14/04/26

Em jeito de tango e de László

Pouco havia para contar nada se esperava e ao mesmo tempo tudo podia acontecer. Os olhos do homem habituados pela frincha das tábuas absorviam os movimentos da vaca e da noite. Não havia espectativa para além do que já conhecia e no entanto, talvez esta noite fosse diferente (se os outros não vierem, tudo muda) provavelmente não faria diferença tentar dormir apesar da chuva ou do barulho da vaca. Ao mesmo tempo pensou que era estranho as vacas insistirem em fazer ruídos àquela hora e também não tinha a certeza se os outros tinham combinado trazer os animais para venda ou abate. Talvez fosse para o dia seguinte, ele já não se lembrava do que tinham acordado, hoje ou amanhã seria igual, embora tivesse de tomar uma decisão ou hoje ou amanhã (a vaca vendida pelo preço miserável que os outros queriam ou não?). Olhou pela frincha e a vaca continuava no mesmo lugar, olhou pela frincha do lado viu luz no tasco, ainda não tinha começado a música do velho acordeão, ouvia copos ou talvez fossem malgas de barro. O tipo do tasco nem as lavava, os velhos e os novos não faziam diferença (querem lá saber da higiene num lugar porco e da cor da terra). Amanhã talvez passe por lá, hoje está demasiado escuro para voltar bêbado. Naquele lugar a podridão mantinha-se num parar sem tempo e no tempo, a maioria dos homens tinha partido para o estrangeiro e as mulheres novas para a cidade, as velhas e as crianças sem remédio à guarda das avós. Homens desdentados, vesgos e sujos sentados nas portas e nos degraus da igreja, o padre igualmente velho a chamar os poucos para a missa e as mulheres à confissão, os poucos que restavam iam por não terem mais nada para fazer ao domingo, à semana também não, mas pelo menos iam para o tasco que não fechava por vontade das patroas, pelo menos não tinham os homens em casa (em casa os homens a chatear). Ele ouviu os outros a chegar (os outros vieram) e espreitou devagar para não ser surpreendido, tinha de ir buscar a vaca, tinha de ir com eles naquela noite. Não tinha ninguém, estava sozinho há anos, só ele e a vaca. Ele e a vaca. Decidiu que não a vendia, a vaca não ia querer, ele não ia querer, os dois não queriam, ele e a vaca. Os outros queriam levar a vaca, mas ele não queria e a vaca também não ia. A noite parada, chuva, na tasca os outros, ele ouvia-os. O tempo estava igual, ele devia ir ter com os outros, mas hoje não levava a vaca, ia só beber um, ou dois, ou três, ou os que fossem necessários para se emborrachar, porque havia pouco para contar, hoje não, hoje os passos eram seis para a frente e seis para trás como no tango (que sabia ele de tango, valha-nos as alminhas). Tudo no mesmo lugar, ele, os outros, o tasco, o sítio, a frincha e a vaca, mas amanhã era outra música voltaria a pensar no assunto da venda ou do abate, hoje não, amanhã sim. Hoje era o baile, saiu e entrou no tasco, a música do velho ia alto e bom som, sempre os mesmos acordes, alguns tinham começado a dançar, cinco homens disputando uma mulher, coitada dela, sujinha e cabelo como um ninho de ratos, olhos gulosos de quem não tem escolha, chegou outra a da venda perto da estrada. Uns e outros a girar, botas de borracha, saias rodadas, calças sem cinto, homens esbraguilhados naqueles corpos suados, bocas a tresandar a vinho rasca e a música rodopiando. No meio daquilo o António Caroço a pensar na vaca que tinha ficado sozinha, hoje não, amanhã sim, outro dia e pouco havia para contar.

Sem comentários: