14/10/09

Vozes com eco

São Paulo, Brasil
De vez em quando as vozes levam-nos aos lugares certos. Um dia, na televisão portuguesa, Pacheco Pereira, fez uma entusiasmada descrição do Museu da Língua Portuguesa de São Paulo. Fiquei com aquele eco na mente e uma vez na cidade, dela não sairia sem o visitar.
O fim da primeira parte da minha estadia em São Paulo, começa aqui. A Estação da Luz, a 25 de Março e o Mercadão, símbolos duma cidade em que todos têm um lugar.

Museu da Língua Portuguesa de SP

Apesar de ser fora do Museu que o idioma essencialmente se fala, é dentro dele que a língua se mistura com a sua origem cultural se ensina e se renova. Tem por objectivo dinamizar a importância do português no Brasil e orientar jovens, estudantes, professores e interessados em geral, na leituras de textos e de autores da lusofonia. Diversas exposições centradas no português têm lugar na antiga Estação da Luz que, neste momento, assinala em exposição os 120 anos do nascimento e obra da escritora Cora Coralina.


Interior do Museu

Algumas vozes mais conservadoras não consideram aquele espaço um Museu, mas apenas uma exposição. Para mim, foi o que eu estava à espera, ou seja, um espaço falante e interactivo entre o português de Portugal, o português do Brasil e o português Africano. Um Museu de português, com sotaques distintos e sem necessidade de acordos ortográficos para todos se entenderem. E como todos os espaços que não parecem museus, tinha gente e pessoas interessadas pelo que se lhes apresentava e que mais não era do que o respirar lusófono.


Quem vai para aquela zona da cidade, segue o trilho da 25 de Março. Aquele caos no meio da rua, num sábado de manhã, foi puro entusiasmo turístico e não me impressionou em particular. A segurança é, no entanto, quase total devido ao policiamento bem marcado. O aglomerado de gente a vender cuecas, meias, e diversos artigos de "marca" não é diferente das nossas feiras a não ser na dimensão. Nas lojas ou galerias de cada lado da rua podemos comprar por um terço do preço e com atendimento personalizado, mas mesmo aí, temos de ter muito tempo para escolher bem. E nesse caso, encontramos de forma mais confortável na Av. Paulista, algumas galerias de "marca" ao preço da chuva e sem tantos apertos ou perdigotos. Na verdade, tudo se repete como se estivessemos numa qualquer grande cidade em que as marcas se encontram no quarteirão seguinte, caso o comprador não a tenha visto no primeiro momento ou queira repetir a dose. A diferença é o tal do intangível valor intrínseco. O diabólico e glorioso empenho seria conseguir levar um dia, este público ao Museu sem artes ou artimanhas.

Mercado Municipal de São Paulo

O Mercadão mostra o tamanho do bolso de cada um. Entre frutas exóticas, carnes, peixes e bacalhau "do Porto", queijos e linguiças, milho, frutos secos, azeites e temperos diversos, as lanchonetes do pão com mortadela, o bolinho e o pastel de bacalhau, o sushi da moda e o choupe da ordem, fazem deste lugar um espaço onde todos podem saborear o tradicional e o desejável a preços democráticos. Do ponto de vista humano, é um lugar de mistura de sabores e de tradição étnica segundo a origem de cada um.
Enquanto esperava um lugar para me sentar as "moças" ouviram a minha voz e afirmaram. "Ela é portuguesa. Conheço o sotaque!". A conversa estava estabelecida e o lugar para me sentar garantido. "É só um instantinho e você se senta aqui. Tá bom assim?"

