Se para o doente lidar com o cancro carece de aprendizagem, para o cônjuge não é melhor. Eu diria até, que em certos momentos é pior. Para o doente a expectativa é temporária, a pessoa está sujeita a tratamentos durante um determinado tempo, a esperança é infinita e a força imensa. A pessoa doente ao contrário do cônjuge nunca faz lutos, mesmo que a imagem seja uma pequena visão do que fisicamente é. O fenómeno é igual ao do envelhecimento interior. Ele nunca existe se nós formos pessoas mentalmente saudáveis e de bem connosco. A imagem pode ter rugas e cabelos diferentes, mas o interior mantém-se com vinte anos. Com a doença pode ser igual, estamos doentes, sentimo-nos fracos mas não deixamos que os outros nos tratem como tal, por isso lutamos para que nos vejam como efectivamente sabemos que voltaremos a estar e a ser. O cônjuge passa por muitos sentimentos e vive muitos estados de alma. Ele tem de fazer o luto da pessoa saudável, aprender a viver com a pessoa doente e compreender a doença. Depois tem de aprender a fazer o luto da pessoa doente e a reaceitar aquela que ainda há pouco tinha sido alvo do luto. E tudo isto no espaço de meses e acreditando que o pesadelo passou e não volta. Não é fácil, porque na verdade o pesadelo pode voltar e os dois têm de acreditar na racionalidade do tratamento e ter fé na remissão da doença. E acima de tudo têm de acreditar no futuro e aceitar o presente; têm de reaprender a fazer planos e a acreditar no seu cumprimento. Têm de atirar a doença para lá e viver ora cá e ora lá, como no antigamente, como no antes de, sem medos e sem rede.
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22/05/10
O cônjuge
Se para o doente lidar com o cancro carece de aprendizagem, para o cônjuge não é melhor. Eu diria até, que em certos momentos é pior. Para o doente a expectativa é temporária, a pessoa está sujeita a tratamentos durante um determinado tempo, a esperança é infinita e a força imensa. A pessoa doente ao contrário do cônjuge nunca faz lutos, mesmo que a imagem seja uma pequena visão do que fisicamente é. O fenómeno é igual ao do envelhecimento interior. Ele nunca existe se nós formos pessoas mentalmente saudáveis e de bem connosco. A imagem pode ter rugas e cabelos diferentes, mas o interior mantém-se com vinte anos. Com a doença pode ser igual, estamos doentes, sentimo-nos fracos mas não deixamos que os outros nos tratem como tal, por isso lutamos para que nos vejam como efectivamente sabemos que voltaremos a estar e a ser. O cônjuge passa por muitos sentimentos e vive muitos estados de alma. Ele tem de fazer o luto da pessoa saudável, aprender a viver com a pessoa doente e compreender a doença. Depois tem de aprender a fazer o luto da pessoa doente e a reaceitar aquela que ainda há pouco tinha sido alvo do luto. E tudo isto no espaço de meses e acreditando que o pesadelo passou e não volta. Não é fácil, porque na verdade o pesadelo pode voltar e os dois têm de acreditar na racionalidade do tratamento e ter fé na remissão da doença. E acima de tudo têm de acreditar no futuro e aceitar o presente; têm de reaprender a fazer planos e a acreditar no seu cumprimento. Têm de atirar a doença para lá e viver ora cá e ora lá, como no antigamente, como no antes de, sem medos e sem rede.
05/03/09
O género do casamento
Depois de uma vigília a favor da causa, continua hoje nos EUA o debate sobre a revisão da decisão do Tribunal Supremo da Califórnia sobre a aprovação do casamento homossexual. Este é um debate que tem dividido vários países, incluindo o nosso, e que muitos apontam como uma questão cultural, incluindo os Estados Unidos. Esta questão que para alguns gera polémica incendiada e para outros não tem sequer lugar a dúvidas por ser um assunto de liberdade e igualdade, merece que lhe dedique mais atenção. Por hoje, terá direito a destaque de um comentário feito e lido nas notícias internacionais.“Let homosexuals get married. Big deal. Plus, why should only men and women go through the misery of divorce. Let a couple of alternatives go through it. After a while they will ban marriage themselves.”
Independentemente da opinião de cada um e de cada qual, a igualdade do casamento tem também este lado das competências, e provavelmente o comentador tem razão no que diz. Assim que tivermos todos os mesmos direitos e deveres independentemente da natureza do género, vêm igualmente a seguir e da forma mais tradicional possível, todas as consequências do acto. E aí poderíamos ver se o número de divórcios aumentaria, se os casais com filhos adoptados ou não seriam mais conservadores, se as maleitas tradicionalmente associadas ao casamento surgiriam com maior ou menor frequência, se a adopção é o assunto mais importante nesta discussão ou apenas mais um direito que faz parte do pacote a que se tem direito, se o número de casais homo crescia de forma tendencialmente superior que o dos casais hetero, se os filhos tinham ou não diferenças na aprendizagem, se a questão cultural é a natureza do desgaste. Ou seja, na verdade, poderíamos analisar se o conceito de família se destruía ou pelo contrário repunha princípios esquecidos e quais são os valores que determinam a natureza dos seres. Mesmo sabendo que a dimensão da amostra teria de ser significativa para podermos comparar, "e outras coisas sendo iguais", eu gostaria de poder fazer esta análise em tempo de vida.
30/01/09
Guga, menino amado!
O Guga faz hoje um ano e já começa a querer jogar com a bola que o pai, ferrenho portista do "fêcêpê" lhe comprou no dia em que ele nasceu. Eu até penso que o pai tendo a certeza que o filho iria gostar de futebol, há muito que já tinha guardada aquela bola assinada pelos jogadores da sua equipa. No dia em que o Guga nasceu, o pai refeito da proeza e do susto, fez duas coisas: registou-o na conservatória e inscreveu-o como sócio do FCP. Hoje deve receber as chuteiras porque o fato ele já tem. O Guga tem por outro lado uma mãe que tenta que o filho goste de flores e música e cheiro de hortelã. A música não tem problema porque o pai também é conhecedor nessas artes, agora as flores e o cheiro a hortelã deve ser mais difícil de aceitar. Ainda se fosse o cheiro da SuperBock... vá que não vá!O Guga é um menino muito amado, faz as delícias dos pais quando ri e o desespero dos mesmos quando chora. Tem umas belas bochechas e as mãos sapudinhas da mãe. Ao pai foi buscar os caracóis o que é uma injustiça para a mãe que gostaria de os ter, mas parece que é olho vivo para a justiça, o que é ainda pior sendo essa uma tragédia de família.
O Guga pertence ao grupo dos meninos que só nascem porque há mulheres que sabem esperar e contrariar as forças da natureza, mesmo com riscos de vida e também homens que as acompanham nessa jornada desgastante, mas com final feliz. O que ficou pelo caminho entre o melhor e pior já não interessa, porque essas são as variáveis que fazem parte do desejo de ser mãe e constituem os tais sacrifícios que os filhos nunca sabem. Uma mãe nunca conta tudo e costuma ser parca na informação sobre si mesma, e ainda bem que assim é, mesmo que eu própria, nunca tenha perguntado à minha coisas que hoje gostaria de saber. Também é verdade, que só nos vem este desejo um dia fora de horas. Talvez por isso, eu aconselho todos os filhos e filhas a pedirem às mães que lhes contem coisas da vida delas, enquanto é tempo. Porque tal como todas as pessoas, as mães não nasceram mães, elas foram meninas e adolescentes, elas foram pessoas com vida própria, mas isso foi há muito muito tempo. Parabéns ao Guga e aos pais!
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29/01/09
A passagem do tempo
Um dia destes fui avó! Pensava eu, que tinha esquecido muita coisa, o que é verdade, a primeira fralda mudada ficou de pernas para o ar, mas a memória rapidamente devolveu um conjunto de lembranças diferentes. Imagino que os sentimentos vêm depois, à medida que netos e avós se revelam mutuamente.Recebi o meu primeiro livro que uma querida amiga me enviou e que eu gostarei de
retribuir um dia, se possível. Dizem-me que uma nova mãe nascerá em mim, e não sei se será assim, se um neto é a extensão de um filho. De qualquer forma os filhos nunca permitem que deixemos de ser mães em permanência. As mães não têm tempo, as mães não renascem porque não morrem, elas são eternas. E esta constatação é muito boa mas também perigosa, porque nos responsabiliza, mesmo que à distância e por via indirecta, pelos actos ou acções que os nossos filhos e filhas, possam ter ou fazer, durante uma vida. E é também por isso, que a responsabilidade da educação, da protecção, ou da punição nunca termina. E para uma mãe, mesmo quando eles são adultos, a tarefa nunca está acabada, vai-se completando conforme as fases da vida dos seus rebentos. Uma mãe vive, mesmo que não queira, os desaires e as vitórias dos filhos, uma mãe perdoa para além de esquecer, e esquece o que não devia ter perdoado.Diz-se que a relação entre mães e filhas é mais conflituosa do que a relação entre mães e filhos. Tal apenas significa um conjunto de exigências e condescendências diferentes.
