08/07/08

Dar tempo ao tempo

Corria o ano de 1990 e às 6:15 daquela manhã do dia 8 de Julho saia do imenso mar a jóia que o porto da cidade viria a abraçar. Dali em diante, o navio que a tinha trazido ficou atento no cais. Uma vezes pensou em partir, mas ainda não tinha chegado a hora. Procurou abrigo fora do cais para não enferrujar, pintou o casco e colocou bandeiras, lançou foguetes e organizou festas. Chamou visitantes para o distraírem, divertiu-se e chorou com saudades das águas calmas e tranquilas daquele oceano anterior, mas manteve-se alto e orgulhoso, tenaz e confiante. Hoje continua no porto de abrigo, mas tem a certeza que daqui a uns dias poderá partir em direcção ao Mar da Inglaterra, levando quem trouxe há18 anos atrás. E nessa nova viagem, o navio vai mais lento mas orgulhoso do dever cumprido, passará por pontes, chegará a outras cidades mas nunca deixará de zelar pelas pontes e manter a jóia brilhante e radiosa.

07/07/08

A jóia e a paz do guerreiro

Ter espaço próprio e um pouco de paz não tem nada que se critique a pais que trabalham dentro e fora de casa. Procurar meios para entreter filhos para conseguir esse sossego é tarefa que todos os pais modernos ou antigos sempre tiveram pela frente. Independentemente da idade, todo o progenitor necessita descanso porque uma criança cansa e até aqui nada de especial a comentar.
O rapazinho que acorda às seis da manhã, chora porque tem fome, a lindeza que acorda a meio da noite tem cólicas, aborrece o adulto que dorme e desperta toda a vizinhança. É uma das situações inerentes à condição de ser pai ou mãe.
A questão está na dificuldade em ultrapassar as implicações da maternidade e da paternidade.
E numa altura em que se debate a aplicação de penas pesadas para os incumpridores dos deveres para com o cônjuge que tem a custódia dos filhos em caso de divórcio, este tema volta a ser importante discutir, tanto mais que os homens reivindicam cada vez mais o seu direito ao aumento do tempo com os filhos, face à sua nova atitude perante a paternidade. Passando mais tempo com os filhos os pais têm iniciativas e aperfeiçoam a técnica do entretenimento. Como já disse anteriormente e volto a relembrar quem regressa a casa não é o "bebé Nenuco".
Assim, o pai que coloca o plasma no tecto do quarto do filho é apenas um pai habituado ao mundo virtual. Antigamente o pai tinha de esperar pela idade em que podia jogar à bola com o filho ou ir ao cinema com a filha para ser útil e feliz e situar-se na tarefa que lhe estava destinada - ser pai.
Hoje, o novo pai, ensina o que sabe. E o mundo dele são as consolas de jogos, os vídeos, o computador, e ele mais não faz do que iniciar o seu sentimento de utilidade paterna logo que pode. Com os comandos que potencialmente terá em casa este pai, e estes pais que mal os seis meses chegam passam o rebento para quarto alheio, são os pais que me asseguram que agora há todos os meios para vigiar à distância.
Eu que até não sou muito antiga e já vi destas coisas há 30 anos, lá longe no país do frio, não fico espantada. São exemplos da modernidade dos tempos em Portugal e dos pais que descobriram o conceito do grande espaço virtual. Os pais da globalização falam pela mesma cartilha e aprendem com os mesmos filmes e não necessitam das nossas antigas empregadas - criadas para nos ajudarem - ou dos familiares para nos falarem com a sua experiência.
Os pais ficam tranquilos porque sabem que com o auxílio da domótica podem controlar se o bebé chora, respira, tosse, mexe a perna ou o pé. Juntando a isto o livro da interpretação dos choros - se quer arrotar, se quer comer, se tem a fralda encharcada até ao pescoço - os pais nem necessitam de ter o bebé dentro de casa.
Não tardará o dia em que a casota do cão será o espaço do bebé. Aquilo que no passado se destinava a arrumos de bicicletas e brinquedos de praia, passará a ser o habitat infantil quando alguém disso se lembrar.
É mais ou menos o equivalente aos lares para idosos em versão júnior. E à distância, com os seus comandos, os seus visores, os seus computadores e as suas câmaras, os pais poderão estar descansados e continuar a sua vida tranquilamente. É claro que tal como nos lares não faltará comida nem faltará agasalho. Faltará o mais importante - os sons e os afectos - o carinho e o amor do familiar.
E as mães? Bom essas, como querem ter mais paz e sossego porque trabalham e não querem perder nada do adquirido, estão felizes e tudo lhes parece bem. Faltará a voz, o comando para situações diversas, o acompanhamento e acima de tudo a partilha do tempo com os seres que supostamente se desejaram. Olhem é o que se pode e como diz o outro, contra argumentos destes não há palavras.

