Mars 2020 Perseverance rover
Há 3 meses
E quando um fica pelo caminho, lembramo-nos que pelo facto dos exames estarem bem não quer dizer que se esteja curado. Foi com pesar que li a notícia da morte do Pedro Beça Murias. Peguei no seu livro e reli algumas das suas crónicas na sala de espera. Afinal, a sala era mesmo de espera e não demorou muito a chegar o seu dia. Que reste em paz!
Mas eu volto e conto tudo!)
Agora dizem que fomos os últimos a tomar as medidas que os outros já fizeram há muito. E ainda não terminamos porque este é apenas o começo. Mas será que estávamos à espera de ser os primeiros?
Houve uma época em que não passava um ano sem fazer uma festa, era o tempo da adolescencia. Mais tarde, os aniversários foram substituídos pelas festas com as crianças, era o tempo da maternidade. O desejo de dar alegria foi-se tornando mais importante do que o de ter alegria em fazer festas de aniversário próprio. Apagar velas passou a ser um hábito que não tinha grande importância, até ao dia em que as outras velas espreitaram à minha porta. Hoje, celebro com muito gosto e alegria os meus 56 anos, é o tempo da maturidade e da recompensa.
Há dias em Maputo a população insurgiu-se pelo aumento do preço do pão dando origem a desordens e mortes. Joaquim Chissano disse mais tarde que a população não sabe que Moçambique não produz todo o trigo necessário para abastecer o país. Acrescentou, que a população tem de ser ensinada para poder compreender o processo. O pão é um dos alimentos base da alimentação dos pobres. Moçambique está entre os 10 países mais pobres do globo. O governo acabou por ceder às exigências da população.
Seguindo a proposta da Mónica, iniciei a ronda das revistas com a moda Outono-Inverno. E pelo jeito, o melhor é recuperar as blusas que por aí andam perdidas. Ao reciclar peças interessantes, fico com a sensação de criatividade atingida e com a ideia de que aforrei o suficiente para a estação seguinte. Claro que entre a realidade e a fantasia vai um passo, mas nada como o sonho para nos fazer feliz sem nos comandar a vida.
Este ano, a minha praia do costume está diferente. Ela foi invadida por franceses, ingleses e americanos verdadeiros, daqueles que dizem hotdog e pommes frites e gostam de red wine servido a copo às 5 da tarde. Penso que dada a proximidade do campo de golfe de Óbidos, o imobiliário que se foi vendendo especialmente a ingleses e respectiva divulgação feita pelos próprios, a terra se internacionalizou, deixando os meus conterrâneos, por um lado, à deriva e assustados com tanto estrangeiro a usar e a comprar os nossos produtos, e por outro a esfregar as mãos de contentamento provisório. Claro, que esta grandiosa alteração veio provocar igualmente um aumento não dos preços, que esses já estavam previstos pelos comerciantes atentos ao aumento do iva e outros impostos, mas da oferta de comes e bebes. Assim, para além dos habituais cafés e esplanadas de verão, temos mais cafés e mais esplanadas o que se traduz numa maior variedade de sandwiches, sopas, e saladas, que substituem as empadas, rissóis, croquetes,pastelinho de bacalhau e chamuchas de sempre. Mesmo assim, ainda não temos um belo sortido de quiches, antevendo-se um nicho de mercado que será aproveitado no próximo verão,aliás, eu própria estou a equacionar candidatar-me a empresária de tartes doces e salgadas já este ano, dada a minha disponibilidade sombria e enquanto o negócio se mantém longe do fisco. Para além destes novos atractivos, S. Martinho inaugurou um novo take-away de jovens em idade apropriada para os novos e atraentes países no final das férias. É que com tanto estrangeiro(a) os namoros vão pegar e vão dar que falar até ao natal, época em que as esplanadas darão lugar a verdadeiros pontos de pasmaceira, a menos que os bifes se mantenham cá na terra.
A rapariga ainda estava com o registo afrancesado quando lhe pedi um pão de leite, é que o rapaz anterior tinha pedido uma hamburga, um cão(que é como vocês dizem(?), um de filete. Chegada a cliente da burka, olhou para mim e perguntou outra vez: um deleite? A que é que vocês chamam deleite?
Entrei ligeira e saí depressa, não com o ar cansado do costume mas com a andar leve e solto de quem está livre. Entrei no carro, rumei para sul e nunca pensei que a viagem me desse tamanho prazer. Olhei o mar, senti o cheiro, vi a liberdade no pranto, senti o suspiro, as lágrimas correram, e o meu corpo de pele escaldada finalmente, serenou. Voou em liberdade como só o preso deve conhecer e senti que, a partir de hoje não tenho direito a lamentos mas apenas a comemorações. Aos amigos que me acompanharam nestes últimos meses o meu muito obrigada!
Ontem foi a morte de António Feio, há dias foi a de Tiago Alves um judoca com apenas dezoito anos.
ter partido, cada um com o cancro que os deixou ficar mal!
Leio que há quarenta anos que não havia crias de abutre-preto a voar em Portugal. Não me espanta que estejam a regressar os que andavam fugidos, mas fico apreensiva. Já tínhamos tanta espécie à solta e ainda vêm mais estas juntar-se, aos de outras cores, que por aqui têm andado.
Uma pessoa sai de casa cedo, o tempo está mais do que bom, as aulas terminaram e o trânsito deverá fluir com mais rapidez, mas não. As escolas de condução pensaram o mesmo e eis-las à minha frente, devagarinho como manda a lei, a aprender com muito cuidado e a engarrafar as ruas. No momento em que nos libertamos, aparecem todos aqueles com matricula sem ano e senhoras que vêem as montras enquanto guiam. E quando finalmente chegamos ao destino, um fangio qualquer buzina-nos a traseira porque fizemos uma manobra mais arrojada. Dá-me cá uma raiva!
A Fernanda acabou o tratamento, a Augusta tem mais uns dias, a Filomena diz-nos adeus na quarta. Eu acabei a terceira semana de radioterapia, faltam outras tantas. O ar do IPO é mais pesado que o dos corredores do Hospital de Sto António, as pessoas estão quase todas a fazer e a pensar o mesmo. A comunidade de utentes passa horas à espera "do tratamento", ouvem-se risos misturados com relatos pessoais e indignações de vez em quando. É também um local de estacionamento dos familiares que acompanham quem vem de longe. As SCUTS são tema de conversa, o preço dos bens alimentares e a sardinha que alguém tem de assar quando acabar o tratamento desse dia, também. Repetidamente, Fernanda, Celeste, Augusta, António, "ao tratamento". De vez em quando, Joaquina, sala de tratamento 1. Cinco dias na semana e pelo menos duas a três horas passadas na sala de espera. O ar é pesado, as histórias vão passando e a esperança renova-se até ao dia seguinte. Nota-se, no entanto, uma certa segmentação de grupos. Os grupos dividem-se por áreas geográficas. Eu gosto de me sentar junto do grupo de Paços de Ferreira, pelo caminho vou sabendo que um dos maridos é serralheiro, outro carpinteiro, um é irmão e primo de outro acolá e as mulheres com a pele tisnada pelo sol, e sem rugas, falam dos filhos adolescentes ou universitários. É bom saber, que apesar da ruralidade os jovens querem seguir outros caminhos e têm pais para os incentivar. É reconfortante perceber que apesar de tudo somos todos iguais. "Que idade você tem? pergunta-me a Fernanda. "Olhe, que está bem conservada!". Todos iguais, com mais ou menos make-up!
Tentando bloggar nas salas de espera do IPO ou como enviar várias vezes a mesma mensagem para os vizinhos :)))
"Não tenho cabeça" e "sou um ser humano, estou a sofrer e tenho o direito de sofrer sozinho".
Descoberto ao acaso, gostei do que vi e do que li. Um blogue para ficar de olho porque me recorda vivências canadianas.
O Mónaco anuncia o noivado de Alberto com Charlene. Calma, que ainda há esperança e pode haver fogo, até ao anúncio do casamento.