Para uma mãe é mais fácil educar rapazes. Se eles nos parecem mais brutos ou agressivos, mais não são que gente directa, se eles se manifestam básicos e por isso mais fáceis de antecipar, também resultam mais simples de por na ordem e de encaminhar. Pensamos nós, porque aquilo que nos facilita a vida na infância destes pequenos, é também o que menos deles gostamos enquanto homens em geral.
Já as raparigas são todo um conjunto de anseios, um turbilhão de questões e indecisões, fugidias, sempre a pensar uma coisa e a dizer outra, sempre a medir a causa - efeito. É por isso que as mães conhecendo melhor o que lhes vai na cabeça são mais duras e exigentes com as filhas e mais benevolentes com os seus "meninos". E as sogras, a quem se atribuíram as culpas ao longo dos anos, são simplesmente mães que adocicaram a vida ao rapaz e a azedaram à rapariga. A conclusão é que um homem raramente tem uma sogra e uma nora raramente tem um sogro. Uns e outros têm amigos que se compreendem.
Hoje em dia, estas relações tendem a ter um final diferente porque as mulheres aprenderam a ser mais básicas e os homens mais ansiosos. As sogras deixaram de ter o conceito de "malfeitoras" porque as mulheres se tornaram mais inteligentes e muitas vezes são elas as primeiras aliadas das mães dos seus netos. As mães têm filhas directas e de adopção, bem como amigas e amigos por opção. É que nos tempos que correm, a única certeza de continuarmos a ser avós o tempo todo é termos uma boa amizade com os filhos e as filhas dos dois lados. Já agora, a Francisca faz hoje um mês!
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23/12/08
O meu Natal
Já começaram a chegar. A primeira foi a que veio do frio, a londrina. Chegou linda e radiante, com saudades da família e dos amigos e a tagarelar sobre os novos colegas, sobre a Universidade e as diferenças culturais. A vizinhança já deu conta, pelo barulho e pela cantoria. A seguir a joaninha que voou de Madrid airosa e a palavrear castelhano, a contar histórias de colegas e chefias e a rir. As raparigas são sempre uma algazarra, roupa, pinturas, cabelos, discussões e gargalhadas animarão os próximos dias. Pelo caminho chegarão mais calmos os rapazes. O mais velho adoptou o estilo gravata ao lado, sério e compenetrado, sorriso nos lábios de quem espera a primeira filha, vaidoso com as suas princesas. Pelo caminho esquece-se e fica menino traquina a dizer disparates e a pedir gelado de chocolate. E o senhor que se segue com os seus caracóis que insistem em continuar rebeldes, aparece com o seu assobio característico herdado do avô. É uma forma de dizer, eu continuo aqui em casa. Mais tarde virá o resto da família e quando nos sentarmos à mesa será uma festa. Mas antes, teremos passado algumas horas de roda das rabanadas, do arroz doce e da aletria, dos sonhos, do bacalhau e do peru, enquanto o dono da casa pergunta se é preciso ajuda, sabendo que será apreciada a sua distância dos tachos. A ele está destinado o heróico prazer de ser mimado com a presença dos seus rebentos, da sua família, da árvore que construiu.Em criança cabia-me fazer a árvore com o meu pai e com ele pôr a mesa nos dias de festa. Hoje, a tradição mantém-se sendo agora um dos meus filhos que me acompanha nessa segunda arte.
Meu pai dizia, "minha filha, a mesa é sagrada e devemos partilhar o que temos e aproveitar o momento com o nosso melhor requinte". E minha mãe, fazia com que tudo parecesse fácil e requintado.
E é isso, que eu continuo a fazer, meu pai, minha mãe, meu legado.
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