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13/03/11

Tudo bem

Estava enganada e o que me parecia uns tantos no início da tarde deu origem a 280 mil ao final do dia. O silêncio deu origem a algumas músicas e a alegria manifestada, os mastros mostraram as bandeiras e os cartazes, em todo o país a manifestação foi ordeira. Aos jovens juntaram-se outros segmentos descontentes e com o elemento comum de estarem à rasca. A ideologia continuou a não existir e o grito ou palavra de ordem foi a precariedade. Do emprego, dos benefícios sociais, das reformas. O manifesto descontentamento pelo actual governo foi visível e a demissão de Sócrates esteve nos manifestos. Alguns acreditam, muito ingenuamente, que a queda do governo trará o oposto às palavras dos cartazes, abundância, empregos estáveis, garantia de subsídios e outros complementos sociais para a vida. Houvesse conhecimento político e saberiam que assim não é. Pela positiva ficou a capacidade dos cidadãos, que outrora estariam em casa, terem vindo para a rua manifestar o seu direito à rebelião, mas isso não impede que esta manifestação tivesse sido ditada pela experiência de não querer ficar atrás de outros jovens que, através do facebook, convocaram concentrações pela democracia. Em Portugal, a democracia está em perigo, os movimentos que a pretendem abalar andam por aí à espreita de uma oportunidade. Para a proteger devemos saber esolher quem nos governa. Foi isso que o povo fez nas eleições anteriores. Um povo que vota num Presidente que quer governar e num governo que não zela pelos seus interesses é um povo precário e à rasca que necessita urgentemente de se reavaliar.

02/03/11

Viajantes

(Imagem Graça Morais)

Parecem viajantes, deslocam-se com malas de médio porte em passo lento pelas calçadas. Assim de repente, ficamos com a ideia que pelas cidades passeiam ora jovens de outras nacionalidades com mochilas e rolamentos, ora gente de meia-idade à procura de alojamento. Em Londres, por exemplo, é normal a correria entre metro, combóio e autocarro, casa ou emprego com as malas pelo caminho. Logo pela manhã, o passo apressado que se verifica nos passeios da cidade, é acompanhado por pessoas que saem com destino marcado, seja uma estação de combóio, um aeroporto ou apenas mais um dia de trabalho. Por isso, quem habituado a uma vida de correria entre pontos de encontro observa cidades, não lhe parece estranho ver gente arrastando malas rua acima rua abaixo. Quando o olhar se cruza com quem se desloca ou nos deparamos com quem a dada esquina ou montra de loja conversa com outro viajante, verificamos que afinal a mala é a casa e o viajante vive acompanhado pelos seus pertences, almoça ou janta no albergue mais próximo, veste roupa lavada e usa as facilidades sanitárias dos banhos públicos ou casas de apoio e de solidariedade ao dispor. São reflexos dos tempos, escolhas de outros, dizem alguns, são os viajantes sem tempo, eternos andantes de um lado para o outro, com medo de morrer num lugar onde nem os cães os encontrariam. São os desconsiderados pela família, pelos vizinhos, pelos conhecidos, são os corpos castigados pelo sistema que, hipocritamente, por eles vai zelar e que no final lhes penhora a mala ou a vida. São pessoas que têm cara lavada e roupa a condizer e que no Portugal, supostamente ainda solidário, nos parecem apenas viajantes.
A morte da idosa abandonada há nove anos num apartamento perto de Sintra, vem de forma abrupta por em causa a ética social em que vivemos e para quem a palavra dos vizinhos não bastou e a falta de respeito da família levou à execução fiscal. Tivesse a pobre senhora feito parte dos viajantes com mala a reboque e, muito provavelmente sem querer tal sorte, ainda contemplaria a vida pela janela duma ilusão mais consoladora.
Escolher é um direito, optar por uma escolha nem sempre é igual a estar melhor, mas é seguramente um dever de todo o cidadão e um direito duma sociedade democrática. Pensemos, então, no que podemos fazer para evitar casos semelhantes e olhemos menos criticamente para esses viajantes que, não tendo casa, vivem de forma errática pelas cidades.

(publicado igualmente no Delito de Opinião)

01/03/11

Hoje

o Delito de Opinião estende-me a passadeira vermelha. Um especial abraço à Ana Vidal e ao Pedro Correia.

