14/04/26

Em jeito de tango e de László

Pouco havia para contar nada se esperava e ao mesmo tempo tudo podia acontecer. Os olhos do homem habituados pela frincha das tábuas absorviam os movimentos da vaca e da noite. Não havia espectativa para além do que já conhecia e no entanto, talvez esta noite fosse diferente (se os outros não vierem, tudo muda) provavelmente não faria diferença tentar dormir apesar da chuva ou do barulho da vaca. Ao mesmo tempo pensou que era estranho as vacas insistirem em fazer ruídos àquela hora e também não tinha a certeza se os outros tinham combinado trazer os animais para venda ou abate. Talvez fosse para o dia seguinte, ele já não se lembrava do que tinham acordado, hoje ou amanhã seria igual, embora tivesse de tomar uma decisão ou hoje ou amanhã (a vaca vendida pelo preço miserável que os outros queriam ou não?). Olhou pela frincha e a vaca continuava no mesmo lugar, olhou pela frincha do lado viu luz no tasco, ainda não tinha começado a música do velho acordeão, ouvia copos ou talvez fossem malgas de barro. O tipo do tasco nem as lavava, os velhos e os novos não faziam diferença (querem lá saber da higiene num lugar porco e da cor da terra). Amanhã talvez passe por lá, hoje está demasiado escuro para voltar bêbado. Naquele lugar a podridão mantinha-se num parar sem tempo e no tempo, a maioria dos homens tinha partido para o estrangeiro e as mulheres novas para a cidade, as velhas e as crianças sem remédio à guarda das avós. Homens desdentados, vesgos e sujos sentados nas portas e nos degraus da igreja, o padre igualmente velho a chamar os poucos para a missa e as mulheres à confissão, os poucos que restavam iam por não terem mais nada para fazer ao domingo, à semana também não, mas pelo menos iam para o tasco que não fechava por vontade das patroas, pelo menos não tinham os homens em casa (em casa os homens a chatear). Ele ouviu os outros a chegar (os outros vieram) e espreitou devagar para não ser surpreendido, tinha de ir buscar a vaca, tinha de ir com eles naquela noite. Não tinha ninguém, estava sozinho há anos, só ele e a vaca. Ele e a vaca. Decidiu que não a vendia, a vaca não ia querer, ele não ia querer, os dois não queriam, ele e a vaca. Os outros queriam levar a vaca, mas ele não queria e a vaca também não ia. A noite parada, chuva, na tasca os outros, ele ouvia-os. O tempo estava igual, ele devia ir ter com os outros, mas hoje não levava a vaca, ia só beber um, ou dois, ou três, ou os que fossem necessários para se emborrachar, porque havia pouco para contar, hoje não, hoje os passos eram seis para a frente e seis para trás como no tango (que sabia ele de tango, valha-nos as alminhas). Tudo no mesmo lugar, ele, os outros, o tasco, o sítio, a frincha e a vaca, mas amanhã era outra música voltaria a pensar no assunto da venda ou do abate, hoje não, amanhã sim. Hoje era o baile, saiu e entrou no tasco, a música do velho ia alto e bom som, sempre os mesmos acordes, alguns tinham começado a dançar, cinco homens disputando uma mulher, coitada dela, sujinha e cabelo como um ninho de ratos, olhos gulosos de quem não tem escolha, chegou outra a da venda perto da estrada. Uns e outros a girar, botas de borracha, saias rodadas, calças sem cinto, homens esbraguilhados naqueles corpos suados, bocas a tresandar a vinho rasca e a música rodopiando. No meio daquilo o António Caroço a pensar na vaca que tinha ficado sozinha, hoje não, amanhã sim, outro dia e pouco havia para contar.

21/05/25

“…Que privilégio extraordinário é o de um país que não tem uma identidade … porque as tem todas…” (Mário Vargas Llosa)

No início pensei, chorava a criança sentada no carro de compras. A mãe não tinha dinheiro, dizia, verdade ou mentira talvez para não a alimentar a doces e chocolates. Era bonita, cara pequena e olhos brilhantes, pestanuda. Os pobres conseguem sempre ter filhos bonitos, tal como os ricos. Os pobres são morenos, os ricos louros. Os remediados de antigamente são a classe média de hoje. Apresentam-se sem grande identidade, vieram das zonas rurais, instalaram-se nas cidades principais. Cidades com essa designação porque têm empregos, casas mais altas, cinemas maiores, centros comerciais, restaurantes temáticos e muita gente. Gente que desliza malas e maletas com pertences, uns de passagem, outros por tudo nessas malas caber. E os que chegam de barco e camiões de onde podem para apanhar morangos, tomates e trabalhar na restauração. Não falam a língua local, falam a deles, vestem o deles, comem o deles, dormem no que se lhes arranja, cheirando a incenso e a caril. Volto ao início, passo pela criança dou-lhe um sorriso, apesar de me doer a cabeça, vergo-me perante quem precisa. O segurança estando de bons modos dá-lhe uma flor, a mãe agradece, continua com sacos e trouxa de cobertores. Continuo com dores diversas, há três dias que não como, só bebo líquidos, sumos, iogurtes e sopa. Tudo por causa da afta instalada na boca após uma mordidela na língua. Continuo a caminhada, cada vez mais devagar. Por desinteresse, por falsa atitude perante a vida a que não pertenço. Devo fazer terapia, talvez. A cidade que não é minha pertence-me diariamente. Percorro os corredores da livraria, pego em Padura, “Ir a Havana”. Interessante, uma recolha de sensações em visita. Volto ao início, vejo a mulher e a criança, compro-lhe um chocolate. Como se estivesse em Havana, vejo melhor, a mulher está grávida. Penso nelas, naquelas mulheres encostadas às paredes da Plaza Vieja e os turistas que tiravam fotografias, esquecidos do rigor e da pobreza. Continuo a viagem, dói-me a cabeça e a afta não permite falar, entendo que leva tempo. Tudo leva tempo. A fome a desaparecer, a inclusão de gente e maletas, de roupas diferentes, de turbantes e carros de compras servindo de transporte, de roupas, de crianças, de comida. Decido ouvir Adriana Varela, tangos e tristezas no amor de Gardel. O mundo latino que ainda se instala no coração dos anos 80. LLorar o que nunca sucedió, diz a letra do rio de la Plata. Volto ao início, esqueço o lamento da criança e a vontade da mãe. Olho as roupas e o vazio das montras, caminho cada vez com menos vontade. Volto a morder a língua, grito de dor, agacho-me contra a parede da praça. Sou eu outra vez, não estou grávida, estou velha, tenho medo de não pertencer a esta cidade onde não há identidade, onde todos podem pertencer se quisermos, se dermos um sentido aos que chegam, aos que são diferentes, aos que riem e choram, aos que são pobres e sonham ser ricos, aos que deixam de ser apenas ricos para virarem acolhedores . Uma voz dirá com aplauso, que privilégio é um país também ser de quem o escolhe, de quem o canta. Cantam gargantas afinadas com versos de elogio e pena, de saudade, de amor, cantam versos de Camões, em fados antigos. Cantam harpas guitarras e acordeões, culturas diversas com cheiros de leste a oeste, deste e daquele mar. Volto ao início dos inícios sem dor de cabeça e sem aftas de língua.

