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20/12/11

La valise

Nunca as economias se desenvolveram por decreto-lei ou ordem dos dirigentes. Emigrar sob coacção será difícil, emigrar por devoção pouco provável e ser um cidadão global ainda menos. Este sonho que não era nosso mas de meia dúzia e que nunca soubemos abraçar está a chegar ao fim. Portugal atinge, hoje, níveis de desenvolvimento irrisórios comparado com os outros parceiros europeus e os seus cidadãos continuam num patamar de conhecimento muito abaixo do esperado. A minoria com capacidade para trabalhar no estrangeiro são os de sempre: as abas. Por um lado, os que têm elevadas capacidades económicas e profissionais e por outro os que têm a capacidade de fazer os trabalhos que os locais não querem. No meio estão aqueles que verdadeiramente não têm escolha: a classe média. E são esses, que os nossos dirigentes se atrevem a sugerir que partam em busca de uma vida melhor. É preciso ter lata!

27/11/11

Mariza - do mundo


Africa Calling - Mariza - Mozambique (Portugal)

13/04/11

Paga o justo pelo pecador

A empresa em que eu trabalho faz tempo que tem um display electrónico. O dispositivo para além de chamativo tem o poder de divulgar produtos e outros elementos que se considerem estratégicos. É um mobiliário publicitário da estratégia de comunicação. Como está exposto às intempéries tem uma taxa de avarias elevada. Desde o inicio da sua existência que a empresa fornecedora é chamada para reparar os males que, de tanto acontecerem, eles, os fornecedores já conhecem e o cliente, impacientado com as reparações constantes, chama a contragosto e desconfiança. Assim, apesar de durante anos todos os intervenientes andarem neste banho-maria, o dito display ia sendo reparado e reiniciado quase sem se dar conta do seu problema, ou seja, mantendo a informação no ar de forma constante e continuada. Até ao dia, em que exautos de confiar nos mesmos,  decidimos desconfiar de vez do fornecedor e ditar regras diferentes. Outra empresa, que uma vez chamada, disse logo o que os ouvidos cansados queriam ouvir: "isto resolve-se já e se tivéssemos sido nós a vender, nada disto acontecia!". A empresa milagrosa, em quem se depositou nova confiança e que passou a reparar o dito, apareceu em Novembro do ano passado. Estamos, em Abril e o display continua parado e não conseguiu manter-se no ar 24 horas seguidas desde então.
Nós, portugueses, temos a mania de desconfiar de todos e de achar que o próximo é sempre melhor que o anterior. Os portugueses gostam de pensar que são mais espertos que o anterior pensador ou que pelo menos somos bafejados por luminárias com poderes para alvejar o mal instalado fornecendo soluções que pelo facto de serem iguais mas apresentadas por gente diferente nos tirará da miséria e do marasmo. Existe a convicção de que pelo menos mudar faz bem e trará ventos melhores, e acima de tudo gente mais honesta. Os portugueses como desconfiam de tudo e de todos pensam que o próximo é sempre mais honesto e menos mentiroso que o anterior. Poucos dias passaram sobre a demissão de Sócrates, sobre o aparecimento de Passos Coelho com ar de primeiro-ministro e já verificamos que as trapalhadas e as afirmações que têm de ser desmentidas ou esclarecidas são e serão mais que muitas. Poucas horas tem o FMI em terras lusitanas, mas também já deu para entender que afinal os PEC's não eram o pior que nos podia acontecer. Os portugueses deviam ter sido capazes de acreditar em quem já conhecia o mal e que dando um jeito aqui e outro acolá mantinha o aparelho a funcionar. Pena que tivessem pensado que os que vinham a seguir eram mais honestos que os anteriores.  Pena que tivéssemos deixado cair a democracia nas ruas da amargura e que já ninguém soubesse onde andavam os honestos e desonestos. Paga o justo pelo pecador!

04/03/11

A madrinha


Depois da visita à madrinha, Sócrates volta com a fantasia dos 4,6% do défice. No podium do BCE a subida das taxas de juro é eminente. O Carnaval começa hoje mas termina na próxima terça-feira. Quarta é dia de cinzas e  inicio da quaresma, só que eu não acredito que a Páscoa seja acompanhada de novas tréguas orçamentais. Antes disso, o governo vai lembrar-se que o domingo de ramos é por excelência o dia das madrinhas.