26/05/09

Trocar ideias

A pergunta era "O que pode fazer de útil para ajudar a sociedade um grupo de jovens?". O jantar - conferência no Horta dos Reis era agradável, o conferencista interessante. Fui até lá e ouvi muita gente e vi um grupo de pessoas jovens umas mais do que outras empenhadas em "querer participar, em querer ser um grupo activo participativo a pensar e a estudar soluções e a incentivar a participação da juventude portuguesa nos assuntos sociais, políticos e económicos do nosso País, mediante organização de conferências e debates que se pretendam edificantes e com raciocínio crítico e independente."
A ideia não será original e a "Plataforma Pensar Claro" ainda estará em fase de orientação. Apesar de tudo gostei de ver jovens que apesar de se revelarem de direita são revolucionários como a esquerda, porque me indica que a sociedade mais jovem começou outra vez a pensar e a querer intervir e isso para mim já é o começo. Gente amorfa e sem opinião ou que não esteja sequer interessada em pensar já temos que chegue. O tempo dirá se este grupo perde a vontade e se morre cínico à nascença. Espero que não, todos são bem vindos desde que sejam capazes de pensar e agir em conformidade.
Do conferencista guardei a seguinte frase por me parecer pertinente no tempo, na hora e no argumento.
"Se dizem que os portugueses são idiotas, eles não podem escolher os governantes." - Pedro Arroja, 21-05-09

06/05/09

É servida?

Andamos sempre com pressa. Estacionamos e damos uma moeda ao rapaz que nos ajuda a encontrar um lugar para estacionar, mesmo que o parquímetro esteja ali ao lado. Faz parte dum serviço que ele presta e que nós acabámos por aceitar. No Porto, os arrumadores desapareceram por uns tempos, mas uns tantos ficaram residentes, por isso não estranhamos vê-los. Ficamos até às aranhas quando não os temos por perto, porque eles facilitam a vida. Ontem fui ao sítio do costume, o rapaz apressou-se a limpar os jornais do chão e a fazer conversa enquanto esperava pela moeda que já sabia que eu lhe daria. Estava a comer dizia, ele. Tinha ido buscar umas coisitas ao Pingo Doce com o dinheiro que lhe dávamos.
Carro arrumado, virou-se para mim e perguntou: É servida?
Eu afastei-me com um sorriso nos lábios e pensei como a vida nos dá hipóteses diferentes e que apesar da pobreza ainda há quem pense que deve partilhar com quem lhe dá. A Porta do Vento tem hoje um tema idêntico que merece ir lá espreitar.

21/10/08

Pôr em comum

Quando os meus filhos andavam na primária, agora o 1º ciclo, havia um dia por semana para falarem sobre diversos temas. Era um momento de grande importância para os pequenitos que sentiam a responsabilidade de perante os colegas e a professora, responderem a perguntas, questionarem os outros, serem questionados e acima de tudo aprenderem a ser tolerantes uns com os outros. Este espaço era de tal forma levado a sério que um dos meus filhos - hoje um jovem e responsável médico - ficava com "tonturas" até eu perceber que eram sempre na véspera dum determinado dia da semana. Foi assim que entendi a raiz do problema, e o que era afinal o "pôr em comum". Quero eu dizer, que "é de pequenino que se torce o pepino", ou seja que é no berço que se passam as ideias fundamentais de liberdade, de respeito, de compreensão, de tolerância, e também se ensina a dizer não a sistemas totalitários e a ideias impostas pela prática da repressão. E a propósito destes princípios escolhi hoje no Público, os textos de:
"Filosofemos" de Desidério Murcho ("...mas os filósofos são os primeiros a não aceitar as ideias uns dos outros e a criticá-las cuidadosamente. Pensar que não podemos fazer o mesmo é pensar que somos inferiores, não podemos ser filósofos, só podemos ser comentadores, historiadores... Que se dane tudo isso. Filosofemos - mal, sim, a principio. Mais vale filosofar mal do que não filosofar de todo em todo").
"Volta companheiro Vasco, que estás perdoado" de Helena Matos ("...acima de tudo paira a nomenklatura... com o socialismo a tornar-se cada vez mais pesado, o sonho de cada português é tornar-se mais um protegido...o socialista que ...(Vasco Gonçalves) foi fazia de nós opositores. Os actuais transformaram-nos em contribuintes faltosos ou caso tenhamos conseguido o milagre de ter tudo pago, licenciado e devidamente aprovado, em cidadãos pouco solidários).
"A maioria ilusória" de Miguel Gaspar (" percebi que havia qualquer coisa de esquisito - e de interessante - nas eleições açorianas...o líder falou precisamente oito minutos....oito minutos foi o tempo concedido a César perante a multidão irrequieta que esperava pelo comício de ...Tony Carreira....E a eleição ficou marcada por uma brutal e preocupante abstenção....E face ao avanço da abstenção, as maiorias não são ilegítimas, mas tornam-se de algum modo, ilusórias").
Três peças de autores tão diversos e complementares como aqueles que à partida fazem parte de uma sala de aula da instrução primária. Todos eles são gente com voz, uns saberão mais do que outros, terão cores diferentes e roupas melhores ou piores. Mas têm um a coisa em comum: debatem assuntos, pensam sobre eles e partilham com os outros. E neste caso, rejeitam totalitarismos e ilusão de princípios.

15/10/08

Dupla nacionalidade no Luxemburgo

O Luxemburgo leva hoje a votação a lei da dupla nacionalidade. Para os 80.000 portugueses que aí vivem e que representa cerca de 30% da população emigrante, a aprovação da lei representa um maior número de oportunidades de emprego, de integração social e a oportunidade de passar ao patamar de cima e ser um cidadão de primeira. Para os emigrantes portugueses que apesar de viverem melhor no Luxemburgo do que viveriam em Portugal, este é um passo que se eles quiserem, poderá significar deixar de ser o pobrezinho no estrangeiro. Os emigrantes, seja que de origem forem, fazem aquilo que os cidadãos dos países que os acolhem não estão dispostos a fazer pelo mesmo salário. Para nossa sina, no Luxemburgo, todas as empregadas domésticas, balconistas, motoristas e empregados de construção civil, continuam a ser portugueses. Para nosso dissabor, estes portugueses que trabalham e muito, para amealhar - e que nos últimos tempos, nem sequer é para regressar ou enviar remessas, porque as taxas de juro são mais elevadas no Luxemburgo, limitando o incentivo a enviar o que quer que seja para Portugal - continuam a ser considerados os pobrezinhos que não auferindo os salários mínimos dos luxemburgueses, necessitam de subsídios para a educação, para a saúde ou para a compra de habitação. Um casal de portugueses em que ela na limpeza das casas de patroas luxemburguesas ganha cerca de 13,50 euros "declarados" por hora - como orgulhosamente uma me dizia - e ele, a trabalhar para um patrão português na construção civil, dias de horário normal mais os sábados "porque aqui não há nada para fazer, e vamos aproveitando o fim de semana para ganhar mais uns trocos", correspondendo a um rendimento familiar "limpo" de 5000 euros por mês, é considerado cidadão de segunda a necessitar das ajudas do governo luxemburguês. Assim este casal com dois filhos um com quatro e outro com oito anos, paga 5,00 euros por mês para ter os filhos na primária e no infantário com almoço e lanche incluídos, podendo pagar 8,00 euros, se quiser que eles fiquem na escola até às 18 horas.
Este casal de emigrantes, boa gente e até esclarecido, que comprou uma casa, mas como continua a ser considerado o probezinho no Luxemburgo, tem um subsídio ao empréstimo à habitação, recebendo agora cerca de 500,00 euros por mês para fazer face ao financiamento que o obriga a pagar cerca de 1200,00 euros mensalmente durante 15 anos. Ou seja, este casal que vive numa casa comprada, que tem dois filhos, que tem dois automóveis, que vem uma vez por ano a Portugal, que já construiu a sua casinha na aldeia minhota no terreno dos antepassados, e que pode gastar cerca de 10,000 euros quando vem de férias à terra, continua a ser considerado de segunda fora e dentro do espaço Schengen. A aprovação da lei irá fazer com que os portugueses deixem de ser portugueses de segunda, porque agora o governo não tem a mesma razão para lhes continuar a dar subsídios e os empregadores fazerem vencimentos "declarados" mais baixos do que fariam aos de nacionalidade de primeira. Nesse caso, os portugueses e os luxemburgueses poderão ser apenas cidadãos que passaram ao estatuto de expatriados. O problema é que a mentalidade de emigrante continua a fazer-se sentir nas mentes de todos aqueles que são e que vêem quem parte e quem chega. E os portugueses que partiram de Portugal com o espírito de amealhar uns trocos e trabalhar porque "aqui não há nada para fazer", bem têm de pegar no carro e ir ao sábado e ao domingo ali ao lado a França , à Bélgica ou à Alemanha para ver mais alguma coisa e não ficar à espera que sejam os filhos a ter de descobrir que o mundo e o Luxemburgo, não são assim tão pequenos.
Foi o que eu fiz este fim de semana. Uma vez no Luxemburgo, fui ali até Reims passar o dia, ver a Catedral, comer uma boa refeição, encontrar excelente sol, que contrariava o nevoeiro anterior, e ainda regressei a tempo das enfadonhas reuniões de trabalho que fazem parte do nosso dia a dia. Mas isto sou eu e as minhas escolhas.