01/07/08

O meu afilhado Apolo









Eu sei que padrinhos já não escolhem os nomes dos afilhados, mas mesmo assim eu gosto do nome Apolo. Ele tem força, tem vivacidade, tem inspiração, tem graciosidade, tem sentido de humor e savoir-faire, é aventureiro e clássico. Ele pode ser filho de Zeus e ser o preferido, ele pode ser apenas o jovem e belo campeão, ele pode ser dinâmico porque investe e acredita que voltará a ser nave espacial.
Gosto porque me faz lembrar o primeiro centro comercial que nasceu em Lisboa - o "Apolo 70" e porque também foi aí que António Variações teve o seu primeiro "salão" e, também porque era aí que se ia comprar livros e ao cinema e, acima de tudo, porque era muito chique.
Apolo será o nome do meu próximo afilhado.

La Féria - Um violino no telhado


Já em cena no Teatro Rivoli.
"Um Violino no Telhado", o musical de Filipe La Féria.

Voando sobre um ninho de cucos

Um Ninho de Cucos

O Prós e Contras tornou-se um programa de entretenimento familiar nacional. A mim parece-me bem termos programas que as famílias possam ver ao serão. Programas que não têm poucas vergonhas de sexo ou de violências nas escolas, aldeias, discotecas, estádios de futebol, tribunais, greves com camionistas, professores, médicos... As crianças coitadinhas, a seguir não dormiam sossegadas e não nos deixavam em paz. E a malta tem de ir para a praia no dia seguinte.
Agora o Prós e Contras é um espectáculo muito apetecível. Talvez uma musiqueta de vez em quando ficasse bem para dizer com a letra. A Fátima mantém o seu ar compenetrado, se bem que um pedacito de sol não lhe fazia mal e melhorava cor. Os convidados, apesar de estarem gastos e já os conhecermos, são como família e mantêm-nos sempre informados.
Os temas apesar de não variarem continuam a ter interesse e estão na ordem do dia de hoje, amanhã e depois. E de qualquer forma, mesmo que se agende outro tema, os convidados terão sempre a a oportunidade de trazer de volta ou introduzir o tema que lhes interessa discutir. Isto, ou porque não foram convidados anteriormente, ou porque o povo é "burro que nem um calhau" e nem vai dar por ela, e o que conta é o concurso entre convidados, entrevistados e as palavras.
Antigamente, contabilizavam os minutos que cada um falava mas agora parece que ninguém usa relógio, o que é muito mais salutar. Aliás, os telemóveis que de tempos a tempos ouvimos tocar nos programas são para avisar sobre o tempo que cada um tem para falar daquilo que não interessa nada.
O meu favorito é o Ministro Manuel Pinho. Sempre que ele aparece eu fico feliz. Aqui está alguém que nunca vem falar sobre males, desgraças e coisas esquisitas do meu país. Deixa-me sempre optimista porque nunca fala de Portugal.
Manuel Pinho dá-nos uma perspectiva do que se passa noutros lugares do mundo. Assim ouvimos o que significa tecnologia, emprego, informação, produtividade, liquidez no bolso dos cidadãos e nos cofres dos estados, eco turismo e desenvolvimento, parques industriais, campos com milho e agricultura crescente e sem aeroportos, pescas sem mercúrio, aldeias com gente, comerciantes contentes.
De vez em quando, também aparecem outros com gravatas "Mont Pelerin" e desconhecidos que advogam que as pessoas escolhem os sítios pela comida e pelos restaurantes, porque hoje em dia tudo é gourmet.
Eu diria é que vivemos num "ninho de cucos" e todos estamos a ficar mais ou menos "cucos".

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