21/02/19

As Estações da Vida - Agustina Bessa-Luís



" A viagem de comboio tinha um cunho espirituoso. Sempre se encontravam pessoas raras, porque a província preservava o indivíduo e conservava o seu dialecto e os seus costumes. eram recoveiras, caixeiros viajantes, gente de negócio e do contrabando, estudantes em férias ou que as tinham terminado, padres e professores; e um sem-número de passageiros precavidos com um farnel de pombos estufados em vinho tinto do Porto e cavacas de Resende. Comida de gente regalada e antiga como havia na província profunda."

17/02/19

Pedro Barroso


06/02/19

Carta flutuante


Levantei-me sobressaltada, algo me acordou, o quê não sei, talvez o vento ou algum galho esquecido nos troncos das árvores. Fui à janela, a noite estava escura e aqueles troncos não eram árvores, mas sim pequenas falésias. Estranho, pensei! Vejo quatro elevações que não me parecem terrenas. Estarei a sonhar? Esfreguei os olhos, fixei o olhar, voltei a aproximar-me da janela, estavam lá. Fui investigar e no meio da minha incredibilidade e distração nocturna saí descalça. O chão era branco e fofo como neve, mas que coisa ridícula, não era frio.  Fui caminhando e enterrando os pés fazendo com que se vissem maiores do que na realidade seriam. Com passadas grandes, fui andando, uma, duas, três, quatro e as sombras deram lugar a passos e pés luminosos que iam avançando paralelos bem definidos, subindo em arco sem pressa em direcção a outras sombras, que entretanto se formavam e bailavam como se fossem pernas animadas ou animais de floresta. E foi quando sem medo acordei, porque na realidade era uma carta flutuante num sonho que não consegui até hoje interpretar.

Celestino

Celestino, anda ali para os lados da Boavista. No início era apenas uma pessoa que  ajudava a estacionar. Braço para um lado, aceno de mão e de cabeça para o outro, dava os bons dias. Era como se estivesse a passar o tempo, ocupando-se com tarefas úteis e ligeiras.
Homem de estatura pequena, rosto marcado pela vida mas afável mantinha a barba feita, tinha um  aspecto cuidado, falava com quem ali parava. Foi estabelecendo conversa de ocasião. Até que, numa dessas manhãs, ganhou coragem e apresentou o que verdadeiramente o aflligia. A família, a doença, o preço dos medicamentos. A saúde a bem dizer.
Foi o primeiro pedido de  ajuda.  Medicamentos com a justificação  familiar, porque uma ajuda é sempre valiosa, disse Celestino.  Mais tarde, vieram outras queixas. Uma vez a coluna que estava assim assim ou a perna fruto duma cirurgia azarenta.  E Celestino,homem de cara rude, cabelo escuro e roupa emprestada foi passando a acompanhar outros arrumadores que nada tendo para arrumar, se voltaram para os estacionamentos.
E a pouco e pouco, a tosse e o cigarro passou a acompanhar o aceno de braço de Celestino, enquanto imitava os colegas recém chegados.
Hoje, Celestino chegou mais perto, na lapela do casaco pousava o crachá - Celestino B. arrumador autorizado, fotografia e identificação oficial. Olhei-o com curiosidade, o rosto já não vê uma lâmina há muito, bem como os seus olhos que perderam luz. O rosto duro e enrugado  já não tem família à espera e Celestino também já não estaciona carros. Celestino espera apenas, arrumar uma moeda.

16/03/18

Os ciclos de um episódio

"O que mais nos assusta é ser silenciosa, dificilmente visualizamos um futuro menos brilhante ou uma pele menos rosada, raramente encontramos definição para o momento em que o espelho nos diz que afinal era verdade, estamos doentes e não há blush que esconda o ar macilento. Mesmo nos dias que antecedem o primeiro ciclo continuamos a não ver ninguém doente. Quem está à nossa volta também não vê e o sonho não quer acreditar. Mas é assim que tudo acontece e o silêncio com que as células circulam é de alta velocidade. Um pesado contrassenso e um medo absurdamente real!
Do primeiro round saí convencida que outras coisas poderão ser piores. Vamos, eu e os que me rodeiam, caminhar para o segundo com a esperança do primeiro e duma espécie de sintomas de gravidez tardia e enjoada. (GJ, 23/01/2010)"

......e uns tempos depois, vieram estas minhas palavras, sem data.