07/05/10

Clima de afectos

Numa altura em que andamos preocupados com a crise, que não é apenas do país, mas da União Europeia e do colapso do Euro, o PSD anda empenhado em envolver o partido num clima de afectos. Aproximar os portugueses com beijos e abraços pode ser interessante, não me parece contudo que seja isso que vai levar os portugueses a ficarem entusiasmados com os dias de porta aberta e movimentos em prol da figura do simpatizante. Mas posso estar enganada, como tantos portugueses que gostariam de ver o país a andar em vez de estagnar. Pedro Passos Coelho tem de apresentar medidas que o distingam de Sócrates. Até agora, vi um role de sugestões, uma check-list do que deveríamos fazer. Mas como vários analistas têm afirmado, ninguém se tem preocupado em apresentar medidas para hoje e amanhã. A bancarrota tão pouco desejada e que se mantinha fora do pensamento dos portugueses mais ingénuos está à vista e não me parece que sejam os bons afectos que a vão parar. Não vale a pena perguntar se vamos ser, se somos iguais à Grécia ou se também aqui as pessoas irão para a rua. O que importa é evitar que tal aconteça. O povo tem sido sereno em muitas ocasiões, somos pacíficos até um dia, fizemos uma revolução exemplar sem sangue, até quando aguentamos é a pergunta que devemos fazer.

24/02/10

O rei vai nu

Jogamos com a probabilidade do não acontecimento. Pensamos que a nós nunca e que estas situações só acontecem nos países do terceiro mundo. Ainda há dias tivemos o Haiti e, aí sim, pensará a maioria os desastres acontecem, agora na nossa ilha encantada, não! Um dos nossos cartões de visita no turismo nacional e internacional, vê-se dum dia para o outro nas páginas internacioanais pelos piores motivos. O desastre natural, as mortes, os feridos e enfim a lama a vir ao de cima. O Carnaval ainda estava aí há uns dias e agora o rei vai nu e tem de admitir que as ribeiras não têm a solução adequada e que o que estiver sem remédio tem de ser construído de novo. Alberto João que se mascarou de Vasco da Gama para encontrar Portugal, não deve ter tanta vontade de rir neste momento. E a nossa Madeira recebe, agora sim, os 50 milhões de euros que tanta polémica geraram no Parlamento, as contas regionais e o orçamento esquecem-se por uns tempos para ajudar a nossa ilha, Alberto João continuará a rir do Continente, os turistas regressarão em alta e as pessoas afectadas ficarão em banho maria durante o tempo necessário. No entretanto, a pergunta que fica é o que é que se deveria ter feito em matéria de construções, de bacias hidrícas das ribeiras e todas essas infraestruturas dos países desenvolvidos. Mas talvez, a Madeira não se considere Portugal e estivesse à espera que o deus da terra os ajudasse em dias de intempérie. Como uma desgraça nunca vem só, Alberto João sairá desta vitorioso e ainda dirá que meteu o governo do Continente na ordem. E esta é mais uma das nossas calamidades.

05/02/10

Vamos ver

Os cem anos de Cavaco farão o roteiro do ano. Grande expectativa sobre o que serão esses dias na estrada, com comemorações e obras feitas à pressa para conduzir o pagode. Os programas serão vários e as propostas bem intencionadas. Vamos ver. Quero crer que de todas as análises possíveis sobre as presidenciais e não só, 2010 será o ano do vamos ver.

29/12/09

Comprar e vender

Os números podem ser apresentados de muitas formas. Neste caso, fica bem mostrar que os portugueses estão confiantes no futuro. As estatísticas revelam que este ano os portugueses compraram mais que no ano anterior. Quer dizer, os portugueses compraram mais, endividaram-se mais, viajaram mais, comeram mais e o cidadão normal não entende. Não entende que numa época de contenção global em que tudo é de dimensão universal haja cidadãos que num canto da Europa lhes parece normal e natural gastar, consumir, desperdiçar. São tempos estranhos que passam por Portugal, mas que contribuem para animar a vidinha e dar ânimo a quem passa 60 horas a trabalhar atrás do balcão!

