Tive, como a maioria dos portugueses, uma educação religiosa com todos os actos litúrgicos que o dever ou a fé assim o exigiam. Comecei pela Catequese, seguida da Primeira Comunhão, da Profissão de Fé, do Crisma e de vários retiros que basicamente serviam para encontros entre jovens da mesma idade supervisionados por um padre de preferência moderno e uns tantos leigos que serviam de ajudantes. Naquele tempo ir à Missa era um assunto sério para os mais velhos, pais e avós, e um divertimento para os mais novos. Não me parece que alguém pequeno fosse à Missa por fé mas apenas pelas cores, pelo cheiros, pela música e pelos rituais revestidos de misticismo.Assim, desafinei no coro da Igreja, tive namorados, fiz escapadelas ao Cinema Império e amizades que ainda hoje mantenho. Conheci gente que passava por casa dos meus pais como Bruto da Costa ou Vassalo e Silva e aprendi que era importante olhar para as pessoas, aprender a gostar delas e dedicar-lhes algum tempo. Visitei hospitais e fiz companhia a gente idosa, participei em Vendas de Natal e ainda hoje tenho histórias para contar. Depois, havia outras coisas igualmente interessantes. Os sacerdotes que enchiam as Missas estão hoje quase todos casados, o que deverá querer dizer alguma coisa. Os grupos de intervenção e acção social considerados pouco recomendados para filhas de família, como a JOC (Juventude Operária Católica) estão dispersos o que também deve querer dizer bastante. O cerimonial religioso associado à Quaresma não atrai muita gente e a Missa de Domingo de Páscoa muito menos. Apesar de também eu ter deixado de aparecer, continuo a recordar com gosto as Igrejas vestidas a rigor, a Procissão do Senhor dos Passos e as varandas que se enchiam de colchas e ornamentos, significando respeito e recolhimento, paixão e redenção. Se era pela fé, pela tradição ou por obrigação não sei, mas tenho pena que não se continue a fazer esta paragem, tal como tenho pena que este tempo se tenha tornado, a exemplo de outros, apenas de guloseimas e sol e muito pouco de reflexão e compaixão.
