é o que melhor guardo na memória já que as cores fazem parte do colorido natural dos meus olhos. Calculo que é o que nos faz mais falta quando estamos longe dos lugares de que gostamos. Circular ou andar a pé no mês de Agosto não era fácil. Miúdos e graúdos procuravam esconder-se do sol e os estrangeiros encontrar um local com ar condicionado. A imaginação e a boa fé dos habitantes ensinava e ajudava a encontrar alternativas.
A Catedral de Port-au-Prince era um dos locais mais frequentados entre as 14 e as 16 horas. Era calmo, fresco e privilegiado para o momento da meditação, vulgarmente conhecida por sesta.
Se durante o dia era sol e calor respirado e misturado em recantos onde as galinhas corriam, as crianças brincavam e as mulheres se lavavam em água macilenta, com o cair da noite fogareiros à porta das casas, traziam os cheiros que antecipavam petiscos e temperos que me lembravam carqueja e outras coisas desconhecidas. Bem perto, a música, os risos e a algazarra à volta do alumínio dos pratos fazia-se ouvir. Ao longe e de tempos a tempos, alguns tiros também. Sons perdidos numa cidade que no dia seguinte nada tinha a contar, apenas pequenos desacatos que os jornais relatavam e os dissidentes políticos reclamavam.
A cidade transformava-se com o cair da noite. Os morcegos rondavam as palmeiras e as águas duma piscina que não chegava a arrefecer, os mini lagartos e lagartixas gigantes, os mosquitos e as baratas voadoras faziam parte daquelas noites quentes e húmidas com trovoadas que me assustavam mas que divertiam e animavam os meus novos amigos. A chuva depois da seca é uma autêntica festa crioula. A esse propósito, um dia estava num restaurante quando desatou a chover e um homem entrou correndo e esbracejando. Falava o que eu não entendia, chamava os outros para irem ver qualquer coisa que eu não sabia, e foi nesse momento que me dei conta que era a única pessoa branca naquele local. Por momentos senti receio, e pensei nos que me tinham avisado sobre a tontaria da minha visita ao Haiti, para logo todos nos rirmos porque afinal era a chuva o motivo do estardalhaço!Recordo o dia, em que estando no quarto, vi "uma simples e pobre barata voadora" e telefonei para a recepção dizendo o que me veio à cabeça "J'ai un animal dans ma chambre!" passados uns minutos apareceu um empregado com caçadeira... a partir daí passei a ser motivo de divertimento "la dame qui avait un animal dans sa chambre..." diziam e riam com benevolência.

Não havia também dificuldade em arranjar pessoas para tomar conta da minha filha, a dificuldade era saber quem é que o tinha feito, porque todos levantavam o braço quando questionados sobre o trabalho de babysitter. Aprendi também que era escusado perguntar quem é que tinha feito isto ou aquilo, porque a resposta era óbvia. No caso do tomar conta, é claro, que eram todos. E foi aí que deixei a maior parte dos dólares que levava. Mas também foi durante essas alturas, em que à noite, limitada pela minha acompanhante de três meses, passava muito tempo no hotel e conversava com os empregados. E se eles tinham histórias!
Preocupavam-se com as doenças como a cólera que matava um filho, mas que também deixava mais comida para as outras bocas que havia em casa para alimentar. Esta racionalidade não é compreensível para um europeu ou para alguém que viva em abundância. Tal como não é compreensível que para comprar tabaco o táxi nos leve à gare marítima, buzine e do nada apareçam magotes de crianças que nos atiram para dentro do carro pacotes de Marlboro, e que sem percebermos o carro fica cercado e o dinheiro é disputado por mãos que já ninguém sabe de quem são. E enquanto o carro desaparece, aquelas crianças lutam e gritam e o taxista ri e nós choramos por dentro.
E com a noite chegam às portas dos hotéis, mães que acompanham e oferecem filhas, algumas ainda crianças, mas que são a recompensa de mais um pão no dia seguinte. E a naturalidade do acto torna difícil o nosso julgamento reprovador.
Gente, que um dia na sua simplicidade me explicava como comer o seu fruto preferido: "Tu prends le mango, tu cherches le couteaux, tu coupes le mango et tu manges en petits morceaux, comme çá! Tu vois? C'est très simple!" Enquanto dou corda ao relógio ...
Com decoração em tons terra, ao lado do mar, classificado one CoolPlace, o Terra tem homónimo em Lisboa mas heterónimo no Porto, com as especialidades que se seguem:
Entradas: Raviolis de sapateira com molho de açafrão; Rotolo de ricota e espinafres com manteiga de salvia; Carpaccio de polvo com molho verde; Salmão fumado.
