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15/07/10

Silêncios

Cada vez aprecio mais o silêncio. Da casa, das ruas, do mar, dos rios, do mundo poluído de sons. Só não gosto do silêncio das pessoas e dos povos. Estaremos todos adormecidos ou é coisa de Verão?

Silêncio

Já o silêncio não é de oiro: é de cristal;
redoma de cristal este silêncio imposto.
Que lívido museu! Velado, sepulcral.
Ai de quem se atrever a mostrar bem o rosto!

Um hálito de medo embaciando o vidrado
dá-nos um estranho ar de fantasmas ou fetos.
Na silente armadura, e sobre si fechado,
ninguém sonha sequer sonhar sonhos completos.

Tão mal consegue o luar insinuar-se em nós
que a própria voz do mar segue o risco de um disco...
Não cessa de tocar; não cessa a sua voz.
Mas já ninguém pretende exp'rimentar-lhe o risco!

(David Mourão-Ferreira, in "Tempestade de Verão)