Mars 2020 Perseverance rover
Há 3 meses
Acho que limitar a venda de bebidas alcoólicas a menores passando para 18 anos a idade mínima de venda me parece bem, duvido, no entanto, da eficácia da lei. Os jovens saem à noite cada vez mais cedo, frequentam bares e discotecas a partir dos 14 anos, as raparigas forçam make-up e entram sem dificuldade nos lugares nocturnos, os cafés não fiscalizam quem bebe, apenas quem compra e a cerveja é de acesso imediato. Quem controla as vendas no supermercado e nas bombas de gasolina? Por isso, não acredito que a lei per si mantenha os jovens fora do acesso ao álcool e do seu consumo. O comportamento dos jovens é diferente do que era há alguns anos atrás, os hábitos de consumo tendem a manifestar-se muito preocupantes mas não é só através da lei que tal se modifica. Acho, e sei que estou certa, que é no seio familiar que os exemplos se colhem e a formação se faz, que é aos pais, em primeiro lugar, que cabe ensinar os filhos a terem comportamentos saudáveis, cívicos e normais, porque saber beber é normal e não um crime. E acho, igualmente, que muitos pais têm de alterar os seus comportamentos de educação sob pena de transformarem pessoas razoáveis em pequenos e insuportáveis cidadãos para a vida.
Tem 23 anos e esvoaça pelos corredores com os seus lenços a condizer com as roupas. É tão jovem e engraçada que chama imediatamente a atenção. E tem graça, tem estilo e é diferente na sua juventude. Reparei nela um dia no bar do hospital, vestia em tons de lilás. O lenço e as sapatilhas a condizer. Estava com os pais, eles também gente com idade para ter filhos pequenos e faziam parte dum grupo que se distinguia pela forma como a mais nova se comportava. Via-se que os três estavam unidos de uma forma especial. Hoje soube que a Bárbara é filha única, terminou o curso de Gestão no ano passado e quando se preparava para iniciar o mestrado surgiu a dor no ouvido que se veio a verificar ser um linfoma. "Coisas que ninguém conta", diz-me a mãe, "a minha filha foi sempre uma criança saudável. Uma pessoa fica sem chão quando nos dão a notícia, a Bárbara nunca deitou uma lágrima, ouviu tudo com muita calma, o pai esteve três dias sem se chegar a ela, cada vez que tentava desatava a chorar. Se eu pudesse, passava a doença para mim".
Os livros são parte da minha vida, vivo rodeada deles, há-os para todos os gostos e enchem metros de parede, fazem parte do meu tango. Por isso quando o meu querido cônjuge encomendou mais uns tantos sobre tudo o que lhe parecia ser útil para entender o cancro em primeiro lugar e o meu em particular, não me admirei de os ver entrar. Aos dois, os livros e o Sr. Jóia. E muito menos estranhei que o segundo passasse metade do tempo, eu diria que nalguns dias foi trabalho a tempo inteiro, a ler tratados de quimioterapia, manuais de sobrevivência do cancro, do cancro da mama, da ajuda do marido, da alimentação apropriada, das medicinas alternativas, das experiências de sobreviventes de cancro, para além de outros que alimentam o espírito e tranquilizam a alma. Por isso, e por tudo o resto que temos vivido eu estou-lhe eternamente grata e é nestes momentos, que nos lembramos das tais palavras ditas um dia, naquela altura em que não fazemos a mínima ideia de como são importantes, e que rezam assim - ... na alegria e na tristeza, na saúde e na doença ... - seguido do beijo que as sela para a vida.
Se para o doente lidar com o cancro carece de aprendizagem, para o cônjuge não é melhor. Eu diria até, que em certos momentos é pior. Para o doente a expectativa é temporária, a pessoa está sujeita a tratamentos durante um determinado tempo, a esperança é infinita e a força imensa. A pessoa doente ao contrário do cônjuge nunca faz lutos, mesmo que a imagem seja uma pequena visão do que fisicamente é. O fenómeno é igual ao do envelhecimento interior. Ele nunca existe se nós formos pessoas mentalmente saudáveis e de bem connosco. A imagem pode ter rugas e cabelos diferentes, mas o interior mantém-se com vinte anos. Com a doença pode ser igual, estamos doentes, sentimo-nos fracos mas não deixamos que os outros nos tratem como tal, por isso lutamos para que nos vejam como efectivamente sabemos que voltaremos a estar e a ser. O cônjuge passa por muitos sentimentos e vive muitos estados de alma. Ele tem de fazer o luto da pessoa saudável, aprender a viver com a pessoa doente e compreender a doença. Depois tem de aprender a fazer o luto da pessoa doente e a reaceitar aquela que ainda há pouco tinha sido alvo do luto. E tudo isto no espaço de meses e acreditando que o pesadelo passou e não volta. Não é fácil, porque na verdade o pesadelo pode voltar e os dois têm de acreditar na racionalidade do tratamento e ter fé na remissão da doença. E acima de tudo têm de acreditar no futuro e aceitar o presente; têm de reaprender a fazer planos e a acreditar no seu cumprimento. Têm de atirar a doença para lá e viver ora cá e ora lá, como no antigamente, como no antes de, sem medos e sem rede.
