Não gosto de gente rancorosa, que não é capaz de ultrapassar as menos verdades sofridas, porque mesmo que injustas são acontecimentos passados, que deveriam ter arrefecido com o tempo.
Não gosto de lutas que não compensam, que julgam e mal fazem, deixam mágoa no rosto e vontade de vingança no coração.
Serei comodista ou cinzenta? Serei pouco lutadora ou terei apenas chegado mais longe no meu pensamento e na minha visão do mundo?
Tenho mais certezas nas coisas básicas e menos nas subjectivas, não acordo com vontade de mudar o mundo, mas sim com o desejo de simplicidade, de justiça social, mais saúde para quem não a tem, menos pobreza para os Celestinos da minha terra.
Já não saio à rua para gritar, nem vou a manifestações, mas participo em causas nobres, garanto ajuda a muitos e não necessito de as publicitar. Por isso, repito, não gosto de gente vaidosa que não sabe dar sem pensar em receber.
28/10/19
27/09/19
Lamúrias de um velho amor
Olhas para mim com preguiça e nada fazes. Diariamente, os teus olhos pensam que tens de me fazer vibrar, passar os teus dedos em mim. Só que nada fazes, deixas para amanhã e eu sei que tudo não passa de vontades não cumpridas. Intenções!
E quanto isso, o que faço eu? Olho-te de forma penosa, sem vida, sem garra, sem toque. Estou triste e velho, prefiro que me chamem vintage. Tenho um preço elevado, tenho um valor inestimável, já vi e ouvi muitas gerações, já murmurei para muitos ouvintes, a minha voz já se fez ouvir ao longo de gerações.
Desde os tempos do teu bisavô. Lá nasci, lá fiquei até que me pararam por alturas do funeral, mais tarde acompanhei a tua avó e a tua mãe. Tu nasceste e eu dei-te as boas vindas e continuei no corredor até tu me resgatares e me colocares na tua sala.
Vejo o sol todas as manhãs, mas estou calado à espera que me toques para que eu possa badalar como sempre fiz. Dar horas é o meu vício e o meu empenho em não ser apenas um relógio de parede. Espero por ti todas as noites para uma vez por semana me alimentares e não deixares morrer a corda que ainda me resta.
Até amanhã, meu bem!
08/07/19
Para a Mariana, Muitos parabéns!
“Quando chega,
traz no olhar o brilho de quem sonha,
no rosto, a travessura dum sorriso,
na pele, o cheiro a Primavera,
nas mãos, a ternura do toque,
na voz, a doçura de um Cantar de Amigo,
no corpo, o desejo de um abraço,
na mente, a vontade de ficar.
...e parte.
Talvez um dia...”
In, “Há almas perfumadas...” Revista A Fonte, 2018 (Maria de Fátima
Martins)
21/02/19
As Estações da Vida - Agustina Bessa-Luís

06/02/19
Celestino
Celestino, anda ali para os lados da Boavista. No início era apenas uma pessoa que ajudava a estacionar. Braço para um lado, aceno de mão e de cabeça para o outro, dava os bons dias. Era como se estivesse a passar o tempo, ocupando-se com tarefas úteis e ligeiras.
Homem de estatura pequena, rosto marcado pela vida mas afável mantinha a barba feita, tinha um aspecto cuidado, falava com quem ali parava. Foi estabelecendo conversa de ocasião. Até que, numa dessas manhãs, ganhou coragem e apresentou o que verdadeiramente o aflligia. A família, a doença, o preço dos medicamentos. A saúde a bem dizer.
Foi o primeiro pedido de ajuda. Medicamentos com a justificação familiar, porque uma ajuda é sempre valiosa, disse Celestino. Mais tarde, vieram outras queixas. Uma vez a coluna que estava assim assim ou a perna fruto duma cirurgia azarenta. E Celestino,homem de cara rude, cabelo escuro e roupa emprestada foi passando a acompanhar outros arrumadores que nada tendo para arrumar, se voltaram para os estacionamentos.
E a pouco e pouco, a tosse e o cigarro passou a acompanhar o aceno de braço de Celestino, enquanto imitava os colegas recém chegados.
Hoje, Celestino chegou mais perto, na lapela do casaco pousava o crachá - Celestino B. arrumador autorizado, fotografia e identificação oficial. Olhei-o com curiosidade, o rosto já não vê uma lâmina há muito, bem como os seus olhos que perderam luz. O rosto duro e enrugado já não tem família à espera e Celestino também já não estaciona carros. Celestino espera apenas, arrumar uma moeda.
16/03/18
Os ciclos de um episódio
"O que mais nos assusta é ser silenciosa, dificilmente visualizamos um futuro menos brilhante ou uma pele menos rosada, raramente encontramos definição para o momento em que o espelho nos diz que afinal era verdade, estamos doentes e não há blush que esconda o ar macilento. Mesmo nos dias que antecedem o primeiro ciclo continuamos a não ver ninguém doente. Quem está à nossa volta também não vê e o sonho não quer acreditar. Mas é assim que tudo acontece e o silêncio com que as células circulam é de alta velocidade. Um pesado contrassenso e um medo absurdamente real!