Claro que estava mais do que bom, no fim de contas, estavamos as três em casa e eu ia comer e beber o mesmo. Fiquei a saber que uma tinha família a trabalhar em Portugal, outra tinha enviado um filho para estudar. Vidas comuns de gente igual e com eco na fala.
Nota: Fotografias tiradas da Net

09/10/09

Corrida para o Nobel da Paz

Barack Hussein Obama
Conforme eu escrevi aqui há uns tempos, Barack Obama seria um dos galardoados com o Prémio Nobel da Paz. Não antecipei, no entanto, que fosse o próximo. Está de parabéns o Homem que correu não só para a Presidência da América, mas para um lugar diferente no Mundo. A cor não interessa, eu própria já o defini como uma pessoa sem cor, no que respeita à essência do ser. Por outro lado se o Brasil comemora daqui a uns dias o "Dia da Consciência Negra", então deverá ser importante que ganhem muitos prémios Nobel e que cheguem ao poder muitos homens e mulheres de diferentes cores e raças. Parabéns, também, a todos os que entenderem que o prémio lhe era merecido, mesmo que a política ou a conveniência de interesses tivesse tido um lugar a dizer.

05/10/09

Good Madness à segunda-feira!


Leo Gandelman

03/10/09

Pedi emprestado por uns tempos

Pedi emprestado ao Mike e à Ana Mestre, este belo poema de Ivone Carvalho. São Paulo é o mote, a cidade o meu destino durante os próximos tempos. Levo comigo as palavras e os desejos de quem ama a cidade.
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MINHA SÃO PAULO (Ivone Carvalho)
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São Paulo é terra querida,
Onde nasci e sempre vivi.
Sampa representa VIDA
O que pensar se encontra aqui.
Vila fundada por jesuítas
sem dúvida, a mais progressista
a mais moderna, a mais mista
Maior cidade da América Latina!
.
Cidade das contradições,
das misturas, da cobiça,
da ambição, do romantismo,
da arte, cultura, dinamismo,
do estrangeiro é o destino,
também do gaúcho e mineiro,
do nortista e nordestino,
gente do Brasil inteiro!
.
Terra da gastronomia,
das belezas naturais,
da natureza modificada,
da tradição, da instrução,
terra de todas as nações,
raças, cores, religiões,
do modernismo, do progresso,
da bela arquitetura, do sucesso.
.
De arrojada engenharia,
da pressa, da correria,
do dinheiro, do investimento,
da garoa, dos alagamentos,
do céu estrelado, da lua cheia,
do arco-íris, da poluição,
do túnel sob o Pinheiros
da Ipiranga com a São João.
.
Do trabalhador responsável,
do Tietê que já foi navegável,
do turista, dos imigrantes,
do trem dos estudantes,
da pobreza e da riqueza,
da insegurança, da esperança,
da droga, da geração saúde,
da ousadia, da pujança.
.
Da Paulista, das Marginais,
dos qualificados profissionais,
do desemprego, da lisura,
dos aproveitadores, dos “espertos”,
da indústria da multa,do camelô,
das muitas linhas de metrô,
da Lapa, Ibirapuera, Jaguaré,
do Brás, Ipiranga, Tatuapé.
.
Do Bexiga, Mooca, Liberdade,
do teatro, cinema, balada,
tem tudo nesta cidade!
O churrasco a qualquer dia,
quarta e sábado é feijoada!
chopp no bar ou calçada
pós o trabalho, no verão,
bate-papo em toda estação.
.
De trânsito congestionado
É carro pra todo lado,
Ao paulistano irrita.
Da indústria e do comércio,
Sede de grandes congressos,
Da Festa da Aqueropita,
da Serra da Cantareira,
é a Capital altaneira!
.
Tem Jardins e Alamedas,
Tem a Bolsa de Valores,
Terra da Sé, da Catedral,
Do Horto Florestal,
Do grande Memorial,
Dos Centros de Convenções.
Da Roosevelt e da Luz,
Que dos trens são estações.
.
Tem o Pico do Jaraguá,
Templos de todas as crenças,
Tem tudo em que tu pensas
Tem o Arnesto e o Trem das Onze,
Tem o Sampa do Caetano
exposições no MASP todo o ano,
O pastel e os musicais,
Todas comidas regionais.
.
São Paulo tem tudo isso
E, garanto, tem muito mais!
quatro e meio séculos de vida,
onde o viver é corrida,
só nos falta, aqui, o mar!
desenvolvimento sem vírgula,
pois seu lema determina:
A cidade não pode parar!