Sopas: Sopa de peixe aromatizada com pernod; Capuccino de cogumelos porcini.
Pastas: Taglioline verde com gorgonzola, nozes e alho francês; Tagliatelle al pesto renforzado; Spaghetti salteado em azeite e alho com amêijoas frescas.
Peixe: Salmão tostado com pancetta e espargos salteados; Espetada de vieiras e tamboril com molho de rosmaninho; Lulas e gambas grelhadas com tomate e coentros; Lombo de bacalhau fresco com molho de tomate e pesto.
Carne: Escalope de vitela com molho de limão e alcaparras; Filet mignon; Frango recheado com mozarella e espinafres; Carré de borrego com crosta de ervas aromáticas e limão; Saltimbanca de porco preto.
Doces: Sopa de melancia com gelado de menta; Tiramisú; Fondant de chocolate com creme inglês e morangos; Tarte merendada de limão; Vários gelados.
E importante, aceita cartões de crédito, não fecha à semana e não tem nada que enganar!
06/01/09
Dia de Reis
E uns dias depois do nascimento, chegaram por volta do dia 6 do mês seguinte, os convidados que faltavam. Vinham cansados e já ninguém contava com eles, traziam luz, brilho, conhecimento e vinham de longe. As suas vestes indicavam distinção, magia e encanto de outros continentes. E os Reis Magos, nome pelo qual ficaram conhecidos, traziam mirra, incenso, ouro e mais alguma coisa para o menino Jesus. E todos os anos eles aparecem, sempre atrasados e cansados. Este ano os Reis não quebraram a regra e trouxeram bem aconchegada a pedra mais bela e com ela as cores da ametista para dar energia e as da granada para dar alguma preguiça à vida e outras para dar sorte, saúde e alegria durante os próximos quartos de século. De avô para neto que a tradição entre as gerações se cumpra e que a passagem se faça no nosso tempo. Parabéns, meu terno parceiro e amigo, meu eterno companheiro!
05/01/09
Haiti (II)
A chegada ao Aeroporto Internacional de Port-au-Prince teve o impacto do calor, do caos e da transpiração que eu iria viver durante os próximos tempos. Parte das malas não chegaram e até aqui nada de novo para quem viaja, a novidade estava reservada para dois ou três dias depois quando feita a viagem de ida e volta com a mala em meu poder, o militar de serviço me sugeriu que o dinheiro lhe daria jeito... Nestas coisas temos o visitante e a mala dum lado, o oficial e a arma do outro, vence o segundo! Esta foi a primeira lição do que percebi ser um nível de corrupção que eu não conhecia. Na época, o Haiti tinha no poder Jean- Pierre Duvalier "Baby Doc", filho de "Papa Doc" anterior Presidente.O Palácio Presidencial branco e imponente estava munido de arcas frigoríficas para conservar os casacos de pele da primeira dama. A visita ao Palácio era feita de forma a mostrar a grandiosidade dos seus governantes e o luxo das desigualdades. Durante todo o período tive ao meu dispor um segurança que hoje sei que foi fundamental e que na altura me parecia uma extravagância da entidade universitária. Chamava-se Dernier BonHomme e tinha este nome por ter sido o último filho daquele pai. Ele próprio tinha vários filhos e transportava a minha como se fosse um objecto de ouro. Todas as manhãs estava à porta do Hotel para me acompanhar ou apenas, para ficar à minha disposição para o que desse e viesse. Como ainda não estava habituada aos rituais africanos eu achava que era uma imposição tola, mas a seu tempo voltei a conhecer a gentileza e a subtileza do meu acompanhante, ele nunca se intrometia.
No mercado ia à frente abrindo fileiras, olhava à distância com aquele olhar africano que, sem darmos conta, nos observa e protege. Certificava-se que o preço era correcto, se não me aborreciam os vendedores, se as duas estávamos em segurança.
O preço correcto é um eufemismo que não tem significado num país onde gastei mais dinheiro em gorjetas do que em compras ou serviços. Um país que vivia do turismo e que estava "às moscas" porque deles corria o boato que eram os responsáveis pela Sida.
As condições de trabalho eram razoáveis e até havia ao fundo da sala uns "senhores de fato" que de facto apenas ouviam e observavam o que ali se dizia. Duvido que fosse para aprender conceitos de gestão ou economia!
(continua)