05/03/24

Kafka cem anos, uma carta

Meu caro e admirado Franz, Faz tempo que não nos correspondemos. A similitude dos nossos dias o deveria. Porém, a inércia não me tem permitido passar dos abismos e sonhos que me rodeiam. Os dias entre o quarto andar do escritório, à secretária, de lápis na mão, analisando números e balancetes monótonos e o quarto no segundo andar da mesma rua são bafientos e tristes. Vejo-me nesta perseguição doentia de vaivém entre a vida para o meu parco sustento na Rua dos Douradores e a arte que só a escrita e os pensamentos me devolvem. “Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu” *. Ao refletir sobre o que escrevi volto a sentir que neste escrever sozinho, de pé, “como sempre tem sido e assim será”**, estou triste e ao amanhecer entediado. Saio e subo os andares que me levam ao escritório e aos “vês” contabilísticos dos grandes livros abertos. Vejo o mergulho do aparo no tinteiro e uso o mata-borrão ao lado, faço o floreado em cursivo inglês, descritivo, preciso, em tempo de disfarce rotineiro, permitindo alguma máscara de devaneio e libertação. Mais tarde, já no meu lar recorro aos heterónimos, sinto que cada pessoa é um Pessoa. Só a literatura nos preenche, apesar do medo e da angústia, da desilusão de algum dia me lerem, de nos lerem. Franz, permita que o inclua neste nós, são encontros de semelhança no nosso percurso diário. Os dias que se assemelham, um na empresa seguradora escrevendo relatórios sobre sinistros, outro no escritório como aprendiz de guarda-livros a correr colunas de lançamentos contabilísticos, os dois escrevendo pela noite fora, sem sono, sem companhia, em obsessão contra o descanso, sem compromisso feminino. Detestando a mediania. Os dois fugindo do espaço íntimo e ao mesmo tempo buscando e questionando sentimentos, observações passadas, relações mal construídas ou inexistentes. O meu amigo, chamando à madrugada “o céu mudo que só ecoa para quem é mudo”, rejeitando em checo a sua origem judaica e escrevendo em alemão uma “Carta ao Pai”, eu poetando em português e questionando Deus e a Pátria em ilusão britânica, sonhando em Lisboa o tempo sul africano. Bem gostaria de ter a sua disciplina, de me deitar ao Tejo em braçadas energéticas que me limpassem a alma deste meu desassossego. Nem o agasalho do Martinho da Arcada me acalma o frio, quanto mais fazer ginástica de janela aberta em tronco nu, que aquecimento no quarto não se usa em Lisboa. Invejo esses seus rígidos princípios, quem dera! Kafka, meu bom amigo, os dois franzinos e atormentados na companhia da arte literária, dos sonhos, dos desesperos, duas almas neuróticas nascidas entre 1883 e 1888 prestes a terminar. A tuberculose e a cirrose virão ter connosco não com muito distanciamento. Entre 1924 e 1935 morreremos os dois. De nós, se dirá talvez alguma coisa que signifique. Os dois escrevemos na solidão, diários inacabados, mais tarde publicados sem nossa autorização, não deixamos descendência ou cônjuge, seremos leitura obrigatória, quiçá em programa de escola e com adjetivos kafkiano e pessoano passaremos a ser. Termino com amizade e admiração P ’lo Bernardo Soares (F. Pessoa)

08/03/23

No dia de hoje

Mulheres que levam braços apertados contra o peito, seguram filhos embrulhados em xailes de cor parda. Mulheres de idades diferentes, que circulam pelas ruas, param em praças e jardins, procuram oxigénio de dia e vendem o corpo pela noite. Mulheres que cuidam dos filhos, levantando-se tarde, frequentam cafés, deixam um sorriso de boas tardes, são mulheres mães. Cafés tomados sem preconceito, lado a lado, no acordar e levantar da cama. Crianças entregues a amas. Mulheres em concorrência em ruas, carros e pensões, com policias fazendo que não enxergam e respeitáveis cidadãos fechando janelas. Um fado gritado ao longe, mulheres a quem o homem de uma foi roubado pela outra. Mulheres dos outros, vidas de desejos diferentes, mulheres que ganham sustento deixando homens ditar o seu ganho, mulheres que se sujeitam à dura forma de cuidar dos filhos, mulheres que não têm alternativas, mulheres que cresceram sem conhecer a força da educação, do estudo e da independência financeira. Mulheres que não vão a tempo,filhas que ainda podem. Mulheres com lábios e unhas carmim ao cair da noite, mulheres com orgulho nos filhos ao início da tarde. Mulheres que chegam em barcos do outro lado do mar. Mulheres que fogem da guerra e da manipulação de governos. Mulheres que fingem alegria, carregam desesperos e voltam para casa sem sorriso, com e sem doenças, com lágrimas escondidas. E também, mulheres bem sucedidas, felizes, independentes. Mulheres sorridentes, sem nunca sabermos o que pensam, mulheres da vida e mulheres com vida. Mulheres com xailes de festa e também com xailes de cor parda. Mulheres festejadas, hoje.