02/10/09

O paraíso e a competência

Bom fim de semana
a todos!
Ilhabela, SPCompetência

30/09/09

Filipinas, terra de tempestades

Quem visita Manila, não esquece o que vê. Há tempos falei do Haiti, país que conheço melhor e onde permaneci alguns meses. As pessoas vivem uma pobreza medonha, do tamanho que eu julgava impossível existir nos nossos dias. Em Manila, convivi com os últimos anos da presidência de Corazon Aquino. Era uma mulher extraordinária, que queria dar a volta a um país corrupto, pobre e fustigado pelas calamidades naturais. Amanhecia um dia de sol, para passadas umas horas as enxurradas levarem tudo à frente. No dia seguinte a lama misturava-se com os dejectos, com os mercadorias espatifadas e o mercado era a maior pouca vergonha que eu já vi. Dum lado as bancas e os seus vendedores, do outro os cavalos misturados com crianças, cães, galinhas e pelo meio carros com turistas, e comerciantes ambulantes que tentavam vender petiscos locais. E depois, a prostituição infantil para a qual não há palavras. Foi em Manila, que me pediram para revistar malas e carteiras à entrada do hotel, e que em cada corredor havia um polícia que nos identificava, para segurança de quem lá estava. A piscina tinha guardas e polícias que passeavam todo o tempo, misturando-se com os turistas que tentavam ser turistas e apanhar um pouco de sol. Era impossível uma mulher sair sozinha sem ser incomodada, conheci uma alemã que trabalhava para uma multinacional e que me convidou para conhecer a cidade. O luxo de ter motorista e belo automóvel, numa terra cheia de miséria é das situações mais confrangedoras por que me lembro de ter passado. Seguir à frente de todos, ter tratamento diferenciado nos armazéns e regressar à minha conferência cheia de colegas que, superiormente, não consideraram importante sair do hotel, foi uma das razões para aquela viagem ser a confirmação da superioridade dos países desenvolvidos e da falsa pretensão de ajuda a quem não é desenvolvido. Olhar para aquele grupo de conferencistas, que em representação da ONU dizia procurar soluções para os países desfavorecidos, foi igualmente motivo, para ficar a saber como funcionam os organismos internacionais a bem da comunidade local. A democracia pode ser instaurada pela força da revolução, mas um povo só vive democraticamente se lhe ensinarem a viver dentro dos princípios da nova situação sociopolítica. Há dias, as Filipinas tiveram mais uma tempestade natural e Manila ficou alagada. A população teve mais uma vez de recolher bens, tentar um abrigo e sobreviver. Para isso recorreu à ajuda internacional. Corazon Aquino morreu este ano, deixou o país com a democracia, as organizações internacionais continuam a fazer conferências, e o país está exactamente no ponto em que o deixei, faz agora 18 anos.
Por isso, quando vemos a nossa democracia em perigo, temos de escutar todos os sinais para nunca vivermos o caos das misérias miseráveis. Aliás, ter a democracia instalada e não ser democrata é uma péssima conjugação para qualquer país.

29/09/09

Sou forçado, sou forçado!

Ora bem, tivemos os esclarecimentos do nosso PR, em versão interpretada dos factos. Na sua breve declaração, Cavaco Silva interpretou os factos e disse, o que pensou e pensa o Presidente. Não gostou de o fazer, não o costuma partilhar e foi forçado, forçado, repetiu! Tudo isto porque "queriam colar o Presidente ao PSD e desviar as atenções" e por outro lado centrar o problema na segurança informática, fica bem. Pelo caminho levantou dúvidas, que considerou não ser crime, visto ser normal todo o cidadão poder, em termos pessoais, ter dúvidas. Mas também levantou suspeitas em relação a assessores, a jornais, à confidencialidade e à segurança informática da Casa Civil. No fim de contas deixou bem presente que ninguém fala por ele e que o Presidente só fala quando promete e no momento que lhe convier. Siga a música, que desta já lavei as mãos.