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17/06/10

Geração 700

Estaremos assim tão distantes da geração 700, e seremos tão diferentes dos gregos como alguns querem acreditar? Não me parece. Sofremos dos mesmos males, temos jovens com excesso de cursos e empregos a menos, temos jovens a viver em casa dos pais até idades tardias e a custos não recompensados, temos trabalhadores que se debatem com reformas que provavelmente nunca receberão, temos salários para recém-licenciados que se encontram a valores idênticos e temos uma geração que não acredita que é capaz de viver sem o estado providência. A geração 700, assim designada pelo valor do salário do recém-licenciado tem muitas vezes vários graus académicos, mas não tem perspectivas de empreendedorismo. Tem medo de lutar em ambiente desconhecido e no entanto, é detentora de cursos e diplomas que supostamente lhe ensinaram a criar o seu próprio emprego, é sabedora de métodos de gestão que deveriam incentivar e motivar quem procura emprego. Em Portugal tal como na Grécia os jovens querem emprego, mas ninguém lhes ensinou que era necessário querer entrar no mercado de trabalho. Para quem esteve habituado a viver em casa dos pais até tarde, a ter tudo aquilo que queria e a estudar não o que devia mas o que lhe parecia ser a moda, não tem grande capacidade para fazer face às dificuldades. Os jovens não estão habituados a fazer sacrifícios e os pais também não os deixam fazer. Vivemos hoje "ensandwichados" entre a geração que tudo pensou para os que haveriam de vir e aquela que não faz a mínima ideia de como aqui chegou. E a conclusão é que esta é uma cultura instalada seja aqui, ou na Grécia, ou em Espanha ou em Itália ou, eu diria, em todos os pontos da Europa remediada.

09/11/08

Uma questão de cor

"Obama não tem cor", é uma frase que tenho vindo a dizer desde o momento que li e penso que entendi a mensagem : "The Audacity of Hope". Tenho-a repetido em vários círculos. Obama é preto, respondem-me. Também me assinalam que Obama é afro americano ou que Obama é mestiço ou muçulmano. E daí que nunca poderia ser Presidente do que quer que fosse na América branca e conservadora onde a tradição não permite que as culturas se misturem. Uma tradição cultural em que as pessoas convivem mas vivem em áreas bem identificáveis, como a comunidade africana, a hispânica, a homossexual, a "mormon", a latina e por aí fora.
Tenho tentado explicar que apesar da cor da pele ser de várias cores, as pessoas só têm cor por questões de discriminação. Um branco em África é discriminado ou apontado por facilidade de compreensão. É mais fácil dizer aquele branco do que aquele com as calças amarelas ou aquela com a blusa azul, coisa que os brancos fariam se quisessem identificar alguém. No mesmo sentido, se estivermos numa comunidade em que a maioria é branca, claro que é mais fácil identificar o preto ou o asiático ou o muçulmano e mais uma vez, apenas pela discriminação. Quando há dias me referi a Obama como moreno alguém disse, que continuávamos a ter medo de chamar as coisas pelos nomes. A questão fundamental está em que só as minorias são identificáveis e a maioria tem um medo danado de as ver crescer. Para a maioria a existência de uma minoria dá-lhe um conforto de superioridade que a outro grupo não tem. Por isso, no meu conceito, Obama só voltará a ter cor sem que isso tenha importância, quando livremente todos pudermos dizer que esta ou aquela pessoa ou este ou aquele grupo, são os vestidos de amarelo ou de verde, mais altos ou mais baixos, de cabelo cumprido ou curto, ondulado ou liso, preto ou branco, louro ou moreno, seja ele africano, hispânico, asiático, muçulmano ou outra coisa qualquer.
E nesse sentido, nada voltará a ser igual com a vitória dum preto para a Casa Branca. Maior ironia não podia ser imaginada quando o nome foi atribuído, impensável dirão muitos. A partir de agora será mais difícil ter de justificar as minorias culturais depois da própria América ter sido arrebatada pela vitória da cor.