Um dia logo no antes de, um médico precioso que me acompanha há anos, disse-me que eu iria passar muitos momentos a sós, viveria comigo e que deveria estabelecer metas pessoais. Dias sozinha com os meus pensamentos, com as minhas coisas e sem necessidade de as comunicar. Um dia, não há muito, esse momento chegou, tal como o mau bocado de que este amigo me falou. Por muito que os que nos rodeiam nos conheçam, não é possível partilhar alguma da solidão que toda a doença obriga. A constatação das limitações é acompanhada de uma raiva que não tínhamos antes e há dias em que nos sentimos mais cruéis. A nossa capacidade de aceitação está, em princípio, relacionada com a nossa índole moral e é como se os outros tivessem de nos dar especial importância só pelo facto de nos considerarmos pessoas merecedoras. O que não deixa de ser extraordinário, se nos recordarmos dos momentos em que a palavra doença nos parece abominável e o coitadinho pior. Num todo, uma parafernália de sentimentos contraditórios podem surgir num só dia. Por isso, viver um dia de cada vez é o jargão mais usado pelos doentes e familiares. Nos dias que começam no pós de, a vida depende de muitos factores. Uma sessão pode ter corrido melhor, os fármacos podem ter sido mais generosos ou os antidotos mais poderosos. A nossa receptividade melhor ou pior e a nossa curiosidade com maior ou menor graça. A leitura é uma das nossas armas e a melhor fonte de combate contra o cansaço, o enjôo, a lágrima, os altos e baixos. Os momentos são todos diferentes apesar das sessões serem todas iguais. O "antes e o pós de" termos iniciado a quimioterapia são dois acontecimentos que nunca mais iremos esquecer, tal como os espaços e as pessoas que nos rodearam nos diferentes momentos.
Para se lidar com o cancro é necessário estar de boa saúde em primeiro lugar. No momento da notícia a pessoa, porque não se vê ou sente doente, ouve e antecipa o que lhe comunicam de uma forma distanciada. Na primeira fase interioriza num corpo saudável e fora do seu corpo doente, e por isso não participa. A análise é colhida por aquilo que os técnicos de saúde lhe vão dizendo e orientando. O susto pode não ter lugar e a pessoa distanciada do seu corpo doente utiliza o seu conhecimento remoto daquilo que será o seu dia-a-dia e a sua realidade daí a uns tempos, mas face a um corpo são.
Como trazer colorido aos documentos que à priori nada têm de divertido é uma das tarefas dos criativos. Esta é a altura da apresentação de "Relatórios e Contas" empresariais e nem tudo tem de ser enfadonho. A capa pode ser divertida e colorida. A arte e o grafismo devem seguir a perspectiva do miolo, e não têm de ter a rigidez do sisudo argumento que com coisas sérias não se brinca, ou que a imagem transmitida deve ser sóbria, o que entre nós é sinónimo de coisa cinzenta. Durante muito tempo, as empresas não entenderam que os documentos apelativos podem chamar a atenção dos investidores, e que é muito mais agradável abrir um relatório com bom aspecto do que ler a performance da empresa publicada num jornal. A relutância em gastar verbas nos relatórios e contas, seja em versão digital ou em papel, está relacionada com a ideia antiquada de que os números só interessam a pessoas muito específicas que não têm sensibilidade para a arte da publicidade e da comunicação. E também que o que interessa é ter bons resultados apenas mostrados publicamente nos órgãos que a lei obriga. Acontece que os resultados empresariais são o espelho da empresa e toda a fotografia deve espelhar a cultura e o interior daquela unidade. Numa época de cortes orçamentais as empresas começam por aquilo que consideram ser desperdício, mas estão erradas quando decidem tornar cinzenta toda a informação e comunicação com os seus clientes, funcionários, accionistas e potenciais interessados. Não é fácil comunicar em altura de crise, mas é bem pior manter a política de luto permanente mesmo que a dor ainda não tenha passado.
