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10/04/09

Tempo de Quaresma

Tive, como a maioria dos portugueses, uma educação religiosa com todos os actos litúrgicos que o dever ou a fé assim o exigiam. Comecei pela Catequese, seguida da Primeira Comunhão, da Profissão de Fé, do Crisma e de vários retiros que basicamente serviam para encontros entre jovens da mesma idade supervisionados por um padre de preferência moderno e uns tantos leigos que serviam de ajudantes. Naquele tempo ir à Missa era um assunto sério para os mais velhos, pais e avós, e um divertimento para os mais novos. Não me parece que alguém pequeno fosse à Missa por fé mas apenas pelas cores, pelo cheiros, pela música e pelos rituais revestidos de misticismo.
Assim, desafinei no coro da Igreja, tive namorados, fiz escapadelas ao Cinema Império e amizades que ainda hoje mantenho. Conheci gente que passava por casa dos meus pais como Bruto da Costa ou Vassalo e Silva e aprendi que era importante olhar para as pessoas, aprender a gostar delas e dedicar-lhes algum tempo. Visitei hospitais e fiz companhia a gente idosa, participei em Vendas de Natal e ainda hoje tenho histórias para contar. Depois, havia outras coisas igualmente interessantes. Os sacerdotes que enchiam as Missas estão hoje quase todos casados, o que deverá querer dizer alguma coisa. Os grupos de intervenção e acção social considerados pouco recomendados para filhas de família, como a JOC (Juventude Operária Católica) estão dispersos o que também deve querer dizer bastante. O cerimonial religioso associado à Quaresma não atrai muita gente e a Missa de Domingo de Páscoa muito menos. Apesar de também eu ter deixado de aparecer, continuo a recordar com gosto as Igrejas vestidas a rigor, a Procissão do Senhor dos Passos e as varandas que se enchiam de colchas e ornamentos, significando respeito e recolhimento, paixão e redenção. Se era pela fé, pela tradição ou por obrigação não sei, mas tenho pena que não se continue a fazer esta paragem, tal como tenho pena que este tempo se tenha tornado, a exemplo de outros, apenas de guloseimas e sol e muito pouco de reflexão e compaixão.

13/11/08

Significado e importância do nome

Em África o nome de uma pessoa é composto pelos nomes próprios dos seus antepassados e pode até conter uma explicação sobre o significado do próprio nome. Os significados africanos contam histórias, aliás eles são histórias, porque essa tem sido a forma dos mais velhos poderem passar o legado aos próximos. Quem nasce tem uma vida pela frente com muitas vidas passadas para trás.
Por isso, eu penso que é uma tolice pretender dar hoje nomes pequenos a uma criança que nasce porque ela vai perder parte da sua identidade, que é composta pelos apelidos dos pais mas também dos seus avós maternos e paternos. Claro que para simplificar essa criança pode mais tarde usar na sua vida pessoal ou profissional os que entender, e que tanto pode ser o apelido do pai ou da mãe ou até de um avô. Ao pretender atribuir a um filho apenas um nome próprio e dois apelidos estamos a adulterar uma tradição de sabedoria milenar. Estando hoje as gerações mais novas cada vez mais longe do convívio com os seus familiares é talvez ainda mais importante continuar a ser "careta", "antiquado" ou "presunçoso" e, dar oportunidade a que um dia aquela pessoa que hoje nasce, queira amanhã saber um pouco mais da sua história presente e do seu passado longínquo.
Os povos ditos mais avançados há muito que têm um nome próprio e um ou dois apelidos, mas é também por isso que as festividades não têm significado, que os anos são esquecidos, que os acontecimentos de carácter familiar não têm importância e, acima de tudo é também por isso, que as Luxury Senior Residences representam um nicho de mercado muito apetecível e em expansão. Em Portugal, a tradição tende a chegar ao fim e a ser substituída pelos princípios dos países desenvolvidos e eu que tenho direito a achar, acho mal!