Vive-se a época do sensacionalismo, mas onde está a paixão? Nos últimos tempos parece que tudo o que se apregoa tem de ser enviado com o exagero de emoção, mas esquecendo que é o mensageiro que traduz o fôlego e o ímpeto da acção. No mundo dos negócios se as equipas de venda não forem apaixonadas pelo produto não serão capazes de traduzir esse espírito de empatia e necessidade de ouvir. O marketing tem passado por momentos difíceis e as empresas e seus gestores põem ênfase principal na diminuição de custos e apresentação de resultados, esquecendo que o bem principal tem de ser vendido em primeiro lugar. Uma empresa com gestores que só se preocupam em reduzir custos e estão alheios à angariação de clientes não vai longe. Com o tempo, mesmo aqueles que ainda têm alguma paixão, passam a desinteressados que tentam vender a outros desinteressados. É urgente voltar a acreditar que o mundo não é feito só de episódios negativos e que não é uma questão de esperança que nos move, mas sim a nossa capacidade de mudar mentalidades, situações, empenhos e outras tendências que estão à nossa mão. Como Seth Godin muito bem nos relembra, "people who don't care, selling products to people who care less" é verdadeiro. Por isso é tão importante que os CEOs se lembrem das pessoas que dirigem e dos produtos e serviços que pretendem que elas representem. Mas para isso, eles terão de se apaixonar, em primeiro lugar, por aquilo que fazem.
A RTP2 passou ontem em repetição, uma entrevista de José Saramago a José Rodrigues dos Santos, parte de um programa intitulado "Conversas de escritores" que foi transmitido há cerca de um ano e que é importante rever. A conversa orientada para a obra a maior parte do tempo, revelou Saramago de forma simples, afável como não o terá sido noutras épocas da sua vida, condescendente com os seus erros e sem nada mais a provar num tempo que ele próprio terá reconhecido como próximo do fim. Saramago, soube no final da sua vida, criar o impacto que levará muitos a querer conhecer a sua obra. No final vi aquilo que ele quereria que eu tivesse compreendido - uma certa forma de ser- em formato de travessão gramatical. Saramago, tal como Borges, que ele admirava, vai ficar na história da literatura não apenas pelo prémio Nobel que todos querem reclamar, mas pelo estilo que soube criar com muitas ou poucas virgulas, com ou sem minúsculas nos nomes próprios, com ou sem memória para contar. O próprio deixou claro que os livros mais representativos da sua obra são o "Caderno de Pintura e Caligrafia" e "Levantado do Chão". Que reste em paz, quem tão polémico foi!
Diz o ditado que cama mal arrumada não dá sonos repousantes e mais, que quem a cama faz e nela se deita não tem de que se queixar. Acontece porém, que lá pelo Algarve há quem queira pôr fim a esta pouca vergonha de camas emprestadas à prima, vendidas livre de impostos e sem as respectivas receitas fiscais, a todos os que nelas se queiram deitar. Ainda por cima agora que o governo anda à caça de receitas e se deu conta desta riqueza nacional que dá pelo nome de economia paralela. A malta já desconfiava que era uma questão de tempo até virem em cima do colchão que temos a mais na garagem para o que der e vier, mas assim de repente não está certo. Por um lado pedem-nos para fazermos férias dentro de casa e que nos tornemos novos empresários e agora querem que deitemos fora as camas que nos davam o rendimento extra do negócio. Em Portugal a economia paralela só continua a ser fenómeno para quem gosta de passar por tanso, para os outros é representativo de uma economia frágil, desorganizada e onde os que se dizem espertos fazem pela vida e chegam a lugares de responsabilidade. Infelizmente sempre existiu e está aí para continuar nos mais diversos sectores. O turismo é apenas o último a ser chamado à pega, sem ninguém o conseguir controlar. São coisas do meu país em tempos de desarrumação.
Harrison Ford e Calista casaram. Como este é o actor que mais influenciou o meu rapaz mais velho na arte "Starwars", fico agora a aguardar o desenrolar dos acontecimentos aqui em casa...:)
Estaremos assim tão distantes da geração 700, e seremos tão diferentes dos gregos como alguns querem acreditar? Não me parece. Sofremos dos mesmos males, temos jovens com excesso de cursos e empregos a menos, temos jovens a viver em casa dos pais até idades tardias e a custos não recompensados, temos trabalhadores que se debatem com reformas que provavelmente nunca receberão, temos salários para recém-licenciados que se encontram a valores idênticos e temos uma geração que não acredita que é capaz de viver sem o estado providência. A geração 700, assim designada pelo valor do salário do recém-licenciado tem muitas vezes vários graus académicos, mas não tem perspectivas de empreendedorismo. Tem medo de lutar em ambiente desconhecido e no entanto, é detentora de cursos e diplomas que supostamente lhe ensinaram a criar o seu próprio emprego, é sabedora de métodos de gestão que deveriam incentivar e motivar quem procura emprego. Em Portugal tal como na Grécia os jovens querem emprego, mas ninguém lhes ensinou que era necessário querer entrar no mercado de trabalho. Para quem esteve habituado a viver em casa dos pais até tarde, a ter tudo aquilo que queria e a estudar não o que devia mas o que lhe parecia ser a moda, não tem grande capacidade para fazer face às dificuldades. Os jovens não estão habituados a fazer sacrifícios e os pais também não os deixam fazer. Vivemos hoje "ensandwichados" entre a geração que tudo pensou para os que haveriam de vir e aquela que não faz a mínima ideia de como aqui chegou. E a conclusão é que esta é uma cultura instalada seja aqui, ou na Grécia, ou em Espanha ou em Itália ou, eu diria, em todos os pontos da Europa remediada.
Angelique Kidjo FIFA World Cup Kick-off Celebration Concert 2010
Shakira - Waka Waka - 2010 FIFA World Cup Kick-off Celebration Concert
Acho que limitar a venda de bebidas alcoólicas a menores passando para 18 anos a idade mínima de venda me parece bem, duvido, no entanto, da eficácia da lei. Os jovens saem à noite cada vez mais cedo, frequentam bares e discotecas a partir dos 14 anos, as raparigas forçam make-up e entram sem dificuldade nos lugares nocturnos, os cafés não fiscalizam quem bebe, apenas quem compra e a cerveja é de acesso imediato. Quem controla as vendas no supermercado e nas bombas de gasolina? Por isso, não acredito que a lei per si mantenha os jovens fora do acesso ao álcool e do seu consumo. O comportamento dos jovens é diferente do que era há alguns anos atrás, os hábitos de consumo tendem a manifestar-se muito preocupantes mas não é só através da lei que tal se modifica. Acho, e sei que estou certa, que é no seio familiar que os exemplos se colhem e a formação se faz, que é aos pais, em primeiro lugar, que cabe ensinar os filhos a terem comportamentos saudáveis, cívicos e normais, porque saber beber é normal e não um crime. E acho, igualmente, que muitos pais têm de alterar os seus comportamentos de educação sob pena de transformarem pessoas razoáveis em pequenos e insuportáveis cidadãos para a vida.
Tem 23 anos e esvoaça pelos corredores com os seus lenços a condizer com as roupas. É tão jovem e engraçada que chama imediatamente a atenção. E tem graça, tem estilo e é diferente na sua juventude. Reparei nela um dia no bar do hospital, vestia em tons de lilás. O lenço e as sapatilhas a condizer. Estava com os pais, eles também gente com idade para ter filhos pequenos e faziam parte dum grupo que se distinguia pela forma como a mais nova se comportava. Via-se que os três estavam unidos de uma forma especial. Hoje soube que a Bárbara é filha única, terminou o curso de Gestão no ano passado e quando se preparava para iniciar o mestrado surgiu a dor no ouvido que se veio a verificar ser um linfoma. "Coisas que ninguém conta", diz-me a mãe, "a minha filha foi sempre uma criança saudável. Uma pessoa fica sem chão quando nos dão a notícia, a Bárbara nunca deitou uma lágrima, ouviu tudo com muita calma, o pai esteve três dias sem se chegar a ela, cada vez que tentava desatava a chorar. Se eu pudesse, passava a doença para mim".
Os livros são parte da minha vida, vivo rodeada deles, há-os para todos os gostos e enchem metros de parede, fazem parte do meu tango. Por isso quando o meu querido cônjuge encomendou mais uns tantos sobre tudo o que lhe parecia ser útil para entender o cancro em primeiro lugar e o meu em particular, não me admirei de os ver entrar. Aos dois, os livros e o Sr. Jóia. E muito menos estranhei que o segundo passasse metade do tempo, eu diria que nalguns dias foi trabalho a tempo inteiro, a ler tratados de quimioterapia, manuais de sobrevivência do cancro, do cancro da mama, da ajuda do marido, da alimentação apropriada, das medicinas alternativas, das experiências de sobreviventes de cancro, para além de outros que alimentam o espírito e tranquilizam a alma. Por isso, e por tudo o resto que temos vivido eu estou-lhe eternamente grata e é nestes momentos, que nos lembramos das tais palavras ditas um dia, naquela altura em que não fazemos a mínima ideia de como são importantes, e que rezam assim - ... na alegria e na tristeza, na saúde e na doença ... - seguido do beijo que as sela para a vida.