03/03/23

Planeamentos

Naquele dia, algo se estava a passar no Planeamento Regional. Armando dormia um regalado sono em casa de sua mãe. No gabinete o Director encolhia os ombros, baixava os olhos e continuava a ler. Ninguém sabia o que ele lia, o Director usava os permitidos monossílabos quando lhe perguntavam por Armando. O gabinete era um open space que acolhia dez mesas dispostas em duas filas paralelas, no planeamento olhavam-se frente a frente. Quem nelas se sentava manifestava um interessante observar. Ninguém falava, porque todos tinham nascido com voz mas sem direito a palavras ao acaso. O Dr. Águas era quem mais olhava de lado, não tinha computador, apenas papel, lápis e uma máquina de calcular. Calculava ele, que com o tempo talvez encontrasse números que justificassem o desemprego, as baixas de ocupação, o absentismo. Com menos recursos e palavras escassas para justificar percentagens e desvios, sentia-se ainda mais isolado. Em cima das mesas cada funcionário tinha uma lista de palavras a utilizar, os teclados apenas permitiam a utilização das letras necessários para conjugar os verbos, os substantivos, os adjetivos e os complementos da linguagem permitida pelo Delegado. Homens e mulheres não manifestavam os seus pensamentos, sob pena de parecerem tolos à procura de novo emprego. A manhã ia longa, os relatórios seguiam caminho para o gabinete do Delegado. E Armando dormia um regalado sono em casa de sua mãe. A noite tinha sido de grande e inquieta descoberta. Os computadores tinham memória e armazenamento de palavras desconhecidas. Havia músicas e filmes de linguagem desconhecida e que noutra vida podiam ter sido usados. Pertenciam àquela época em que o alfabeto não tinha restricções, todas as letras se conjugavam livremente, todos os cidadãos circulavam sem correntes ou olhares ameaçadores. Ninguém se preocupando com listas de palavras para entregar ao Director que as entregava ao Delegado, que as fazia seguir para o Secretário de Estado, que as comunicava ao Assessor do Ministro da tutela. E que por sua vez, organizava relatórios em discursos convincentes e convenientes, com palavras de uma lista dourada onde a conjugação era regada de adjetivos brilhantes e confiantes. O Director tinha um acordo solidário com Armando, sabia onde o encontrar e com as palavras breves de - veja se chega, todos o procuram - obrigou o desejado técnico a sair daquele regalado embalo. No gabinete do Delegado a aflição crescia, onde estava o Armando? E se aqueles teclados dessem em verborreia sabe-se lá de que género? Armando chegou, mas não dominou a fuga de palavras, descontroladas fluíram, seguiram caminho, ultrapassaram domínios e chegaram em voz aberta e audível aos televisores. Em casa, a população foi surpreendida com música e intervenção desajustada ao habitual, o tempo das palavras escassas tinha acabado. E tudo, porque Armando ao dormir um sono regalado em casa de sua mãe, deixou a porta aberta para a informação livre. Nesse dia, foi levado em braços pelos colegas, que o passaram a ver como o libertador da voz. Passados anos, o esquecimento voltou e novas listas de palavras foram enviadas à Assembleia de Representantes. Armando é agora o Ministro da tutela, a quem o novo Delegado envia relatórios de meias e escassas palavras, repetindo procedimentos dourados em palavras controladas. No gabinete de planeamento os teclados são controlados pelo Dr. Águas que nos dias ímpares os desliga e disponibiliza papel, lápis e máquina de calcular.

Sapatos

Apenas uma gota antes de dormir e logo era domingo. A luz dizia noite. Alfredo tirava os sapatos antes de entrar em qualquer lado, um hábito que lhe ficara desde os tempos em que não os tinha. Sonolento, viu-se descalço e pobre apesar de bem calçado. Albertina, duas tranças de cabelo encaracolado, pisava o chão com sapatos e saltos de porcelana. Lá longe, duas mulheres de idade avançada e um homem de chapéu verde pisavam pedras da calçada, escorregando nas socas de madeira. Naquele dia, a chuva tardava em derrubar os telhados da aldeia e a hora da missa aproximava-se. O Padre Freitas paramentava-se de vestes brancas e estola dourada, colocou o crucifixo de madeira para simplificar as vestes e não encontrando os sapatos pretos, procurou as botas da peregrinação, limpou os restos de lama que o caminho deixara e calçou-as. Pensou, que quando se ajoelhasse no altar, as solas esburacadas deixariam entrar os olhares do povo. Talvez rogasse um saco de esmolas para o arranjo do telhado e meias solas. Lucinda vestiu um casaco de fazenda, cobriu de forma sensata o vestido de decote pronunciado e procurando o que calçar, escolheu um par de sapatos de verniz preto, salto médio e capas novas. Olhou-se ao espelho e saiu sem pressa de chegar, saboreando vaidade, antecipando inveja e admiração. Uma pequenita de sete anos sonhava há um mês com os sapatos vermelhos que a montra da sapataria exibia. Haveriam de ser seus, dizia-lhe a mãe. A caminho da missa, entre poças e salpicos as sandálias inglesas feriam dedos encolhidos à procura de libertação. Nos degraus da Igreja, um velho descalço, com unhas tortas e gretas nos calcanhares, ajeitava-se no pedinchar, enquanto mantinha o boné e uma bota desgarrada, sem vida, no chão. Apenas uma gota antes de dormir e logo era domingo. A luz dizia manhã. Joaquim levantou-se, vestiu-se e chegando a hora de sair, pegou nos sapatos de corda, dirigiu-se ao alpendre, lavou o rosto, alisou o cabelo, passou uma broa nos dentes e um gole de pinga pela garganta. Calçou-se do lado de fora e pegando no bastão e no saco das esmolas foi-se estrada fora. No altar o sacristão verificava o preparo da missa, enquanto ouvia o ranger do chão e dos sapatos junto ao sacrário. As senhoras da terra caminhavam em bicos de pés compondo jarras de flores e ajeitando velas. Bateram os sinos, estava na hora. Sentados em bancos bem corridos os habitantes acotovelavam-se para ter o melhor lugar. O Padre Freitas deu início à oração, o coro entoou os primeiros cânticos e Lucinda entrou. Sem pressa, colocou uma pequena almofada no chão e ajoelhou-se bem à frente, junto ao altar, deixando que todos se distraíssem com o verniz dos sapatos, obrigando o sacristão a desviar o olhar do decote para o chão, levando o Padre a interromper a missa e a convocar a penitência de várias missas sem sapatos. A ida à missa era uma oportunidade para calçar sapatos novos, botas de domingo, saltos de porcelana ou socas de madeira. E Lucinda era a ilusão de riqueza e os desejos de boa semana. Até o mendigo sabia que algumas moedas cairiam na bota.O Padre Freitas compreendeu que ou tinha fiéis com sapatos de desejo ou a igreja vazia. Com Lucinda saíram santos sapatos e imagens de devoção. Apenas uma gota antes de dormir e logo seria domingo. A luz dizia FIM.

