19/11/18

Celestino

Celestino, anda ali para os lados da Boavista. No início era apenas uma pessoa que  ajudava a estacionar. Braço para um lado, aceno de mão e de cabeça para o outro, dava os bons dias. Era como se estivesse a passar o tempo. Barba feita e aspecto cuidado falava com quem ali parava e foi estabelecendo conversa de ocasião. Primeiro, foi o pedido de  ajuda para os medicamentos com a justificação  familiar. De vez em quando era a coluna, achava-se assim assim. Hoje, Celestino chegou mais perto, na lapela do casaco pousava o crachá - Celestino B. arrumador autorizado, fotografia e identificação oficial. Mas Celestino já não estaciona carros, Celestino espera arrumar uma moeda.

16/03/18

Os ciclos de um episódio

"O que mais nos assusta é ser silenciosa, dificilmente visualizamos um futuro menos brilhante ou uma pele menos rosada, raramente encontramos definição para o momento em que o espelho nos diz que afinal era verdade, estamos doentes e não há blush que esconda o ar macilento. Mesmo nos dias que antecedem o primeiro ciclo continuamos a não ver ninguém doente. Quem está à nossa volta também não vê e o sonho não quer acreditar. Mas é assim que tudo acontece e o silêncio com que as células circulam é de alta velocidade. Um pesado contrassenso e um medo absurdamente real!
Do primeiro round saí convencida que outras coisas poderão ser piores. Vamos, eu e os que me rodeiam, caminhar para o segundo com a esperança do primeiro e duma espécie de sintomas de gravidez tardia e enjoada. (GJ, 23/01/2010)"

......e uns tempos depois, vieram estas minhas palavras, sem data.

"O texto acima foi escrito uns dias antes de ter iniciado a quimioterapia e um mês depois de ter feito a cirurgia. A tónica estava no medo e na incredibilidade de poder estar doente. Os dias que se passaram desde então, foram meus companheiros de jornada, dado que muitos momentos foram isolados por vontade e necessidade própria. Os sons deixam de ser importantes e o silêncio é o nosso melhor companheiro. No passado raramente falava no plural, hoje, sinto que faço parte de uma comunidade de doentes oncológicos que se reconhecem e sabem que podem contar uns com os outros. Estou certa que um dia, mesmo que reconhecidamente curada, não deixarei de me lembrar dessa corrente humana que um dia por locais iguais passou. A reflexão é um dos elementos com maior peso no conjunto das variáveis, uma segmentação perfeita dos portadores de doenças tecnicamente curáveis e ansiosamente prováveis."(GJ)

.....E hoje, ao rever o que por aqui andei a escrever e num ímpeto de deitar fora, gosto de acrescentar que sim, é verdade, não nos esquecemos das pessoas que estiveram doentes como nós, que conversaram e partilharam as suas fraquezas, daqueles que nos ensinaram a olhar a vida e os outros de forma diferente, a aprender com gente mais nova, com gente que às tantas já cá não está, mas que  um dia ficaram em nós. Foi há oito anos.

15/03/18

Histórias do quotidiano

Ainda não era o tempo dos alternativos e o táxi era lento, continuava devagar pelas ruas que amanheciam rápido. os vidros embaciados reflectiam que tinha estado parado algumas horas e que o dia de trabalho havia começado cedo, por volta das 5 da manhã.
O carro está frio, disse ela. Eu tenho aquecimento, disse ele, vou abrir um bocadinho para lhe dar calor nos pés. O vidro está embaciado porque  não o limpei por dentro. Não conhece o truque? continuou o homem, é fácil. Limpa os vidros por fora com shampoo e passa o pano do lado de dentro. Vai ver que nunca mais tem problemas, não fica turvo, não embacia, pode chover o dia todo! Já o aquecimento interior não é necessário, só um bocadinho para as clientes aquecerem os pés.
A senhora tem pressa? Vai fazer o exame  lá no hospital? temos tempo.
Olhe outra vez a atravessarem na passadeira. Se fosse um particular, quem sabe desses que um dia hão-de vir para cá dar cabo do nosso trabalho, paravam. Como é táxi atravessam. Eu já os conheço, ando nisto há 48 anos, sabe, já tenho 72 anos. Está a ver, conheço-os todos!
Vai fazer o exame? temos tempo.
eles ainda nem abriram, gente dos hospitais. O Costa é que sabia, andei com ele na tropa.Um dia, o meu médico disse-me eh pá, vai ao Costa que ele sabe daquilo. Depois, mostrei-lhe o exame, sabe o que ele disse? Isto é que é um exame bem feito, vê-se tudo. O Costa sabia daquilo, sim senhor!
Olhe já chegamos, prontinho, já posso desligar o aquecimento, tem tempo.
(encontrada nos cantos da memória de uma mala esquecida no tempo)

