Fui à Madeira pela primeira vez em 1976. O bilhete postal era exactamente o que a ilusão da viagem me tinha segredado. A ilha linda, as flores exóticas e bem cheirosas, os ramos grandes e vistosos, o preço elevado para o turista e para o local. Vi bananeiras pela primeira vez e os cachos à porta de qualquer habitante tanto no Funchal como noutro ponto da ilha. A gastronomia não tinha nada que enganar espada preto, espadarte e atum, milho frito, batata e semilha, abóbora, espetadas e papaia, pêra abacate, anonas, maracujá e demais frutos tropicais. Bolo de mel, bolo do caco, rebuçados de funcho e vinho afamado. Os bordados, os cestos e o artesanato. O centro do Funchal mantinha as caraterísticas dos edifícios antigos, o Jardim Botânico já era um orgulho, a tradição e a passagem dos ingleses era visível. A Estrada Monumental mostrava as piscinas naturais do Lido e a cidade tinha diversão nocturna para oferecer. As Desertas estavam ao longe e em dias bons avistava-se o Porto Santo. Para visitar a ilha era necessário tempo e curiosidade, coisa que não faltava a gente de vinte anos. Os transportes eram precários, as estradas uma lástima de perigo mas lindas de emoção e um suicídio para principiantes ao volante. Eram necessários pelo menos três dias para ver e visitar. O táxi acabava por ser o transporte mais eficiente e os taxistas eram novos, conheciam os lugares certos e mostravam o que deviam. Não senti que houvesse mais pobreza que aqui nas nossas aldeias, senti que havia maior atraso nas cidades e vilas e que a Madeira era o exemplo da casa de bonecas de Portugal Continental com um cheirinho a Ultramar exótico.Sucederam-se outras visitas e fui vendo o avanço funchalense e mais ou menos tudo igual em relação ao resto. As mesmas frutas, espetadas e bananeiras já do Alberto João. Algum melhoramento nas estradas e na saúde e muito desmoronamento nos hotéis, os mesmos pescadores e as mesmas aldeias.
Por lá devo ter deixado, quiçá em 76, ventos fortes que se estenderam pelo mar e algumas palavras que se abrigaram nas levadas. Há dias voltei numa missão diferente e juntei-me a uma comunidade que seguia o trilho da Igreja da Nossa Senhora da Nazaré. Gostei de ver uns jeans por debaixo duma batina, uns jovens com CD editado a cantar numa missa alegre e uma homilia que apelava ao espírito social e comunitário - "se quereis que as coisas boas vos aconteçam tendes de abrir a porta do vosso coração, caso contrário nicles!"- ao mesmo tempo que acolhia uma recém chegada àquela Casa.
Eu, que tinha andado com as népias, achei que este padre era castiço e que devia ser também por isso, que a ilha tem novas estradas e túneis poderosos que nos levam de lado a lado, como se estivéssemos em Itália, num ápice. Pelo caminho detive-me no Estreito que me conduziu pelas levadas de regresso ao Aeroporto com uma nova palavra. É que na Madeira, todas as frases incluem "um pedacinho" de qualquer coisa. Com o estômago ainda cheio de pedacinhos de iguarias e de um pedacinho de prazer por lá ter estado, cheguei convencida que "grão a grão enche a galinha o papo" e que o Alberto João tem sabido cuidar da sua capoeira.


Ingrid Bergman nasceu em Estocolmo, Suécia a 29 de Agosto de 1915. Morreu no mesmo dia em que nasceu, 67 anos depois.