03/02/23

Sons de Grupo

Ouço o chilrear, pergunto-me se a alegria tem som ou é o grupo que lhe dá vida. Gesticular palavras era o que se fazia, todos os fins de tarde no café Embaixador. À Sampaio Bruno iam chegando, um a um. Depois, eram os cafés, as meias de leite, as torradas com manteiga a escorrer. Uma cerveja e tremoços para os mais velhos, talvez. Olhos que não pediam, no estabelecimento conheciam os hábitos, eram muitos anos de conversas e risos abafados. O arquitecto havia desenhado duas áreas. A entrada normal com balcão e mesas, depois um pequeno varandim que permitia observar uma zona desnivelada. Os pequenos degraus levavam a essa galeria onde sentado, o grupo formava um corredor de mesas e cadeiras. Eram tipógrafos ansiosos por partilhar o seu dia. Teriam anedotas, pequenas histórias, segredos de Estado ou fofoquices de profissão, não sei. Eram, homem-mulher, pássaro, arrulhando e gesticulando animadamente. Não falavam com palavras e eram ruidosos. Pertenciam, igualmente, aos que gritando com os olhos e com os gestos nos alugam a voz e a espada, porque eram surdos mudos. Por outro lado, no café Bissau em Cedofeita o agigantar de mesas era ocupado por grupos de estudantes. Sem gestos deixavam que o som das suas vozes animasse as tardes. Um café, um copo de água e um boa tarde no final. A despesa era só conversa, o estudo uma miragem, às vezes. As frequências, os exames, as apresentações ofuscavam sabedoria de tempos a tempos. Reunidos segundo áreas de estudo, economia, letras, engenharia, farmácia, chilreavam canções de intervenção e corridas rápidas à frente de quem queria manter a ordem. Voltando no dia seguinte à mesma hora, um café, um copo de água, conforme o mês um bolo de arroz ou um queque antes do boa tarde. Penso longe, deixo-me divagar, o tempo devolve-me outros espaços, viagens passadas, sol, esplanadas, gentes. Vejo a Grécia e os cafés de Atenas, tomo um café turco, saboreio a arte do barista e a escolha do apropriado recipiente. Tomo lugar durante um bom par de horas numa esplanada, sugo o afortunado brilho dos que estão à minha volta. A alegria barulhenta, o convívio e a degustação de chávenas de café, sempre acompanhadas com um copo de água gelada e o festim duma apetitosa delícia turca ou grega. As mesas com birkis de cobre e bebida fumegante, batida cinquenta vezes no sentido do relógio, sorvida devagar no sentido contrário dos ponteiros, como se o tempo se fizesse em redor do passado e os grupos fossem um só. Ouço o silvo dos navios que chegam ao Pireu e o voo da mente continua. Deslumbro-me por ruínas e museus, alimento-me de História.Transporto-me por paixão ateniense para o passado e mantenho-me na actualidadde filosófica presente. Faço uma paragem, regresso ao presente, para logo voltar à navegação da memória. Chego a Santorini. A beleza da ilha, os navios de grande viagem desembarcando nacionalidades diversas, interesses comuns. Grupos de gentes em busca de monumentos e curiosidades, quiçá esquecidas pela maioria na viagem seguinte. E no deck, ondas e piscinas de contentamento, risos de senhoras em bikini, barrigas e corpos de meia idade, homens calvos e ventres que nem tambores, alinhados ao sol. Ruidosos, com gargalhadas exuberantes e gosto por reforma. Americanos e russos convivendo, ucranianos e bielorrussos partilhando salsichas e vodka ao pequeno almoço. À noite usando notas de casino e dançando polkas, sem julgamento ou remorso. Vivendo os dias alegremente, sem culpas ou restricções. No final, outra viagem, outro riso, outra alegria, ouvindo guizos e típicos burros a descer e a subir escarpas, carregando turistas desejosos de fotografias. Com ou sem som, com ou sem chilreado, apenas homogeneidade, como pássaros voando, gritando em grupo. Eu, devolvo as memórias ao seu espaço, regresso. Passeio-me pelos grupos, ouço o chilrear da vida. Estou no café Embaixador, estou no café Bissau, estou em casa!

10/12/22

Inutensílios

Abriu a primeira gaveta, olhou os talheres, viu colheres de sopa a partilhar facas e garfos de sobremesa, os de carne juntinhos no tabuleiro, a seguir os de peixe, ordenados virados frente a frente, de lado as colheres de sobremesa, depois as de chá, a seguir as de café. Um pouco atrás os talheres de servir, a concha da sopa, a colher do açúcar. Abriu a gaveta das colheres de pau e das facas de cozinha, vários tamanhos, com e sem serra, cabos verdes e de inox, abre latas, abre garrafas, suportes em madeira, ainda o cutelo, o rolo da massa e outros utensílios de cozinha. Abriu mais uma gaveta e dela saíram pegas, panos de loiça, toalhas de mão, aventais e uma toalha de mesa já antiga que terá sido alva e que hoje fora de tempo se encontra amarelada, com vincos de desuso. Abriu o armário dos copos e viu-os lindos, finos, de pé, de água e uns mais rasteiros próprios para refeições vulgares. Virou-se para os pratos, rasos, de sopa, de sobremesa, heranças de casamento, travessas destinadas a mesas fartas, a convívios de domingo ao almoço, a risos e conversas de família e soltou-se-lhe a lágrima. Todos estes utensílios se haviam transformado em inutensílios e substituídos pelo plástico, pelo papel que jogado fora não dá trabalho, pela correria dos fins de semana dos mais novos sem tempo para convívio ou almoços de família, sem interesse por chás com bolo de laranja e triângulos de queijo e fiambre, ou scones. Tudo utensílios desusados, inúteis, inutensílios. Abriu a porta dos dias futuros e viu que não teria de se preocupar com testamentos, ninguém daria importância a cacos velhos, toalhas de renda ou copos de cristal, talvez levassem o faqueiro por ser de prata, certamente não lhes interessaria as gavetas da cozinha. Decidiu, então, que entregaria ao vizinho da frente, tão velho como ela, o recheio das gavetas, talvez ele lhes desse destino. Vindo o dia seguinte o amigo não atendeu, chamado quem de direito, encontraram-no sentado numa poltrona da mesma idade, com dois utensílios caídos no chão, caneta e um papel onde se podia ler, “Querida vizinha, agora que estamos os dois velhos e sem herdeiros para os nossos inutensílios, que lhe parece doarmos tudo e voarmos para um lugar onde a natureza nos abrigue? No lugar do amigo, estava agora o cadáver do então vizinho, que se havia transformado em natureza distante, deixando inutensílios para juntar e doar a outros velhos.