19/08/08

Londres,UK 2008

Correndo as ruas de Londres é difícil deixar o multi culturalismo de lado. Diferentes etnias umas mais emigrantes que outras populam espaços, galerias, museus, mercados,ruas ou universidades. Os Campus ainda estão vazios, mas não tarda que cheguem os primeiros estudantes que irão engrossar um corredor de gente à procura de outros saberes. Apesar da falta de sol, apesar de muitos "if" que continuarão nos diferentes países de origem, os portugueses vão gostar do fish and chips e qualquer semelhança com os douradinhos do "Capitão Iglo"é pura má língua.
Em Londres só andar na rua e passear nas margens do Thames enche a alma de risadas. E risadas é exactamente o que um país cheio de sol como o meu não tem. E pouco a pouco o meu país vai tendo menos dias de sol e mais dias cinzentos, com crimes e medos. E assim como assim, vou ali ver aqueles que fazem uma despedida de solteiros num pedacito de areia que encontraram numa das margens do rio, sem que ninguém os incomode. Assim como assim, vou ali mais um bocadinho ao Tate Museum, assim como assim vou ouvir um concerto no parque e assim como assim vou passar pelo Borough Market e comprar umas costeletas de borrego juntamente com um queijo do Lake District. Ah! e tudo isto sem entidades tipo Asae a meter o bedelho. E para os mais novos a música é sempre diferente, mesmo que a letra e o artista nos pareça "dejá vue"

14/08/08

Será que o meu porteiro é que tem razão?

Primeiro foi a questão das massagens proibidas em terras algarvias, pois não fosse o diabo tecê-las e a malta estrangeira pensar que isto é a Tailândia. Agora é o ruído das madrugadas e o álcool dos espanhóis que tem vindo a preocupar alguns responsáveis do sul do país, e que apenas representa vandalismo, que tem de acabar. Ainda se comprassem as bebidas em território português,vá, que não vá, agora essa de virem munidos de arcas frigoríficas é que já é de mais. Digo eu!
Com todos estes constrangimentos o "Allgarve" está a ficar difícil e para um país que entende o turismo como uma rampa de salvação para o país fervilhar em crescimento e evolução, nem o "Allgarve" morre, nem o país almoça. O meu porteiro é que tem razão: "É o bandalismo!"
E agora, fico baralhada, afinal quem é que tem razão: o meu porteiro Sr. Melo, o nosso ministro Pinho - com o conceito do "Allgarve" ou os responsáveis algarvios com as praias e os hotéis em plena época turística? E já agora, será que esta é a altura apropriada para proibir e afastar, os tais que vieram à procura do sudoeste da Europa?

02/04/08

Quiz

A CMP terá como candidatos:

- a Elisa, o Rui Rio e o Outro?
- a Elisa, o Rio e o Moreira?
- o Rui Rio, a Elisa e o Rui Moreira?

Quem acertar tem lugar a aparecer nos cartazes da campanha.

04/03/08

Debatendo o debate

Os debates são experiências interessantes porque todos partimos para ele com ideias feitas e prontos a intervir. Qualquer académico que se preze não tem dúvidas que poderá contribuir com as suas convicções para o debate do tema proposto. Assim, aceita mais uma vez participar neste ou naquele programa, nesta ou naquela conferência. Normalmente o exercício é uma pura perda de tempo, porque raramente o entrevistado consegue o pretendido, ou seja, passar a sua mensagem com convicção, calma e tranquilidade. E se na realidade o consegue, essa calma é imediatamente espicaçada pelo orientador do programa porque não está a cumprir o papel da sedução do ouvinte. O comunicador está a ser demasiado racional e a voz anda na mesma nota musical.
O debate da educação, da autoridade dos professores, das escolas e das universidades tem vindo a ser mais do que gritado, mas na verdade ninguém se entende. Se a escola fácil não prepara para a vida difícil como diz João Lobo Antunes, se não há receitas porque cada um vive as experiências de forma diferente como na doença, então também não será com a aventura da educação como diz António Câmara e com a aposta em formar exploradores nas universidades, que se deixam de formar empregados nas escolas portuguesas.
Pais e filhos na aventura da educação seria um dos temas mais apropriados para começar o debate. É que na verdade, a questão está nos valores passados de geração em geração, e nesse campo as jóias têm sido pequenas e o pechisbeque tem emergido às bateladas. Debater princípios e valores com quem não tem sido capaz de educar em casa, não é fácil mas é aí que se devem colocar as primeiras experiências. Experimentar antes de saber pode não ser uma boa ideia, mas ninguém consegue saber sem fazer. Agora, o que me parece é que temos passado o tempo a fazer de conta que sabemos, para acabarmos com frases filosofadas do "só sei que nada sei".
O que eu sei, é que não podemos gastar o nosso tempo, que é pouco, na tentativa de formar uma classe social culta e experiente que dê origem a processos de cidadania para a mesma pequena franja que sempre foi culta e experiente. O que eu sei, é que avaliar professores sem avaliar pais, dirigentes, políticos, empresas públicas e privadas, instituições em geral que formam uns, dão emprego a outros e constituem a sociedade, não nos deve levar a bom porto. Deve levar sim, ao que temos vindo a conhecer nos últimos anos, e essa realidade não é beleza nenhuma nem jóia de que me orgulhe particularmente.