20/04/17

Por outro lado

Leio nas Crónicas do Rochedo que se alugam camas em Lisboa em prol do capitalismo. Interessante! Mas será que devemos atribuir ao capitalismo a culpa duma situação dos tempos? Antigamente usávamos a expressão desenfreado para designar as situações que nos pareciam menos cómodas e mais óbvias da precariedade social. Hoje Lisboa ou Londres com soluções para o imediatismo conturbado dum social a necessitar de ordem ou apenas sinais de uma Europa muito igual na sua desigualdade? Soluções e reflexões, à parte, não chega analisar situações. Fazedores ou seguidores?

Soluções e reflexões

Dedilhando no teclado, deparei-me com uma página da BBC Scotland, sobre solidariedade e formas de apoio social. Jovens que pensam soluções para combater a solidão. Cerca de 83% dos jovens entre os 18 e os 34 anos dizem-se sozinhos em cidades como Londres. Uma das soluções apresentadas é a partilha de apartamento, combatendo a solidão e permitindo partilhar os custos. Não se vê nada de novo ou especial nesta proposta, mas chamou-me a atenção o facto de andarmos a promover a independência de jovens, que na ânsia de saírem de casa para se tornarem adultos, viverem experiências diferentes, ou partilharem interesses sem fronteiras, se tornam seres inseguros e mal preparados para enfrentar dissabores e dificuldades, nomeadamente a solidão. Aprender a viver consigo próprio antes de tempo não parece estar a dar os resultados esperados. Pertenço à geração que fruto da nossa vontade lutou contra regras e ordens pré-estabelecidas, educou filhos em liberdade e hoje verificamos que, afinal estes jovens precisam de abraços e cercas para se reequilibrarem. 
No mínimo, devemos refletir.

23/10/16

25/07/16

O homem e o cão: two of a kind




Todas as manhãs, o homem moreno, alto, esguio e o seu cão preto magro e sério passeiam. Ele  corre e o cão acompanha. Não se desligam do seu percurso. Não olham para ninguém, correm, fixam o ponto de chegada e deixam o ponto de partida. É um homem bonito, enigmático, conhecido daqueles trilhos. Quem é? Ninguém sabe. Durante meses, o homem desapareceu. Onde estará, quem será?
Apareceu há dias, diferente! O cabelo está comprido, veio menos moreno e não corre, caminha, brinca e fica sentado num daqueles bancos de descanso. Contempla. O cão está mais gordo Perdeu parte da graça que tinha, porventura está mais simpático, os caracóis negros caem-lhe sobre os olhos. Perde-se em conversas com uma jovem dona de um cão. Está mais vulgar e normal, menos interessante, sem mistério. Deixou de ser o mais belo, é apenas mais um homem perdido de amores, deixou que a transformação se fizesse. Enquanto o sol nasce e desaparece vejo-os estender as mãos e deixar que os  cães corram. Partilham o que a natureza oferece, seguem caminho e desaparecem nos trilhos da vegetação. Quem são? o que fazem? Ninguém sabe! E os cães? Ah, esses correm atrás um do outro.