08/03/22

Mulher

Olha-te no espelho e vê o horizonte dum tempo perto, e nessa jornada breve encontra-te. Sei que com a idade nos confundimos com o papel de parede e que a nossa voz se apaga. À medida que olhas para o fundo do espelho, cada vez mais perto, está aquele tempo. O tempo em que os teus pés corriam na areia e o teu coração molhado de paixão percorria o caminho que te levava até ao outro. E assim se manteve até confundires os teus estados de alma e fugires para os braços de quem te apaziguava a fadiga. Tiveste o que as gentes do teu século entendiam ser o teu lugar. Foste guerreira e apesar de não teres ido à guerra, os teus admiravam-te. Lutaste por causas e entoaste melodias vitoriosas. Apertaste os filhos nos braços e alimentaste-lhes as bocas famintas até tu própria estares seca. Deixaste que te possuíssem o corpo e libertaste-lhes a alma. Chegaste numa noite passada, as tuas possessões não enchem malas porque as trazes dentro de ti. A idade fez de ti a mulher que és, exiges respeito e não queres compaixão, tens orgulho no teu porte. Dizem que és opulenta, mas és apenas grandiosa com mãos que abrangem sem agarrar. Porque tu quiseste ser livre e assim te relacionaste com o outro, com tantos outros. Foi por isso que decidiste entrar na comunidade de todos os tempos e correrias. Passavas um dia e depois outro até que, não querendo dar trabalho a gente menor, saltaste a barreira da porta. Corajosa, pensaste! Não, diria eu que te conheço. Alimentavas esse ritual que te atropelava o caminho inseguro, como da outra vez que fugiste para os braços do que, num repente, te confortava. Mulher, talvez estivesses certa. Agora aí especada, esperas que te recebam e te abram alas de diva, logo tu que sempre foste sensata. Devias ter percebido ao escolheres o papel de parede rosa pálido, florido, para te dar serenidade e má escolha. Deverias ter pensado que mar revolto te daria melhor voz. Ainda vais a tempo, não tens de ser confundida com a parede. Mulher, aproveita a tua lucidez e corre, muda o teu percurso, salta a linha da estrada, apanha o comboio da vida que ainda te sobressalta e ama. Ama o que te apetecer, quem te agradar, quem entusiasmares. Nessa Comunidade o tempo e a correria são feitos de liberdade e pela liberdade. Junta a tua voz a cravos e a rosas e levanta a bandeira de todos nós.Vive a liberdade de seres Mulher!

08/06/21

Ambição era o lema, vaidade o mote

Afonso, fechou a porta levando consigo outra cara e novos desejos,
julgou determinação em vez de coragem. Percorreu o tempo dos
tempos e preparava-se, agora, para o julgamento final. Deteve-se
sobre o passado, fincou os cotovelos nos joelhos e sentando-se no
cadeirão que há anos o esperava, equacionou a sua existência. Esta,
ali a seu lado, estava disponível como nunca o havia estado e foi
assim que o caminho começou.
No início, havia sido a descoberta, sem tempo para ser analisada,
sem vontade para sentimentos propícios a esquadrinhamento, em
gostos ou outros, a vida surgia sem simpatia ou empatia pouco
importando o que dele se pensasse, quem lhe estava próximo ou que
um dia lhe havia querido bem. Afonso, tinha decidido espezinhar o
passado com o batente e na calçada.
Construiu o império da sabedoria em livros e viagens, fortificou o
isolamento nas palavras escritas por outros e, algumas, por ele
pensadas para outros absorverem. Aparentemente indiferente, foi
levando a crítica e a assombração nos ombros, carregou horas de
desconforto emocional na jaqueta do absurdo. Seguiu com olhos
cerrados, comprou ódios e guerras, chamuscou e isolou ao seu redor.
Agora, à beira dum dia final, encontrava-se naquele pórtico, pernas
dobradas, cabeça inclinada. Buscava redenção, questionava o
caminho, refletia sobre fé e destino, nascimento e origem. Sentia o
sussurro da dúvida: poderia o homem afastar-se do seu nascimento?
Seriamos capazes de edificar longe do caminho arraigado àquele da
nascença e da tradição? Poderia um homem renascer das cinzas
rejeitadas ou ficaria nele um irremediável e escondido hipócrita?
Fazendo o exercício das parcelas, colocou dum lado o Afonso
profissional, do outro o intelectual e ainda o emocional. O primeiro,
brilhante no sucesso do negócio, superou a concorrência. O segundo
embevecido com a sua superioridade, alimentou vaidades na
conquista de adeptos para teorias inviáveis ou improváveis. O
terceiro, empenhou-se em argumentos de loucura assinalável e
conspiração intelectual.
Os três possuíam células que dando início a mutações podiam
transformá-lo num mentiroso, num velhaco, num ardiloso ou num
hipócrita e logo a seguir num interessante ou num paulatino cidadão.
Afonso, cogitava nestes aspectos da sua personalidade, não querendo
que um sobressaísse ao outro. Acreditava que tendo sido um
exemplar amigo de si próprio, também tinha sido um intelectual
honesto, um profissional orgulhoso e um portador de boas emoções.
Achava-se sem emenda ou correção, suportava o alheio e amava-se
mais do que a qualquer um. Aquele corpo vaidoso aguardava o
reconhecimento da sua genialidade. Continuava sem entender o seu
lugar no mundo. Fechou os olhos sem lugar para enaltecimento e
espreitou-se um velhaco enganador.

29/01/21

A brincar com o mistério e à laia de policial

Uns amigos haviam mencionado aquele Hotel num lugar maravilhoso e há muito colocado no plano de viagens a fazer um dia. Partiram  no Porsche e foram fazendo os quilómetros sem pressa. Parando a cada 200km, umas vezes para descansar, beber um refresco, comer uns pistachios, outras para aqui e ali descobrirem  os Hoteis de Charme da região.

Em Espanha, Sevilha foi a cidade escolhida pelo Flamenco, pelas Sevilhanas e pela própria Andaluzia.  Sentaram-se num lugar central para degustar as  tapas que acompanhavam um  Rioja branco, enquanto sentiam o vibrar do Bairro de Santa Cruz. Fizeram o clássico passeio dos amantes em, charrette ao entardecer. Naquela época do ano a temperatura era amena, 28º Celsius, uma benção divina. Subiram Las Setas, aquela out of the box estrutura arquitectónica  sevilhana. Tiraram fotografias ao pôr do sol, ainda lhes sobrando tempo para o passeio  no rio Guadalquivir.

Seguiram viagem atravessando os vinhedos e as planícies francesas, não deixando de visitar os Castelos de Loire. Experimentaram a cuisine française ses vins et sa patisserie, passaram pelas charmosas aldeias da Bretanha. Em Paris visitaram no Louvre a Exposição  Leonardo Da Vinci, e entraram em Itália. Desta vez, queriam chegar a Milão a tempo do concerto de Andrea Bocelli. Ficariam três dias, com os amigos italianos que lhes tinham aconselhado o Hotel Pasolini.