Se para o doente lidar com o cancro carece de aprendizagem, para o cônjuge não é melhor. Eu diria até, que em certos momentos é pior. Para o doente a expectativa é temporária, a pessoa está sujeita a tratamentos durante um determinado tempo, a esperança é infinita e a força imensa. A pessoa doente ao contrário do cônjuge nunca faz lutos, mesmo que a imagem seja uma pequena visão do que fisicamente é. O fenómeno é igual ao do envelhecimento interior. Ele nunca existe se nós formos pessoas mentalmente saudáveis e de bem connosco. A imagem pode ter rugas e cabelos diferentes, mas o interior mantém-se com vinte anos. Com a doença pode ser igual, estamos doentes, sentimo-nos fracos mas não deixamos que os outros nos tratem como tal, por isso lutamos para que nos vejam como efectivamente sabemos que voltaremos a estar e a ser. O cônjuge passa por muitos sentimentos e vive muitos estados de alma. Ele tem de fazer o luto da pessoa saudável, aprender a viver com a pessoa doente e compreender a doença. Depois tem de aprender a fazer o luto da pessoa doente e a reaceitar aquela que ainda há pouco tinha sido alvo do luto. E tudo isto no espaço de meses e acreditando que o pesadelo passou e não volta. Não é fácil, porque na verdade o pesadelo pode voltar e os dois têm de acreditar na racionalidade do tratamento e ter fé na remissão da doença. E acima de tudo têm de acreditar no futuro e aceitar o presente; têm de reaprender a fazer planos e a acreditar no seu cumprimento. Têm de atirar a doença para lá e viver ora cá e ora lá, como no antigamente, como no antes de, sem medos e sem rede.
Um dia logo no antes de, um médico precioso que me acompanha há anos, disse-me que eu iria passar muitos momentos a sós, viveria comigo e que deveria estabelecer metas pessoais. Dias sozinha com os meus pensamentos, com as minhas coisas e sem necessidade de as comunicar. Um dia, não há muito, esse momento chegou, tal como o mau bocado de que este amigo me falou. Por muito que os que nos rodeiam nos conheçam, não é possível partilhar alguma da solidão que toda a doença obriga. A constatação das limitações é acompanhada de uma raiva que não tínhamos antes e há dias em que nos sentimos mais cruéis. A nossa capacidade de aceitação está, em princípio, relacionada com a nossa índole moral e é como se os outros tivessem de nos dar especial importância só pelo facto de nos considerarmos pessoas merecedoras. O que não deixa de ser extraordinário, se nos recordarmos dos momentos em que a palavra doença nos parece abominável e o coitadinho pior. Num todo, uma parafernália de sentimentos contraditórios podem surgir num só dia. Por isso, viver um dia de cada vez é o jargão mais usado pelos doentes e familiares. Nos dias que começam no pós de, a vida depende de muitos factores. Uma sessão pode ter corrido melhor, os fármacos podem ter sido mais generosos ou os antidotos mais poderosos. A nossa receptividade melhor ou pior e a nossa curiosidade com maior ou menor graça. A leitura é uma das nossas armas e a melhor fonte de combate contra o cansaço, o enjôo, a lágrima, os altos e baixos. Os momentos são todos diferentes apesar das sessões serem todas iguais. O "antes e o pós de" termos iniciado a quimioterapia são dois acontecimentos que nunca mais iremos esquecer, tal como os espaços e as pessoas que nos rodearam nos diferentes momentos.
Para se lidar com o cancro é necessário estar de boa saúde em primeiro lugar. No momento da notícia a pessoa, porque não se vê ou sente doente, ouve e antecipa o que lhe comunicam de uma forma distanciada. Na primeira fase interioriza num corpo saudável e fora do seu corpo doente, e por isso não participa. A análise é colhida por aquilo que os técnicos de saúde lhe vão dizendo e orientando. O susto pode não ter lugar e a pessoa distanciada do seu corpo doente utiliza o seu conhecimento remoto daquilo que será o seu dia-a-dia e a sua realidade daí a uns tempos, mas face a um corpo são.