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23/12/08

O meu Natal

Já começaram a chegar. A primeira foi a que veio do frio, a londrina. Chegou linda e radiante, com saudades da família e dos amigos e a tagarelar sobre os novos colegas, sobre a Universidade e as diferenças culturais. A vizinhança já deu conta, pelo barulho e pela cantoria. A seguir a joaninha que voou de Madrid airosa e a palavrear castelhano, a contar histórias de colegas e chefias e a rir. As raparigas são sempre uma algazarra, roupa, pinturas, cabelos, discussões e gargalhadas animarão os próximos dias. Pelo caminho chegarão mais calmos os rapazes. O mais velho adoptou o estilo gravata ao lado, sério e compenetrado, sorriso nos lábios de quem espera a primeira filha, vaidoso com as suas princesas. Pelo caminho esquece-se e fica menino traquina a dizer disparates e a pedir gelado de chocolate. E o senhor que se segue com os seus caracóis que insistem em continuar rebeldes, aparece com o seu assobio característico herdado do avô. É uma forma de dizer, eu continuo aqui em casa. Mais tarde virá o resto da família e quando nos sentarmos à mesa será uma festa. Mas antes, teremos passado algumas horas de roda das rabanadas, do arroz doce e da aletria, dos sonhos, do bacalhau e do peru, enquanto o dono da casa pergunta se é preciso ajuda, sabendo que será apreciada a sua distância dos tachos. A ele está destinado o heróico prazer de ser mimado com a presença dos seus rebentos, da sua família, da árvore que construiu.
Em criança cabia-me fazer a árvore com o meu pai e com ele pôr a mesa nos dias de festa. Hoje, a tradição mantém-se sendo agora um dos meus filhos que me acompanha nessa segunda arte.
Meu pai dizia, "minha filha, a mesa é sagrada e devemos partilhar o que temos e aproveitar o momento com o nosso melhor requinte". E minha mãe, fazia com que tudo parecesse fácil e requintado.
E é isso, que eu continuo a fazer, meu pai, minha mãe, meu legado.