Em apoteose entrou o Porsche e seus ocupantes na verdejante propriedade. O edifício deixava adivinhar o interior e a perspectiva da paisagem sobre o lago não os deixaria serenar. O quarto virado ao lago era majestoso, próprio para qualquer membro da realeza ou de viajantes requintados. Decidiram jantar nessa noite  no Hotel e apreciar todo o esplendor do interior, que iluminado por uma luz ténue, mantinha a ilusão de séculos passados.

Finda a refeição recolheram ao quarto. No dia seguinte, o pequeno almoço seria  tomado  na varanda apreciando a beleza das águas do Lago Como. O luar iluminava o quarto, da varanda  escutavam-se os sopros e as nuances da corrente.  Olharam-se  não necessitando de palavras.

O grito chegou com o estalido abafado dum revólver, um, dois, três tiros foram disparados. Os quartos tinham sido insonorizados no ano anterior para salvaguardar o repouso dos hóspedes.

O Hotel Pasolini tem apenas três pisos e uma trintena de quartos no total,   todos têm varanda. O camareiro tocou à porta do quarto 13 do andar superior, trazia um carrinho de chá com o pequeno almoço completo para duas pessoas. Do interior chegou um sumido “entre”. No quarto, virado de pernas para o ar, havia um vulto que lhe pareceu ser de uma mulher.

A figura não era parte do casal, esse pormenor ele não sabia e já tinha levado o pequeno almoço a muitos quartos de hotel ao longo dos anos. Contudo, algo lhe pareceu suspeito naquela desarrumação. Deixando o carrinho de chá, fechou a porta e   comentou com os colegas da recepção que algo de estranho se deveria ter passado no andar de cima. Os outros encolheram os ombros e recomendaram-lhe que não se metesse na vida dos hóspedes, mas que ainda assim iriam verificar a saída do 13, o que, na realidade, nunca aconteceu.

No hotel instalou-se a dúvida perante aquele sinal de Don’t Disturb na porta e com determinação entraram no quarto. O director ficou perturbado com o que viu, parecia um assalto, as roupas rasgadas e espalhadas pelo soalho e a cama sem alguém lá se ter deitado.  Claro que, também, não viu o vulto de mulher que abrira a porta ao camareiro, nem o carrinho de chá e muito menos haveria de ver o Porsche no exterior da propriedade. Continuando as buscas, o carrinho de chá foi encontrado no jardim sem pequeno almoço, a mulher misteriosa concluíram que poderia ter sido uma ilusão do camareiro que a julgou ver e ouvir.

Do casal ou do Porsche  ninguém mais ouviu falar ficando a investigação em aberto até hoje. Na região ficou a dúvida se teria sido assassinato sem  prova ou fuga. Há também aqueles que dizem que os hóspedes não tinham cartão de crédito para a avultada despesa a pagar.

Alguns acreditam que foram levados pelas águas do Lago Como nalgum canto de sereia, enquanto outros garantem que estão numa ilha de actores americanos encenando o seu desaparecimento com identidade falsa e desconhecida. 

29/05/20

Sem palavras

A dificuldade é sempre a mesma. Quando nos dão a notícia do amigo com cancro não sabemos o que dizer. Não há palavras que nos preparem para mais do que apenas umas frases de circunstância. Porque uma notícia de cancro é quase sempre a antecipação de que aquela pessoa vai morrer e nós não sabemos lidar com a morte. Tão habituados estamos a viver e a juntar dias em cima uns dos outros que a perspectiva dessa corrente terminar nos deixa à deriva. E nem sempre o cancro significa morte, pode  o paciente ser bem sucedido. O que nos incomoda é ter de fazer de conta que está tudo bem, olharmos o familiar com coragem e junto do paciente encontrarmos palavras enganosas de pura consternação com medo de dar uma má notícia. Ocultamos tantas vezes a verdade e perante a morte somos tão pouco corajosos. 

13/05/20

Cheio de Muito

Por agora o tempo é feito de incertezas mas a vida das cidades humanizou-se. Varandas com gente que apanha sol, toma uma refeição, aproveita o conforto dos lares num tempo ainda estagnado. Outros  utilizam os espaços exteriores para passear o cão. E mesmo as gentes menos afortunadas vêm à janela participar o momento. 
As crianças, até há pouco confinadas no interior das habitações, usufruem da relva dos condomínios  que já foram proibidas de pisar. Trazem bicicletas e bolas, cumprimentam-se os vizinhos, olham-se e conversam distanciados pelas máscaras mas próximos nas palavras e nos gestos. As estatísticas, face ao período homólogo do ano anterior, revelam menos acidentes com crianças entre os dois e os cinco anos de idade, provavelmente por menos circulação automóvel e mais vigia parental, justificamos apaziguando o confinamento.
Não se ouve os motores dos aviões, o ar  respira-se melhor. O namoro com os pássaros inicia-se com o amanhecer ao som dos pardais, voamos nas tardes brandas com os bandos de andorinhas e ouvimos o grito das gaivotas que nos dizem estar a anoitecer.
Vejo as luzes e as janelas iluminadas que espelham famílias à volta duma mesa ou  reclinadas em sofás enquanto os plasmas televisivos piscam e mudam de cor. A música e os diálogos baixos lembram tempos que a minha miopia não identifica próxima mas  pertencente a horas sós,  os cães não ladram.
Pergunto-me se o mundo tranquilo que se me apresenta é verdadeiro. E se primeiro me inquietei com o efeito fantasmagórico da quietude das ruas, do silêncio dos espaços, a pouco e pouco fui percebendo a procura do outro e quanto podemos ser solidários, bondosos até, e que o mundo é bem melhor do que imaginávamos. Afinal não somos muito diferentes uns dos outros e na adversidade encontramos palavras, graças e desesperos iguais.
Abro os braços e encontro gente que sempre ali esteve, belezas que tinha deixado  inobservadas, caminhos que declinei por convenção e vejo que me retiram a dor. E mais uma vez pergunto-me se temos de fingir sofrimentos alheios ou  viver em conformidade com o momento que não tem tempo, apenas é! Sofremos e amamos por igual, somos condescendentes e frenéticos, gritamos, choramos e sorrimos em vários idiomas com o mesma intensidade e o mesmo fervor.
Em frente vejo o mar, a areia afaga-me os pés, os tornozelos sentem a espuma das ondas e sem qualquer medo ou remorso procuro o meu caminho num tempo que não consigo vislumbrar pasmado, porque o vejo cheio de gente, cheio de sentimentos, cheio de medos, cheio de incertezas, cheio de esperança e trabalho à volta  da vacina, com mortes e desespero também, mas acima de tudo cheio de vida. 
Porque te vi passar no caixão e não sei quem és,  apenas duas pessoas te acompanhavam no carro da frente, não levavas coroas de flores nem carpideiras emprestadas, foste vida e assim continuarás para quem te conheceu, porque a alma é a vida que se prolonga no tempo.

