08/02/10

Liberdade e domínio

Interrogo-me sobre até onde vai a liberdade de expressão e termina o domínio da "coisa"?
No Parlamento Europeu o, quase de saída porque no final de mandato, comissário Almunia é desautorizado por ter comparado Portugal à Grécia. Ninguém o impediu de falar mas ele foi desautorizado. Em Portugal, os deputados não chegaram a apresentar a proposta dos rendimentos na internet porque foram desautorizados pelo líder de bancada. Francisco Assis, não conhecia o teor da proposta e não tinha, portanto, o domínio da coisa. O comissário europeu também o fez à revelia dos países dos quais falou e também foi posto na ordem pela vice-ministra espanhola Elena Salgado que quis dominar a coisa. Durão Barroso, que o escolheu para a pasta da concorrência nos próximos cinco anos, ficou numa situação incómoda ao ver o seu país tratado pelo inimigo e também não dominou a coisa.
A outro nível, jornalistas querem publicar artigos e dizem não ter o domínio das coisas. Fala-se em liberdade de expressão. Portugal não tem feito outra coisa senão ouvir escutas e escutar quem diz o que lhe apetece sob o argumento do domínio da coisa. Não se sabendo em quem acreditar e que juízo fazer, quem ouve passa a não ligar ao que quer que seja. Perante tal calamidade, tornamo-nos num país de indiferentes e onde ninguém manda. Passamos a constar como uma força silenciosa que pode um dia ter de marchar contra os canhões da inglória e que nem puxar o gatilho sabe. E uma força silenciosa que não domina a coisa, pode tornar-se no rastilho necessário e a jeito para os que têm a tentação de nos quartejar a liberdade de expressão com a ilusão de querer comandar a coisa.

6 comentários:

Mike disse...

"O que me preocupa não é o grito dos maus, é o silêncio dos bons". (Martin Luther King)
Gostei deste texto, Colega. :)

RAA disse...

País suicidário -- tentei comentar de manhã, mas de manhã não consegui computar. :|

vbm disse...

Uma acurada dialéctica entre a liberdade de expressão e o 'domínio da coisa'! :)

Mas temos de convir no seguinte: quem age numa instituição, por muito que mantenha, e deva manter, o seu livre pensamento

ou o exprime sem prévio debate dentro da instituição, e esta pode naturalmente não se rever no que em seu nome haja sido proferido,

ou, mantendo o pensamento próprio, recolhe ou não a anuência do colectivo institucional à sua palavra.

Na primeira hipótese, representa-a liminarmente; na segunda, se é homem livre, reflecte e decide se aceita ou se demite da instituição.

No essencial, a independência material e intelectual é fundamental para não se ser um mero e vil 'pau mandado';

como diziam os romanos "sed imperare, maximum imperium est" ("governar-se a si próprio é o maior dos poderes")

ana v. disse...

Uma grande verdade, GJ: nada mais perigoso do que uma força silenciosa, impotente e mal informada que acorda de uma apatia...

Luísa disse...

GJ, há aqui, pelos vistos, duas coisas a dominar: o conteúdo e o destinatário da informação. Sobre o primeiro, parece-me que há, claramente, pouco estudo, pouco aprofundamento, pouco domínio do que se propaga, ou seja, muita leviandade noticiosa. E daí que a desconfiança seja hoje, para além de uma reacção a acontecimentos específicos, um permanente estado de espírito. Quanto ao domínio do destinatário da informação… bom, eles que tentem, porque sempre quero ver até onde vai a nossa imensa passividade; ou seja, o que é preciso para que a nossa desconfiança permanente do engano se transforme em revolta contra quem nos engana. :-)

Austeriana disse...

GJ,
Há um filme assim.