07/12/10

Qual é o espanto?

No país dos absurdos encontro tema para aqui voltar. Leio que Rui Pedro Soares e Emídio Rangel vão lançar um novo meio de comunicação, com capital aqui do lado. O accionista principal é um apoiante de Zapatero e seu conterrâneo. Nada mais se estranha neste país, e nem mesmo a chegada das eleições, muito a propósito, ou o processo dum deles impede a clareza das notícias que se propõem fazer. Não tenho dúvida que haverá leitores para tal periódico, não penso que seja mais um, será concerteza mais uma cambada deles que sentem necessidade de ter uma voz direccionada, mas pelo menos não enganam ninguém em relação à sua agenda política. Ficamos a saber quem paga e quem lê.

Por isso

Por mais que tente o espírito volta sempre ao mesma tema, por isso não tenho escrito. Tal como no período da gravidez, em que todas as mulheres nos parecem mais grávidas do que o costume, vivo hoje um tempo em que as histórias ligadas ao cancro me seduzem mais do que quaisquer outras. Por isso não tenho escrito, para não aborrecer quem me lê porque as coisas do cancro só interessam a quem o tem, teve ou o vive de perto. Para os outros caímos no risco de nos tornarmos uns chatos. Por isso continuo à procura do my new normal.

06/12/10

Olá, mais um ano

Êrnani Lopes

Gostava tanto de S. Martinho do Porto que escolheu o lugar para sua última morada. Todos os anos aí nos encontrávamos, "olá, mais um ano", dizia ele, naquele nosso cumprimento à beira-mar. Gostava de fazer uma caminhada até à duna de Salir, umas vezes caminhava sozinho, outras com a Isabel. Gostava de usar uma túnica branca sobre o calção de banho e o eterno chapéu. Andava com elegância no seu corpo esguio, mantendo o porte desenvolto pela sua excelente condição física.
No Verão a seguir à declaração da doença não deixou de aparecer mesmo que não pudesse andar com os netos na água e referia-se "a esta chatice do cancro que me apareceu" com a naturalidade de quem não permite que a doença se instale. Durante anos, desceu a rampa da rua dos cafés bem depois das onze da noite, com a Isabel pelo braço fazendo a pose de quem sabe que está bem e é admirado. A nossa conversa era de circunstância, uma opinião aqui e outra ali, sobre economia, sobre o país, mas sobretudo sobre a praia e o sol, mais recentemente quando me tornei avó, sobre os netos e S. Martinho de que tanto gostamos.
Este ano, fui eu que não o encontrei, não pude dizer-lhe "olá, mais um ano" e acrescentar, desta vez coube-me a mim ter esta chatice do cancro.

26/11/10

Porquê?

As primeiras neves caíram em Fribourg, na Suiça, cidade que aconchega a minha filha mais velha. Os pneus de neve substituiram os anteriores, as vacas que lhe faziam companhia do outro lado da janela, já tinham desaparecido há uns dias, os aquecimentos aumentaram dando calor durante o dia e conforto durante a noite. Os dias vão tornar-se mais enfadonhos e os fim-de-semana mais ensonados, mas isso ela ainda não sabe. Para já, o que a Sofia já sabe é que ou vai ao ginásio ou vai ao supermercado até às 4 da tarde, o que para quem estava habituada ao espírito madrileno lhe está a fazer uma reviravolta quotidiana. É assim, quem chega tem de se adaptar ao que encontra. Agora, pergunto eu, por que razão os jovens preferem sair do país tão jeitoso onde nascerem, com tanto sol, tanta gentileza e delicadeza na organização de eventos, tanta azeitona e bolota, com vinho e flores, com MAR e mercados sem fim? Será porque têm ambição e horizontes largos? Será porque têm espírito de aventura? Será porque nós pais da geração de 50 projectámos neles as nossas ambições e os preparámos para tal? Ou será esta nossa condição de eternos descobridores que a Diáspora nos concede e que nos torna em errantes passageiros?
Porque é isso que fazemos, chegamos adaptamo-nos, fazemos bem, gostamos do que temos e passado uns tempos, ficamos cheios, cansados, parados e desejosos de partir e recomeçar, de preferência noutro lugar. Porquê, quando olho para outros povos que se mantêm no mesmo lugar, partindo e regressando, apenas?

22/11/10

Pedro Beça Múrias

E quando um fica pelo caminho, lembramo-nos que pelo facto dos exames estarem bem não quer dizer que se esteja curado. Foi com pesar que li a notícia da morte do Pedro Beça Murias. Peguei no seu livro e reli algumas das suas crónicas na sala de espera. Afinal, a sala era mesmo de espera e não demorou muito a chegar o seu dia. Que reste em paz!

21/11/10

Produtos genuínos

Um país, cujo povo até há bem pouco tempo só se lembrava dos azulejos, do vinho do Porto e da panela de pressão como produtos identificativos e originalmente produzidos em Portugal, deve ter ficado eufórico com a portuguese lidership associada à cimeira e ao Bo.

13/11/10

Amor peregrino

Não foi fácil regressar mas aqui estou, as malas já estão desfeitas mas o pensamento ainda vagueia por outras bandas. É sempre assim quando partimos por tempo incerto, temos de redescobrir o que deixamos e reanimar o que ficou enquanto choramos o que deixámos. Encontro motivos para querer continuar mas falta de energia para quebrar o que deixei e pergunto-me se não é demasiada liberdade que tenho em mãos face a tantas outras pequenas realidades. Pergunto-me se não é demasiado alguém estar a fazer uma peregrinação por mim. Eu que apenas sou corpo e mente e um dia me transformarei em pó. E pergunto-me se valho tanto sacrifício, eu que felizmente me sinto bem, que acredito estar curada e que sou apenas uma pequeno grão no solo. Não é fácil aceitar e agradecer os sacrifícios de quem nos quer bem sem termos de os justificar ou questionar. Acima de tudo não há palavras, há actos e há amor.