12/12/19

(Um) Segredo

Mãe, Vou contar-te um segredo. Cada Natal, deixo que o sonho me embale, me leve ao passado e me deixe ser só filha.
Há muitos anos que também sou mãe, faz mais de quarenta. Os teus quatro netos cresceram e são hoje homens e mulheres com as suas próprias vidas. Tenho orgulho neles. Têm filhos bonitos, pena que não os tenhas conhecido. Eu tenho netos, nasce o oitavo este mês. Estamos em Dezembro e o Natal à porta. A árvore faminta de enfeites aguarda o embelezamento.  Lembras-te como o pai gostava de a fazer? Os dois, ele e eu, na sala a colocar o sino, as bolas brilhantes, a estrela. Tu ias dando sugestões sobre as  luzes e as fitas coloridas. Recuávamos para ver o efeito, o som da rua  barulhenta e  dos carros a apitar com  os comerciantes a sorrir chegavam ao quarto andar, a janela entreaberta devolvia-nos o calor dos vendedores de castanhas, das montras de lojas  bem adornadas com iguarias e luzes em pisca-pisca.
Eras tu que fazias o presépio com as figuras que te acompanharam toda a vida. Cenas da vida em aldeia, apesar de sempre termos vivido na capital, com o espelho a fazer de rio e a ponte por cima. Ias buscar o musgo ao lugar da hortaliça, o mesmo que nos vendia o perú, ainda vivo, e que corria embebedado pela cozinha, até a boa Armandina lhe cortar o pescoço, esvaindo-se-lhe o glú-glú. Na cozinha fazias os coscorões e os sonhos, as rabanadas à última da hora, para que todos as saboreássemos mornas. O arroz doce e a aletria que só eu e o pai apreciávamos. O bacalhau, com as pencas enviadas pelas tias do Porto, na Consoada. Comprávamos o bolo-rei na Corinto, tu dizias que o da Monte Rei não prestava. Mania tua, eu achava-o igual. Ainda ontem, te perguntei pela receita do recheio do perú. Escrita com a tua letra já meio apagada, tive de a substituir pela minha, para que não se perca e sirva para as tuas netas.
Os sapatos deixados ao pé da árvore imaginavam a chegada do pai Natal pela chaminé da cozinha. Só viamos as prendas no dia 25, era difícil dormir em criança. Mantivemos a tradição com o passar dos anos. Com os teus netos ainda foi assim, hoje já não. A Venda de Natal que tu e as tuas amigas enchiam com lembranças feitas durante o resto do ano, com  os chás e os bolos para os lanches, com  o convívio dos mais novos no Advento e os namoros pelo meio. A visita aos idosos no, já decrépito, Hospital de Arroios. Tudo fazia parte desse nosso Natal, era bonito, era aconchegante. Era o meu tempo de filha pequena e depois de filha adulta com os teus netos. Foste muito cedo, foram os dois cedo demais.
Agora vejo na sala a lareira aquecida que afaga o ambiente. Volto a ser mãe e avó, faço a árvore, ligo as luzes, vou para a cozinha e repito o legado que me passaste. O bacalhau, o perú, as rabanadas mornas, os sonhos, o arroz doce e a aletria, o bolo rei, os frutos secos, as frutas cristalizadas, o espumante a acompanhar o perú no dia 25, os pinhões no puré de maçã, a batata palha, o ananás para acidular a percentagem  de açúcar. As crianças estão a chegar, a algazarra confunde-se com as frituras de última hora,vêm aperaltadas com roupas de festa, trazem faces reluzentes e sorrisos brilhantes. São avós, são pais, são filhos, é tradição, é amor, é eternidade. 

27/11/19

Voos de corpos e almas

Naquela noite de 23 de Dezembro, não interessa o ano, o terminal de chegadas do Aeroporto Sá Carneiro no Porto estava repleto de gente. No écran principal, informação sobre os voos previstos ou que haviam aterrado. Num outro mais pequeno, os minutos das malas até à passadeira rolante. Várias famílias aguardavam com ansiedade os seus filhos, os entes queridos e os amigos que já não viam desde o Natal passado, ou talvez mais. Estavam agarrados ao gradeamento, que separa e divide o corredor de chegada e o fiscal que não permite que os corpos invadam a saída. Com sorrisos, gritos, lágrimas e abraços conversavam uns com os outros sobre os familiares, que se adivinhavam do outro lado do fiscal. Reparei numa mulher que se chegou a mim com uma criança pela mão. A criança teria três anos, a mãe trinta e muitos. Sorri, dando-lhe oportunidade para encetar conversa.
Estou à espera do avião de Angola, disse-me. Estou nervosa e espero que o menino ainda sorria para o pai. Faz dois anos, que estamos dois cá e outro lá. O meu companheiro teve de aceitar este emprego, foi o que a empresa onde ele trabalha lhe propôs. Era Luanda com um bom salário ou nada e tivemos de optar. Eu fiquei com o menino, ele partiu e os dois ficámos de lágrima no olho, o menino não percebeu nada.  Este vai ser o primeiro Natal em que, juntos, fazemos a árvore e a ceia. Seremos uma família de pessoas felizes, adiantou. 
Sorrimos, desejei-lhe Bom Natal.  No écran o voo proveniente de Luanda havia aterrado. Mulher e filho voaram para o gradeamento que separa o fiscal do corredor humano,  levando o menino ao encontro do pai. Enquanto eu também espiava a chegada da minha filha, vivi com aquela mulher o reencontro saudoso duma pequena família separada pelas circunstâncias económicas, arrastando os corpos mas voando nas almas.