02/12/09

Convicções energéticas

Escrevi diversas vezes que o meu ministro preferido, era Manuel Pinho. A razão que me levava a descrever o economista desta forma, era a sua capacidade de nos querer alegrar com grande convicção e expectativa. Pinho tinha resposta para tudo e um optimismo que num país sempre envergonhado nos dava alento e desconfiança. Por isso, tão fácil se tornou falar de Manuel Pinho com um sorriso nos lábios e ao mesmo tempo ver homenagens empresariais de dedicadas regiões que, animadas pelo optimismo da alocação de verbas a projectos locais, lhe concederam ruas e outras pequenas boutades. Manuel Pinho tem sido um entusiasta defensor do projecto eólico e do desenvolvimento das energias renováveis. Enquanto ministro andou pelo país a inaugurar, projectar e criar parceiros de negociação. Fazer de Portugal um dos pontos mais fortes da Europa em matéria de energia renovável foi o seu empenho.
A sua crónica hoje no "i" sobre o tema da Cimeira de Copenhaga, encerra um conjunto de ensaios sobre as Alterações Climáticas e o futuro de Portugal. Que "somos um país pequeno" já o sabemos, que "podemos ser um dos líderes na criação de um modelo sustentável em termos de energia e ambiente", suspeitamos, que "este é um dos grandes desafios do séc.XXI", não temos dúvida, agora que "consigamos agarrar esta oportunidade com as duas mãos", estamos para ver, somos descrentes. Por isso, é importante que nos digam que somos capazes e que "a imagem internacional de Portugal está bastante associada às energias renováveis, a termos o maior parque eólico da Europa, a maior central solar do mundo, o primeiro projecto experimental de energia das ondas...e o maior programa de grandes barragens da Europa".
É importante que não nos aconteça como à mulher traída, que é a última a saber o que todos sabem e ninguém diz. Portugal perde, consecutivamente, o comboio para os destinos mais próximos porque chega atrasado à estação. Ficamos no apeadeiro a economizar no trajecto e a tentar que a boa sorte nos traga um burro ou uma charrua a cavalo. Somos, muitas vezes, apesar de termos tido a visão da descoberta, lentos a organizar e a implementar estratégias. Portanto, que venham muitos optimistas como Manuel Pinho lembrar, mesmo exagerando na convicção, que somos um pequeno grande país!

27/11/09

Emigrantes por defeito ou opção?

Quanto mais tempo estamos no nosso cubículo mais chatos nos tornamos. Seja em casa junto da família, no emprego junto dos colegas, na paragem do autocarro junto dos outros utentes, na carruagem do metro, na pastelaria da esquina que frequentamos diariamente e onde esboçamos um sorriso forçado. Todos nos parecem uns aborrecidos idiotas e nós uns ilustres sábios continuamos a massacrar quem temos por perto. Os políticos e os programas de televisão não fogem à regra e até já nem nos blogues nos livramos de aborrecer quem nos lê. Olhamos para o nosso umbigo, dentro do cubículo que se tornou o nosso dia a dia e a porta do nosso país continua fechada a pessoas com outras características e talvez, quem sabe, capazes de trazer outra cor, outros motivos e outras histórias mais alegres, soltas, e de maior dimensão e está cada vez mais ampla e aberta a todos os que decidem encontrar lugar , emprego ou alegria noutro espaço. Tudo nos parece pequeno, tudo é grande aos olhos de quem é pequeno e tudo vai continuando conforme o nosso pedaço de humor. Sei que não é fácil ultrapassar esta tarefa, que à portuguesa herdamos e onde sempre tropeçamos. A saudade do que já foi, o que é e podia ter sido, que não nos larga e consome por tudo e por nada. Pergunto, para que servem as entrevistas a pessoas que não nos esclarecem, as reportagens de assuntos já ressequidos e que tresandam a esturro, mesmo que pelo meio esteja a senhora que perdeu o dinheiro numa instituição e que agora se senta ao relento numa avenida da cidade, greve de fome, diz ela, Quimonda fala ela, enganada e desempregada, expectativas frustradas acrescenta. Mas pergunto eu, ainda alguém liga a estas acções de voluntarismo sem jeito? E o resto que continua, agora é face oculta , amanhã cara alegre, e todos continuam à procura do "ninguém" que tem razão. Pobre país o meu que continua à procura de quem lhe diga onde se encontra o paraíso e só procura emigrar!

19/09/09

16/09/09

Reposição de stocks estruturais

Um país pequeno cheio de contradições. Temos e não temos, queremos e odiamos, agarramos e afastamos, é nosso e deitamos fora, compramos e devolvemos. Aquilo que não teria qualquer importância noutro lugar, transforma-se num alvoroço em terras lusitanas mesmo que os juros sejam elevados. Fazemos contas de merceeiro, olhamos para o custo do açúcar em vez de olharmos para o preço do bolo. Depois, esta falta de humor só pode ser reflexo do nosso complexo de "piqueno". Já vai longe o tempo da baixela de prata, da criada de crista e luvas brancas, do menino que não entra na cozinha e da menina que aprendeu todos os bordados, cerzidos e sabe chulear bainhas. Também já lá vai o tempo em que nos perguntavam se falávamos espanhol. Por muito que custe, o país vai pertencendo ao mundo moderno, vai perdendo graça numas coisas e ganhando noutras. Por muito que se desconfie da vizinha Espanha e se diga mal de Bruxelas as coisas são assim mesmo, o território não pode continuar de costas viradas para o desenvolvimento e perder mais uma vez não só comboio mas a estação. O tempo dos apeadeiros, embora bucólico e enternecedor, deve ficar no tempo a que pertence, ou seja no passado e junto ao tempo em que não havia pressa e as meninas corriam e saltavam, os meninos aprendiam a correr atrás delas, as criadas ajudavam a esconder uns e perseguiam outros, as senhoras bebiam chá e jogavam canasta e os cavalheiros fumavam charutos na sala de fumo. Hoje, por muito que se suspire, os homens e as mulheres são cada vez mais iguais, os países cada vez menos desiguais e as culturas mais globais. E quanto mais não fosse, a globalização começa logo pela atribuição dos fundos estruturais que nos tira todas as peneiras e altivez. Façamos, então, o que é necessário sem falsas modéstias e argumentos fora de moda, mesmo que este ajustamento à globalização venha tarde e a más horas.

12/09/09

Zero a Zero ganha o Benfica

Matar o pai e a mãe para depois dizer que é órfão, foi uma tentativa de gargalhada duvidosa. O apagão do SNS no programa da verdade é uma gargalhada repetida, mas interessante. As políticas de privatização da saúde e da educação, são piadas bem apanhadas em conjunto com a frase da doutora que não gosta do SNS. O melhor da noite foi a definição de SNS. Para que se saiba, não é Serviço Nacional de Saúde, mas Sistema Nacional de Saúde e aqui está toda a diferença. Um serviço presta-se um sistema constrói-se, um serviço nacional é um direito do cidadão e um dever da governação, um sistema é um esquema que pode ser delineado de formas diversas e de acordo com as variáveis e as necessidades assumidas. Um sistema pertence a quem o pensa e tem de ser testado, por isso não é um dado adquirido, nem um dever assumido. Pode ser alterado e rasgado se não der certo. A revisão do sistema depende também da política subjacente, já o serviço é o resultado do sistema e da política instituída. Nacional diz respeito ao país e ao povo, se for serviço é um direito aplicado a todos. Já o sistema nacional é um conjunto de políticas que vão ser testadas e postas em prática conforme a melhor racionalidade e eficiência, neste caso económica. A saúde é uma necessidade de todos, o serviço de saúde é um direito de todos, o sistema depende da vontade de quem governa e quanto à eficiência resulta da qualidade dos agentes que a estudaram e dos outros que a testaram. O serviço depende da qualidade dos agentes que a executam e que no caso da saúde ou são os médicos ou são os agentes económicos que asseguram os cuidados de recrutamento dos profissionais junto dos privados. No fundo, o que queremos saber é se o público por si só pode responder às necessidades de quem o utiliza, e se o privado é alternativa a quem o procura. Por outro lado, se o endividamento do País permite mais despesa por parte do Estado, ou se a privatização da saúde e da segurança social são inevitáveis. Ping-Pong para lá e jogada para cá, Sócrates e Ferreira Leite não saíram do empate.

Vai dar ao mesmo

Identificar o produto pela marca é um hábito que uma vez adquirido leva tempo a desfazer. Foi o que aconteceu com a Compal durante muito tempo e nas terras do interior um "compal de pêra" ainda é bebida que se pede, mesmo que o produto e a marca sejam outros. O cliente esclarecido diz o que quer, mas para outros o que conta é a bebida, não necessariamente o produto e muito menos a marca. Durante muito tempo quando pedíamos uma Coca-Cola, serviam-nos uma Pepsi com toda a ligeireza, porque não havia diferença para quem vendia. Para as empresas, o cliente indiferenciado não interessa tal como os trabalhadores indiferenciados não interessam às empresas com dimensão e estrutura empresarial competitiva. O nosso país tem 80% de empresas com 4 trabalhadores. Não é esse o problema, as empresas virtuais podem ter apenas 1 trabalhador e serem muito lucrativas e eficientes. O ponto está em que 75% dos 80% tem 4 trabalhadores com habilitações para os cargos e o dobro ou o triplo de indiferenciados. É isto que representa um dos casos mais grave do país. Um país que qualquer coisa lhe serve porque tanto faz e vai dar ao mesmo. Coca-cola ou Pespi o que conta é a lata para continuar e o gás que ajuda a desfazer qualquer mal estar.

19/06/09

Ficar bem na fotografia

Muito se tem escrito sobre os resultados eleitorais. Independentemente do acto de se ter votado ou não e em quem, o ponto sobre o qual tenho reflectido é se votamos em políticas ou em pessoas, se as duas são o mesmo, se podemos dissociar uma da outra, se os representantes são mais importantes que as políticas em que acreditamos ou vice-versa. Independentemente dos votos estratégicos, dos votos de abstenção dos descontentes sem alternativa, dos votos de punição, dos votos de adoração, dos votos de antecipação, pergunto se alguma vez deixaremos de ter sociedades democráticas, se a democracia pode passar a ditadura de grupos.
Todo o dia de ontem andei a remoer sobre um artigo de Alexandra Lucas Coelho (ALC), aparentemente sem grande relevância para este tema, mas que ao referir a necessidade de conhecer a realidade e a ficção mesmo num outro contexto me deixou a pensar.
A jornalista no seu artigo "Não ficção" publicado nas suas crónicas "Viagens com bolso" menciona três pontos importantes. O primeiro que "a repetição das imagens tira-lhes realidade"; o segundo que "o problema com a ficção é que a realidade existe"; o terceiro "num território esgotado por ficções há um único desenlace real: ir e ver". ALC está descrever o muro, Cisjordânia e Gaza e a forma de vida de milhões de pessoas reais que só quem não viu as ficciona. E é aqui que toda minha análise volta ao início. Será que as políticas e as pessoas se podem separar? E os erros cometidos são remediáveis com outros representantes? E neste caso as campanhas de imagem ao se repetirem tiram-lhes realidade?
Uns dias antes das eleições passadas, um amigo que ainda não tinha visto os outdoors da campanha, exclamou entusiasmado: "Gosto imenso das fotografias com a candidata do Porto. Estão fantásticas!" E eu fiquei a pensar, que na realidade ainda não tinha visto as fotografias, mas apenas a candidata, os lenços e as demais análises ao outdoor estavam filtradas pelo meu enviesamento em relação à pessoa. O meu olho clínico não estava isento e para mim tanto me fazia que fossem bonitas ou feias que não me levariam a votar em quem eu não acredito, porque olhando melhor, o meu amigo tem toda a razão, as fotografias estão fantásticas!

15/05/09

Do you speak other languages?

Miguel Esteves Cardoso faz no Público de hoje, a sua análise "Dobrada com feijão". Na sua opinião que é também a minha, Portugal não só se está a fechar para o mundo através do seu bem mais precioso, mas também a ficar mais pobre. A dobragem de filmes infantis que retiram a capacidade de nos expormos a outras realidades, castram a natural curiosidade e imaginação das crianças, bem como deixarmos de ouvir um filme ou novela em brasileiro ou de vermos filmes legendados no seu idioma original, fará de nós "poliglotas espanhóis". Na verdade, um povo que sempre se distinguiu pela sua facilidade de arranhar o portunhol, o franciú e o englishú, ficará mais pobre e virado para si mesmo.
Se uma coisa é preservar a língua portuguesa e o Acordo Ortográfico, outra é fecharmos os ouvidos aos sons e aos ritmos de outras culturas. Recordo a admiração com que somos recebidos sempre que viajamos e nos apresentamos a falar o idioma local. E a pergunta sacramental "onde é que aprendeu a falar assim?" Recordo também que nos países mais desenvolvidos qualquer homem de talho fala inglês, excepto em Espanha.
Seguindo a lenda "que de Espanha nem bons ventos nem bons casamentos" espero que esta seja apenas uma moda para lançar novelas portuguesas. Se alguma coisa diferencia as gerações mais novas em relação à minha, é precisamente a capacidade de comunicação global, transversal e universal que o inglês, por exemplo, proporciona. Não é só a matemática que ajuda a compreender os negócios é também o inglês que evita que aviões caiam por falta de entendimento entre a torre de controlo e o cockpit, são as negociações internacionais, são o podermos ser portugueses dum Portugal moderno. Não quer isto dizer que não se fale bem o nosso idioma, mas essa parte faz-se mais através da leitura e menos através das novelas televisivas.

