28/10/19

não gosto

Não gosto de gente rancorosa, que não é capaz de ultrapassar as menos verdades sofridas, porque mesmo que injustas são acontecimentos passados, que deveriam ter arrefecido com o tempo.
Não gosto de lutas que não compensam, que julgam e mal fazem, deixam mágoa no rosto e vontade de vingança no coração.
Serei comodista ou cinzenta? Serei pouco lutadora ou terei apenas chegado mais longe no meu pensamento e na minha visão do mundo?
Tenho mais certezas nas coisas básicas e menos nas subjectivas, não acordo com vontade de mudar o mundo, mas sim com o desejo de simplicidade, de justiça social, mais saúde para quem não a tem, menos pobreza para os Celestinos da minha terra.
Já não saio à rua para gritar, nem vou a manifestações, mas participo em causas nobres, garanto ajuda a muitos e não necessito de as publicitar. Por isso, repito, não gosto de gente vaidosa que não sabe dar sem pensar em receber.

08/07/19

Para a Mariana, Muitos parabéns!


“Quando chega,
traz no olhar o brilho de quem sonha,
no rosto, a travessura dum sorriso,
na pele, o cheiro a Primavera,
nas mãos, a ternura do toque,
na voz, a doçura de um Cantar de Amigo,
no corpo, o desejo de um abraço,
na mente, a vontade de ficar.
...e parte.
Talvez um dia...”

In, “Há almas perfumadas...” Revista A Fonte, 2018 (Maria de Fátima Martins)

21/02/19

As Estações da Vida - Agustina Bessa-Luís



" A viagem de comboio tinha um cunho espirituoso. Sempre se encontravam pessoas raras, porque a província preservava o indivíduo e conservava o seu dialecto e os seus costumes. eram recoveiras, caixeiros viajantes, gente de negócio e do contrabando, estudantes em férias ou que as tinham terminado, padres e professores; e um sem-número de passageiros precavidos com um farnel de pombos estufados em vinho tinto do Porto e cavacas de Resende. Comida de gente regalada e antiga como havia na província profunda."

17/02/19

Pedro Barroso


06/02/19

Carta flutuante


Levantei-me sobressaltada, algo me acordou, o quê não sei, talvez o vento ou algum galho esquecido nos troncos das árvores. Fui à janela, a noite estava escura e aqueles troncos não eram árvores, mas sim pequenas falésias. Estranho, pensei! Vejo quatro elevações que não me parecem terrenas. Estarei a sonhar? Esfreguei os olhos, fixei o olhar, voltei a aproximar-me da janela, estavam lá. Fui investigar e no meio da minha incredibilidade e distração nocturna saí descalça. O chão era branco e fofo como neve, mas que coisa ridícula, não era frio.  Fui caminhando e enterrando os pés fazendo com que se vissem maiores do que na realidade seriam. Com passadas grandes, fui andando, uma, duas, três, quatro e as sombras deram lugar a passos e pés luminosos que iam avançando paralelos bem definidos, subindo em arco sem pressa em direcção a outras sombras, que entretanto se formavam e bailavam como se fossem pernas animadas ou animais de floresta. E foi quando sem medo acordei, porque na realidade era uma carta flutuante num sonho que não consegui até hoje interpretar.

Celestino

Celestino, anda ali para os lados da Boavista. No início era apenas uma pessoa que  ajudava a estacionar. Braço para um lado, aceno de mão e de cabeça para o outro, dava os bons dias. Era como se estivesse a passar o tempo, ocupando-se com tarefas úteis e ligeiras.
Homem de estatura pequena, rosto marcado pela vida mas afável mantinha a barba feita, tinha um  aspecto cuidado, falava com quem ali parava. Foi estabelecendo conversa de ocasião. Até que, numa dessas manhãs, ganhou coragem e apresentou o que verdadeiramente o aflligia. A família, a doença, o preço dos medicamentos. A saúde a bem dizer.
Foi o primeiro pedido de  ajuda.  Medicamentos com a justificação  familiar, porque uma ajuda é sempre valiosa, disse Celestino.  Mais tarde, vieram outras queixas. Uma vez a coluna que estava assim assim ou a perna fruto duma cirurgia azarenta.  E Celestino,homem de cara rude, cabelo escuro e roupa emprestada foi passando a acompanhar outros arrumadores que nada tendo para arrumar, se voltaram para os estacionamentos.
E a pouco e pouco, a tosse e o cigarro passou a acompanhar o aceno de braço de Celestino, enquanto imitava os colegas recém chegados.
Hoje, Celestino chegou mais perto, na lapela do casaco pousava o crachá - Celestino B. arrumador autorizado, fotografia e identificação oficial. Olhei-o com curiosidade, o rosto já não vê uma lâmina há muito, bem como os seus olhos que perderam luz. O rosto duro e enrugado  já não tem família à espera e Celestino também já não estaciona carros. Celestino espera apenas, arrumar uma moeda.

16/03/18

Os ciclos de um episódio

"O que mais nos assusta é ser silenciosa, dificilmente visualizamos um futuro menos brilhante ou uma pele menos rosada, raramente encontramos definição para o momento em que o espelho nos diz que afinal era verdade, estamos doentes e não há blush que esconda o ar macilento. Mesmo nos dias que antecedem o primeiro ciclo continuamos a não ver ninguém doente. Quem está à nossa volta também não vê e o sonho não quer acreditar. Mas é assim que tudo acontece e o silêncio com que as células circulam é de alta velocidade. Um pesado contrassenso e um medo absurdamente real!
Do primeiro round saí convencida que outras coisas poderão ser piores. Vamos, eu e os que me rodeiam, caminhar para o segundo com a esperança do primeiro e duma espécie de sintomas de gravidez tardia e enjoada. (GJ, 23/01/2010)"

......e uns tempos depois, vieram estas minhas palavras, sem data.

"O texto acima foi escrito uns dias antes de ter iniciado a quimioterapia e um mês depois de ter feito a cirurgia. A tónica estava no medo e na incredibilidade de poder estar doente. Os dias que se passaram desde então, foram meus companheiros de jornada, dado que muitos momentos foram isolados por vontade e necessidade própria. Os sons deixam de ser importantes e o silêncio é o nosso melhor companheiro. No passado raramente falava no plural, hoje, sinto que faço parte de uma comunidade de doentes oncológicos que se reconhecem e sabem que podem contar uns com os outros. Estou certa que um dia, mesmo que reconhecidamente curada, não deixarei de me lembrar dessa corrente humana que um dia por locais iguais passou. A reflexão é um dos elementos com maior peso no conjunto das variáveis, uma segmentação perfeita dos portadores de doenças tecnicamente curáveis e ansiosamente prováveis."(GJ)

.....E hoje, ao rever o que por aqui andei a escrever e num ímpeto de deitar fora, gosto de acrescentar que sim, é verdade, não nos esquecemos das pessoas que estiveram doentes como nós, que conversaram e partilharam as suas fraquezas, daqueles que nos ensinaram a olhar a vida e os outros de forma diferente, a aprender com gente mais nova, com gente que às tantas já cá não está, mas que  um dia ficaram em nós. Foi há oito anos.