20/11/19

Benjamim, o embondeiro

Meu nome é  Morena, tenho a pele lisa de rugas, sou alta e esguia, tenho carapinha e gosto de olhar o mundo. Nasci em terras longínquas,  no calor de uma noite mansa. Minha mãe disse-me, que ao invés do que é habitual à  nascença, primeiro sorri e só depois chorei, saboreando com ela aquele  momento. Talvez, estivesse a olhar a terra e o céu africano com deleite. Sem nada saber, fui feliz, como só sabe quem lá nasceu e viveu, mesmo que por pouco tempo.
Naquela época, os anos de seca, ainda, eram camufladas pela exorbitância da natureza. Os animais corriam selvagens e enormes  na planície e bebiam juntos nos riachos, refastelavam-se nos lagos, alimentavam-se de frutos, plantas e os de maior dimensão de outros animais de pequeno porte. Não havia censura e os embriões das diferentes espécies cresciam serenos e no conforto da savana.
A floresta era grandiosa. Perto da minha casa, o embondeiro era a personagem principal. O seu imponente  tronco podia ser a minha casa. Era, seguramente, a residência de   muitos bichos que à noite se faziam ouvir. Lembro-me do elefante  que era o único que conseguia chegar e sacar as frutas dos seus altíssimos ramos.
Antigo, porque não tinha idade certa, aquela árvore transmitia a sabedoria de muitas gerações, que sem pressa, nos contavam as suas histórias e eram um ponto de encontro para as cerimónias tradicionais e religiosas. Acreditávamos que quem fosse enterrado junto ao embondeiro, mantinha a alma viva enquanto a árvore permanecesse  frutuosa.
O embondeiro que abrigava e protegia  a minha família até tinha nome próprio, chamávamos-lhe Benjamim. Ele acompanhava as mulheres bem antes da  nascença.
No meu País, acreditamos que   o embondeiro é a árvore da vida. Juramos também , que as meninas se tornam mulheres ao som das vozes que vêm do interior daquele tronco, porque ele guarda a sabedoria de todas as gerações de  mães, de avós, de tias, de irmãs, de mulheres sábias. E depois, sempre que nascia uma criança as mães prestavam homenagem a Benjamim, primeiro, no momento do embrião e logo a seguir no agradecimento da nascença. Muitas vezes, ele era o parteiro que assistia e agasalhava.
O embondeiro Benjamim tem altos ramos encaracolados que nem carapinha. Não se desfazem com a noite, nem caem com a madrugada, antes, o transformam  num esbelto e voluptuoso ser com alma, que sussurra levemente, como que falando com as estrelas. De tão alto e vigoroso, acredito  que  fala com os pássaros gigantes que levam nas suas asas as promessas, as paixões, as vontades e as desgraças, e que transbordando  o firmamento rumam para outras galáxias.
Um dia, também eu voei e trazendo comigo a sede africana, fiz-me investigadora e amante de muitas  árvores. Então, descobri que a floresta havia moldado a civilização e que, para além de contar histórias, a  sua madeira era comercializada. Combustível, navegação, indústria, fábricas de serração, agricultura, arte e decoração, e tantos sectores embrionários do desenvolvimento das cidades, dos países, das nações. Transformando-se o meu embondeiro num sem fim de partículas com maior ou menor racionalidade económica, pensei, então, que a minha terra africana podia utilizar este conhecimento e através da  sabedoria Harambé que significa todos unidos,  dar voz a projectos e a iniciativas locais. Dar a África e às mãos morenas, a capacidade de decidir o seu destino. Não deixando que a sede da terra possa destruir o crescimento da floresta e dos animais. Porque as árvores podem ser alimento através do seu fruto e da sua seiva milenar, não deixemos que a nossa mão as destrua.
Chamo-me Morena e nasci num país de terra vermelha. Cresci debaixo dum embondeiro que tinha a fama de ser milagroso e casamenteiro, que tem vida e que pode contribuir para o crescimento ecológico e sustentável. 

28/10/19

não gosto

Não gosto de gente rancorosa, que não é capaz de ultrapassar as menos verdades sofridas, porque mesmo que injustas são acontecimentos passados, que deveriam ter arrefecido com o tempo.
Não gosto de lutas que não compensam, que julgam e mal fazem, deixam mágoa no rosto e vontade de vingança no coração.
Serei comodista ou cinzenta? Serei pouco lutadora ou terei apenas chegado mais longe no meu pensamento e na minha visão do mundo?
Tenho mais certezas nas coisas básicas e menos nas subjectivas, não acordo com vontade de mudar o mundo, mas sim com o desejo de simplicidade, de justiça social, mais saúde para quem não a tem, menos pobreza para os Celestinos da minha terra.
Já não saio à rua para gritar, nem vou a manifestações, mas participo em causas nobres, garanto ajuda a muitos e não necessito de as publicitar. Por isso, repito, não gosto de gente vaidosa que não sabe dar sem pensar em receber.

27/09/19

Lamúrias de um velho amor

Olhas para mim com preguiça e nada fazes. Diariamente, os teus olhos pensam que tens de me fazer vibrar, passar os teus dedos em mim. Só que nada fazes, deixas para amanhã e eu sei que tudo não passa de vontades não cumpridas. Intenções!
E quanto isso, o que faço eu? Olho-te de forma penosa, sem vida, sem garra, sem toque. Estou triste e velho, prefiro que me chamem vintage. Tenho um preço elevado, tenho um valor inestimável, já vi e ouvi muitas gerações, já murmurei para muitos ouvintes, a minha voz já se fez ouvir ao longo de gerações.
Desde os tempos do teu bisavô. Lá nasci, lá fiquei até que me pararam por alturas do funeral, mais tarde acompanhei a tua avó e a tua mãe. Tu nasceste e eu dei-te as boas vindas e continuei no corredor até tu me resgatares e me colocares na tua sala.
Vejo o sol todas as manhãs, mas estou calado à espera que me toques para que eu possa badalar como sempre fiz. Dar horas é o meu vício e o meu empenho em não ser apenas um relógio de parede. Espero por ti todas as noites para uma vez por semana me alimentares e não deixares morrer a corda que ainda me resta.
Até amanhã, meu bem!

08/07/19

Para a Mariana, Muitos parabéns!


“Quando chega,
traz no olhar o brilho de quem sonha,
no rosto, a travessura dum sorriso,
na pele, o cheiro a Primavera,
nas mãos, a ternura do toque,
na voz, a doçura de um Cantar de Amigo,
no corpo, o desejo de um abraço,
na mente, a vontade de ficar.
...e parte.
Talvez um dia...”

In, “Há almas perfumadas...” Revista A Fonte, 2018 (Maria de Fátima Martins)

21/02/19

As Estações da Vida - Agustina Bessa-Luís



" A viagem de comboio tinha um cunho espirituoso. Sempre se encontravam pessoas raras, porque a província preservava o indivíduo e conservava o seu dialecto e os seus costumes. eram recoveiras, caixeiros viajantes, gente de negócio e do contrabando, estudantes em férias ou que as tinham terminado, padres e professores; e um sem-número de passageiros precavidos com um farnel de pombos estufados em vinho tinto do Porto e cavacas de Resende. Comida de gente regalada e antiga como havia na província profunda."