07/05/09

Saudavelmente absorvidos

Nesta época, a vida em Portugal era mais "descomplicada", o país acordava para as novelas brasileiras, que eram divertidas, com imagens dum país distante através de um escritor. Jorge Amado que tinha sido lido pelas elites, podia agora ser visto por todos. Já não era preciso saber ler, bastava ver e ouvir. Hoje, instalada a democratização das imagens, elas são bem mais folclóricas, mas igualmente menos belas. E o país está quase a chegar ao ponto de rebuçado. Eu não sou grande coisa nesta história de pontos de açúcar, mas julgo ter lido que a partir daí fica em ponto caramelo, o tacho está esturricado e o doce estragado.

23/04/09

Técnicas de experimentação curricular

Quando eu era pequenina... a escola era até à 4ª classe. Nessa altura tínhamos comboios com carruagens de 1ª, 2ª e 3ª. A diferença estava no preço em primeiro lugar, e na classe social em segundo. Raras eram as pessoas que podiam viajar em 1ª. A segunda estava reservada à grande maioria, tinha os bancos mais escuros e menos confortáveis, mas uma pessoa decente podia viajar confortavelmente. A 3ª classe era um cheiro a suor e lágrimas de trabalho, má higiene financeira e cultural. Em todas se podia fumar e as janelas permaneciam abertas ou fechadas consoante a carruagem. Isto era nas cidades porque no campo não havia estes transportes, a escola era esquecida e bastava aprender a ler e a fazer contas. Como esta parte se aprendia até à segunda classe muitas pessoas abandonavam a escola na terceira e começavam a trabalhar no campo ajudando os pais e contribuindo para o bolo familiar.
Quando eu fui crescendo, as criadas vinham da aldeia e viviam connosco como parte da família só regressando à terra anos depois para uma visita, e nunca querendo voltar à parvalheira sem um pé de meia para mostrar. Pelo caminho pediam a alguém, normalmente a uma de nós, para lhes escrever aquelas cartas que invariavelmente começavam assim, " Minha querida e saudosa mãe, espero que ao receberes desta se encontrem todos de boa e perfeita saúde que eu por cá tudo bem" e que terminavam também desta forma. "Desta tua querida e saudosa filha...Armandina". Esta era uma época em que nas aldeias havia agricultura que alimentava as gentes da cidade e pobreza de subsistência para os que ficavam.
Quando os meus filhos nasceram, a escola ia até ao ciclo, mais tarde sexto ano e passou a obrigatória até ao nono ano num instante. Se antigamente a escola era para aprender, com os anos passou a ser mais para passar o tempo. Os comboios têm agora 1ª e 2ª classe não se pode fumar, as janelas estão fechadas. O que diferencia a 1ª classe é o prazer do ar condicionado e outros pequenos confortos que podem ou não justificar a diferença de preço.
Ontem, o Primeiro Ministro anunciou que a escolaridade obrigatória vai passar para 12 anos e que o Governo quer estudantes na escola até aos 18 anos. Ser estudante passa agora a ser para os meus netos uma profissão, porque antevejo que a licenciatura passe a obrigatória num ápice. No fim de contas mais três anos de um curso para a profissão estudante estará perfeito e devidamente testado para criar novos profissionais. Calculo que os comboios sejam todos TGV e que as aldeias não sejam necessárias porque a Agricultura Vertical já estará em Portugal.
É claro para mim, que ninguém vai ter emprego porque os estudantes vão continuar a ter de se reciclar para as necessidades empresariais. Vamos nesse momento passar a ter motoristas de táxi com formação em engenharia mecânica e estão agora criadas condições para escrever cartas com erros sem qualquer importância mas com a importância do diploma na mão.
A minha pergunta que deve ser muito tonta é ? Se eu já vi este filme há 30 anos nos países que adoptaram estes sistemas e que já estão a corrigir o que viram ser errado, porque estamos nós agora a fazer o que outros deixaram?
Os nossos comboios continuam a andar atrasados 25 anos e ainda querem que os jovens tenham "uma filosofia, um ideal e um objectivo". O que eles vão querer é emprego e não têm quem esteja disposto a investir em recursos humanos que de nada servem. A resposta à minha pergunta é simples. Quanto mais tempo na escola a ver passar os comboios, mais tempo em casa dos pais, mais tempo de subsídios para as famílias e mais tempo para tapar o sol com a peneira. E no entretanto maiores possibilidades para a migração não da aldeia para a cidade mas dos outros países para o nosso. Ainda há quem duvide que somos europeus?

22/04/09

"Qualquer coisa de asseado"