Para saber quem somos temos de reconhecer a nossa identidade e essa vai-se construindo com o decorrer dos anos. É assim com as pessoas e é assim com as nações e é talvez por isso que Portugal nunca se sentiu completamente dentro da Europa. Temos passado os anos com um pé dentro e outro fora, tentando a possibilidade de saltar se não gostássemos e de permanecer se as vantagens nos parecessem crescentes. Acontece que quem não se dedica de corpo e alma, quem não acredita com devoção nunca está completamente empenhado e por isso, não pode beneficiar das vantagens que lhe parecem antecipadamente suas. Portugal tem olhado para a União Europeia com um olho nos fundos comunitários e outro na malandrice e o resultado aparece agora da pior forma. O dono dos fundos fartou-se de aturar o puto reguila e como a criança nada lhe diz, não é filha nem enteada, não tem consideração na hora de punir. Afinal nem a criança se identifica com o parente distante nem o parente conhece a criança. Ao longo dos anos andaram os dois a tentar iludir o resto dos parentes, sabendo muito bem que um dia alguém haveria de descobrir o mais farsante. Agora que o mais vulnerável está nas mãos do outro tem de pagar pelos anos que andou à conta de quem tinha a faca e o queijo na mão. Portugal tem de pagar e calar se quer continuar a comer a sopa mesmo que os ingredientes lhe causem indigestão, mal estar e muitas idas à urgência. Neste momento em que o mal é melhor que a cura, resta-nos ser capazes de através de meios paliativos irmos andando, não bem, mas assim-assim. O que aliás, não deve ser difícil para um povo, que passa o tempo a sentir-se antes assim-assim que pior, graças a Deus.
Numa altura em que andamos preocupados com a crise, que não é apenas do país, mas da União Europeia e do colapso do Euro, o PSD anda empenhado em envolver o partido num clima de afectos. Aproximar os portugueses com beijos e abraços pode ser interessante, não me parece contudo que seja isso que vai levar os portugueses a ficarem entusiasmados com os dias de porta aberta e movimentos em prol da figura do simpatizante. Mas posso estar enganada, como tantos portugueses que gostariam de ver o país a andar em vez de estagnar. Pedro Passos Coelho tem de apresentar medidas que o distingam de Sócrates. Até agora, vi um role de sugestões, uma check-list do que deveríamos fazer. Mas como vários analistas têm afirmado, ninguém se tem preocupado em apresentar medidas para hoje e amanhã. A bancarrota tão pouco desejada e que se mantinha fora do pensamento dos portugueses mais ingénuos está à vista e não me parece que sejam os bons afectos que a vão parar. Não vale a pena perguntar se vamos ser, se somos iguais à Grécia ou se também aqui as pessoas irão para a rua. O que importa é evitar que tal aconteça. O povo tem sido sereno em muitas ocasiões, somos pacíficos até um dia, fizemos uma revolução exemplar sem sangue, até quando aguentamos é a pergunta que devemos fazer.
Tinham-se esquecido de me dizer que os malvados dos medicamentos nos fazem inchar até parecermos gordas, horrorosas e belas ao mesmo tempo. Durante o frio a moda estava de feição para os conjuntos que o Sr. Jóia apelidou "a toilette da doença". Leggings e camisolões confortáveis, elásticos na cintura e de vez em quando para as ocasiões mais formais aquelas invenções que nós mulheres sabemos usar para disfarçar a falta de vontade de nos arrebicarmos. Assim foram andando uns meses que entre idas ao hospital e ensaios de fisioterapia o que queria era tudo desde que fácil de usar. Com o tempo mais ameno e o calor a apertar iniciei o veste despe e... não temos nada que sirva. Um desespero de ficar com os cabelos em pé. Coisa que nem por isso me deixa mais confortável. Vai passar dizem as boas almas que me rodeiam é da cortisona, vai desaparecer quando terminarem os tratamentos. Claro que quando terminarem os tratamentos teremos passado o verão e esta história é como durante a gravidez. Todo o quilo acumulado não desaparece com o nascimento da criança, ficamos gordas, horrorosas e ao mesmo tempo belas. Constatado o facto, não só eliminei os doces que andavam a fazer-me um gostinho especial como o pão maravilhoso que me ia alimentando o dia. Pelo caminho deixei os queijos que uma alma não pode tirar tudo e concentrei-me nos conselhos do meu amigo Póvoas que nos manda comer com sabedoria, continuidade e resignação. E o resultado já se começa a perceber, pelo menos foi o que senti esta manhã quando à terceira tentativa encontrei uma toilette que não era de doença e que me fez sorrir de contentamento enquanto me devolvia a sensualidade e auto estima necessárias para me arrebicar com mais olhos e maquilhagem que o habitual nos últimos tempos. Até calcei uns sapatos de tacão porque mulher que se preze, não pode deixar de ser um diabo e um anjinho em pessoa por muito tempo.