Do primeiro round saí convencida que outras coisas poderão ser piores. Vamos, eu e os que me rodeiam, caminhar para o segundo com a esperança do primeiro e duma espécie de sintomas de gravidez tardia e enjoada. (GJ, 23/01/2010)"......e uns tempos depois, vieram estas minhas palavras, sem data.
"O texto acima foi escrito uns dias antes de ter iniciado a quimioterapia e um mês depois de ter feito a cirurgia. A tónica estava no medo e na incredibilidade de poder estar doente. Os dias que se passaram desde então, foram meus companheiros de jornada, dado que muitos momentos foram isolados por vontade e necessidade própria. Os sons deixam de ser importantes e o silêncio é o nosso melhor companheiro. No passado raramente falava no plural, hoje, sinto que faço parte de uma comunidade de doentes oncológicos que se reconhecem e sabem que podem contar uns com os outros. Estou certa que um dia, mesmo que reconhecidamente curada, não deixarei de me lembrar dessa corrente humana que um dia por locais iguais passou. A reflexão é um dos elementos com maior peso no conjunto das variáveis, uma segmentação perfeita dos portadores de doenças tecnicamente curáveis e ansiosamente prováveis."(GJ)
.....E hoje, ao rever o que por aqui andei a escrever e num ímpeto de deitar fora, gosto de acrescentar que sim, é verdade, não nos esquecemos das pessoas que estiveram doentes como nós, que conversaram e partilharam as suas fraquezas, daqueles que nos ensinaram a olhar a vida e os outros de forma diferente, a aprender com gente mais nova, com gente que às tantas já cá não está, mas que um dia ficaram em nós. Foi há oito anos.
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grandejoia e companhia
15/03/18
Histórias do quotidiano
Ainda não era o tempo dos alternativos e o táxi era lento, continuava devagar pelas ruas que amanheciam rápido. os vidros embaciados reflectiam que tinha estado parado algumas horas e que o dia de trabalho havia começado cedo, por volta das 5 da manhã.
O carro está frio, disse ela. Eu tenho aquecimento, disse ele, vou abrir um bocadinho para lhe dar calor nos pés. O vidro está embaciado porque não o limpei por dentro. Não conhece o truque? continuou o homem, é fácil. Limpa os vidros por fora com shampoo e passa o pano do lado de dentro. Vai ver que nunca mais tem problemas, não fica turvo, não embacia, pode chover o dia todo! Já o aquecimento interior não é necessário, só um bocadinho para as clientes aquecerem os pés.
A senhora tem pressa? Vai fazer o exame lá no hospital? temos tempo.
Olhe outra vez a atravessarem na passadeira. Se fosse um particular, quem sabe desses que um dia hão-de vir para cá dar cabo do nosso trabalho, paravam. Como é táxi atravessam. Eu já os conheço, ando nisto há 48 anos, sabe, já tenho 72 anos. Está a ver, conheço-os todos!
Vai fazer o exame? temos tempo.
eles ainda nem abriram, gente dos hospitais. O Costa é que sabia, andei com ele na tropa.Um dia, o meu médico disse-me eh pá, vai ao Costa que ele sabe daquilo. Depois, mostrei-lhe o exame, sabe o que ele disse? Isto é que é um exame bem feito, vê-se tudo. O Costa sabia daquilo, sim senhor!
Olhe já chegamos, prontinho, já posso desligar o aquecimento, tem tempo.
(encontrada nos cantos da memória de uma mala esquecida no tempo)
O carro está frio, disse ela. Eu tenho aquecimento, disse ele, vou abrir um bocadinho para lhe dar calor nos pés. O vidro está embaciado porque não o limpei por dentro. Não conhece o truque? continuou o homem, é fácil. Limpa os vidros por fora com shampoo e passa o pano do lado de dentro. Vai ver que nunca mais tem problemas, não fica turvo, não embacia, pode chover o dia todo! Já o aquecimento interior não é necessário, só um bocadinho para as clientes aquecerem os pés.
A senhora tem pressa? Vai fazer o exame lá no hospital? temos tempo.
Olhe outra vez a atravessarem na passadeira. Se fosse um particular, quem sabe desses que um dia hão-de vir para cá dar cabo do nosso trabalho, paravam. Como é táxi atravessam. Eu já os conheço, ando nisto há 48 anos, sabe, já tenho 72 anos. Está a ver, conheço-os todos!
Vai fazer o exame? temos tempo.
eles ainda nem abriram, gente dos hospitais. O Costa é que sabia, andei com ele na tropa.Um dia, o meu médico disse-me eh pá, vai ao Costa que ele sabe daquilo. Depois, mostrei-lhe o exame, sabe o que ele disse? Isto é que é um exame bem feito, vê-se tudo. O Costa sabia daquilo, sim senhor!
Olhe já chegamos, prontinho, já posso desligar o aquecimento, tem tempo.
(encontrada nos cantos da memória de uma mala esquecida no tempo)
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