"O texto acima foi escrito uns dias antes de ter iniciado a quimioterapia e um mês depois de ter feito a cirurgia. A tónica estava no medo e na incredibilidade de poder estar doente. Os dias que se passaram desde então, foram meus companheiros de jornada, dado que muitos momentos foram isolados por vontade e necessidade própria. Os sons deixam de ser importantes e o silêncio é o nosso melhor companheiro. No passado raramente falava no plural, hoje, sinto que faço parte de uma comunidade de doentes oncológicos que se reconhecem e sabem que podem contar uns com os outros. Estou certa que um dia, mesmo que reconhecidamente curada, não deixarei de me lembrar dessa corrente humana que um dia por locais iguais passou. A reflexão é um dos elementos com maior peso no conjunto das variáveis, uma segmentação perfeita dos portadores de doenças tecnicamente curáveis e ansiosamente prováveis."(GJ)

.....E hoje, ao rever o que por aqui andei a escrever e num ímpeto de deitar fora, gosto de acrescentar que sim, é verdade, não nos esquecemos das pessoas que estiveram doentes como nós, que conversaram e partilharam as suas fraquezas, daqueles que nos ensinaram a olhar a vida e os outros de forma diferente, a aprender com gente mais nova, com gente que às tantas já cá não está, mas que  um dia ficaram em nós. Foi há oito anos.

15/03/18

Histórias do quotidiano

Ainda não era o tempo dos alternativos e o táxi era lento, continuava devagar pelas ruas que amanheciam rápido. os vidros embaciados reflectiam que tinha estado parado algumas horas e que o dia de trabalho havia começado cedo, por volta das 5 da manhã.
O carro está frio, disse ela. Eu tenho aquecimento, disse ele, vou abrir um bocadinho para lhe dar calor nos pés. O vidro está embaciado porque  não o limpei por dentro. Não conhece o truque? continuou o homem, é fácil. Limpa os vidros por fora com shampoo e passa o pano do lado de dentro. Vai ver que nunca mais tem problemas, não fica turvo, não embacia, pode chover o dia todo! Já o aquecimento interior não é necessário, só um bocadinho para as clientes aquecerem os pés.
A senhora tem pressa? Vai fazer o exame  lá no hospital? temos tempo.
Olhe outra vez a atravessarem na passadeira. Se fosse um particular, quem sabe desses que um dia hão-de vir para cá dar cabo do nosso trabalho, paravam. Como é táxi atravessam. Eu já os conheço, ando nisto há 48 anos, sabe, já tenho 72 anos. Está a ver, conheço-os todos!
Vai fazer o exame? temos tempo.
eles ainda nem abriram, gente dos hospitais. O Costa é que sabia, andei com ele na tropa.Um dia, o meu médico disse-me eh pá, vai ao Costa que ele sabe daquilo. Depois, mostrei-lhe o exame, sabe o que ele disse? Isto é que é um exame bem feito, vê-se tudo. O Costa sabia daquilo, sim senhor!
Olhe já chegamos, prontinho, já posso desligar o aquecimento, tem tempo.
(encontrada nos cantos da memória de uma mala esquecida no tempo)

20/04/17

Por outro lado

Leio nas Crónicas do Rochedo que se alugam camas em Lisboa em prol do capitalismo. Interessante! Mas será que devemos atribuir ao capitalismo a culpa duma situação dos tempos? Antigamente usávamos a expressão desenfreado para designar as situações que nos pareciam menos cómodas e mais óbvias da precariedade social. Hoje Lisboa ou Londres com soluções para o imediatismo conturbado dum social a necessitar de ordem ou apenas sinais de uma Europa muito igual na sua desigualdade? Soluções e reflexões, à parte, não chega analisar situações. Fazedores ou seguidores?